terça-feira, 1 de agosto de 2017

Crítica de "Dunkirk"

A Segunda Guerra Mundial talvez seja o tema mais batido do cinema hollywoodiano. Isso porque a contundente vitória estadunidense ao final da guerra permitiu ao país assumir a posição de superpotência - fato que se alastra até os dias atuais. Assim, a Segunda Guerra representa o triunfo final dos EUA e sua vitória é motivo de muito orgulho para o povo americano, sendo traduzida através de inúmeros longa-metragens produzidos acerca do tema. O mais recente "Até o Último Homem", por exemplo, é um claro exemplo dessa necessidade, muitas vezes exacerbada, da heroificação do cidadão americano, de forma petulante e arrogante, na maior parte do tempo. Por outro lado, diretores que apresentam uma sensibilidade aflorada e habilidade em contar boas histórias tendem a deixar obras inesquecíveis, verdadeiros clássicos da sétima arte. É o caso do grande Steven Spielberg, idealizador de filmes como "A Lista de Schindler", "O Império do Sol" e "O Resgate do Soldado Ryan". Eis que surge Cristopher Nolan, em 2017, querendo mostrar ser capaz de realizar um bom filme de guerra, que o coloque no patamar dos maiores diretores da história.

É inegável que o inglês é um dos melhores cineastas atuais, tendo em vista sua já extensa filmografia (ele tem apenas 47 anos). Nolan é responsável pela icônica trilogia do Batman, além de ter realizado excelentes películas, tais como "O Grande Truque", "Amnésia", "A Origem" e "Interestelar". Em seu primeiro filme histórico, Nolan demonstra que sua experiência em montar bons cenários foi extremamente válida. "Dunkirk" retrata a batalha de mesmo nome, ocorrida no litoral francês. Basicamente essa é a premissa que acompanha todo o longa. Todavia, a excelência do filme está contida nos devaneios, os pequenos detalhes que realmente importam em uma guerra. É como se estivéssemos estudando a Revolução Francesa sem focar nos principais (Robespierre, Napoleão, e etc), mas sim se acompanhássemos aqueles que tomaram a Bastilha, aqueles que foram assassinados durante a revolução. "Dunkirk" foge do estereótipo ao conter diversos núcleos de narrativas, compostas por soldados, civis e oficiais, retratando-os com extrema humanidade e se caracterizando como um verdadeiro relato de sobrevivência.

Nesse quesito, o filme acerta ao evitar a extrema "vilanização" dada aos nazistas, já que, por toda a película, apenas acompanhamos os ingleses tentando voltar para a casa, assim como qualquer um faria. Não existe menção à crueldade nazista ou ao motivo da batalha estar acontecendo. O filme não é presunçoso a ponto de querer explicar a guerra (como muitos fazem), mas se limita a desenvolver apenas a batalha de Dunkirk, e os homens que lutaram nela. O roteiro é inteligente ao economizar nos diálogos - a maior parte do filme é apenas sonorizada pela trilha e pelos barulhos de bombas, tiros e explosões. Tal recurso sonoro reitera a veracidade da guerra, sua crueldade e visceralidade, onde apenas a sobrevivência importa. A mixagem de som e a edição encaixam-se perfeitamente nesse aspecto. Já a trilha sonora talvez seja um dos pontos altos da metragem; é simplesmente impossível não se sentir apreensivo com a música. Aliado a isso está a montagem fenomenal, capaz de intercalar os diferentes núcleos de personagens de forma dinâmica, sem prejudicar, de forma alguma, o ritmo do filme. A direção de Nolan é extremamente consciente no que quer abordar: os planos longos e abertos são utilizados de forma frequente, mas inseridos em um contexto plausível e com uma movimentação de fácil entendimento para o espectador. O uso da câmera tremida em momentos oportunos também reforça a imersão do espectador no ambiente hostil da guerra, gerando uma sensação de angústia e impotência.

A paleta acinzentada de cores aliada aos belos planos aéreos tornam a fotografia de "Dunkirk" maravilhosa, um verdadeiro espetáculo visual. A equipe técnica do longa realizou um brilhante trabalho. Contudo, um filme só é capaz de perdurar no imaginário do público se sua mensagem for forte. E "Dunkirk" consegue fazer isso. O filme acompanha homens comuns durante a guerra, mas não apela para o excesso de melodrama. O fato de não existir nenhum protagonista reflete a vontade de Nolan em abordar não os ingleses ou os franceses, mas sim o ser humano em si. Afinal, em um momento de hostilidade como é uma batalha de tamanhas proporções, o comportamento humano é muitas vezes falho, covarde e insensível. Isso porque simplesmente não estamos preparados para encarar o nosso destino, e a possibilidade de sobreviver conta muito mais do que a vitória do país. Nolan mostra que, mesmo com aliados ao seu lado, em um contexto de tanta hostilidade a máxima é "cada um por si". Ao retratar os personagens de forma extremamente sensível e humanizada, o apego do público é muito intenso, o que contribui para o excelente andamento do longa. "Dunkirk" apresenta inúmeros aspectos técnicos que merecem exaltação, mas é o retrato de Nolan acerca do homem comum na guerra que torna o filme tão especial.

Nota: 



- João Hippert

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Precisamos falar sobre: "Sete Minutos Depois da Meia-Noite"

"Sete Minutos Depois da Meia-Noite" (originalmente "A Monster Calls") é um daqueles filmes que fazem sucesso nos festivais ao redor do mundo, porém, ao atingir solos brasileiros, duram pouco e fazem parte de um circuito extremamente reduzido. A data oficial de estreia do filme no Brasil foi 5 de Janeiro de 2017, contudo grande parte do público não teve a oportunidade de ir ao cinema. Eis que o filme surge no catálogo Netflix e torna-se mais acessível, suscitando diversas discussões acerca de temas deveras profundos e filosofantes.

O filme acompanha Conor, um menino que sofre bullying na escola e tem uma mãe com uma doença em estágio terminal. O menino começa a receber visitas de um monstro "amigo", que conta para ele algumas histórias. A premissa parece básica, mas a estrutura do longa é diferente de quase tudo que já vi no cinema. Trata-se de um exímio conto de fadas, na acepção mais pura da palavra, sem os devaneios tão comuns na versão Disney (nesse quesito se assemelha ao excelente "O Labirinto do Fauno"). O clima pesado referente à situação emocional na qual se encontra o protagonista conversa com a morbidez das histórias contadas pelo monstro. De certa forma, é possível comparar as histórias com a própria realidade em que vivemos, haja visto que uma história sempre parte de um contexto real. E, muitas vezes, uma simples história fantástica pode nos ensinar muito mais do que palavras jogadas ao vento em seu sentido denotativo.

Nesse sentido, o diretor J. A. Bayona acerta em cheio ao conectar os diversos elementos fantásticos com as situações vivenciadas pelo menino. Se em uma cena vemos Conor destruindo um castelo imaginário concomitantemente com um caos produzido na casa de sua avó, também percebemos como tudo o que ele pensa sobre a moral deve ser destruído. Estamos acostumados a viver em um mundo regido por normas de convivência e comportamento e, o simples fato de desejarmos algo fora do comum, nos torna culpados - não só pela sociedade em que vivemos, mas também por nossa própria consciência. O monstro, ao demonstrar a necessidade de Conor destruir os ambientes opressores ao seu redor, seja na metáfora de um castelo, seja no ambiente arcaico da casa de sua fria avó, prova como a verdade humana só pode ser atingida ao se desconsiderar todo o ambiente ao redor. Fugindo de perspectivas deterministas (tão presentes no mundo atual), o longa aborda profundamente a concepção platônica do ser, fazendo o público refletir acerca das verdades irrefutáveis que temos que engolir e refletindo sobre a famosa questão: "o que faz o ser humano ser humano?".

(a partir daqui alguns spoilers do filme são revelados)

Toda essa reflexão é extremamente favorecida pelo arco final do protagonista. Como um menino com o pai ausente e sem nenhum amigo é capaz de lidar com a eminente morte de sua mãe, único laço amoroso que ainda possui? Inicialmente, Conor parece desejar muito que sua mãe sobreviva, apelando ao monstro (que é uma árvore curandeira) para salvá-la. Entretanto, o monstro parece desconfiar da veracidade do sentimento do menino e dá indícios do que ele realmente queria escutar: a verdade. Conor deseja que sua mãe sobreviva (é claro), mas ao mesmo tempo não suporta que sua mãe sofra tanto com a doença. Ao mesmo tempo que ele quer sua mãe bem ao seu lado, ele quer que seu sofrimento acabe. Mesmo que isso signifique sua morte. Ao destruir todas as barreiras impostas por sua consciência, Conor descobre ao final que não é "pecado" apresentar tais sentimentos dualistas. Simplesmente faz parte de ser humano: às vezes queremos coisas contraditórias e sofremos com coisas exatas. Não existe uma fórmula certa para nos dizer o que fazer e como fazer. Em uma belíssima cena final, o monstro narra: "E, por fim, o menino agarra forte sua mãe e finalmente deixa ela ir." Ou seja, ao final de sua jornada Conor percebe que a estadia de sua mãe na Terra já estava no fim e aceita com resignação. Apesar de sentir tristeza e saudade, Conor entende que faz parte da vida. A vida é um passeio onde apenas conhecemos o início e temos certeza do fim. "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" nos mostra como o sentimento humano é paradoxal e como está tudo bem por conta disso. As grandes reviravoltas da vida e os momentos de sofrimento são as coisas que a tornam extremamente válida, mesmo que não a entendamos plenamente. É nossa parte aproveitarmos cada momento da forma que achamos melhor, deixando de lado qualquer meia culpa que nos impeça de alcançarmos nossos objetivos. Ás vezes precisamos ouvir palavras de um monstro para realmente darmos valor à mensagem.

- João Hippert

domingo, 2 de abril de 2017

Crítica de "A Bela e a Fera"

Walt Disney Studio é sinônimo de clássico. Desde os primórdios do cinema, com a realização de "Branca de Neve e os Sete Anões", até o recente "Zootopia". Quando se trata de criar universos e personagens fantásticos, a produtora é imbatível. De uns tempos para cá, todavia, a Disney tem investido em produções que retomam universos já conhecidos pelo público. Basta lembrar dos recentes sucessos "Mogli" e "Malévola", que renderam uma boa bilheteria, além de serem elogiados por boa parte da crítica internacional. Eis que chega a vez de revistarmos um dos contos de fada mais clássicos de todos: "A Bela e a Fera", que já havia se tornado uma animação em 1991. O longa acompanha Bela (Emma Watson) que, após ficar presa no castelo de um terrível monstro (Dan Stevens), começa a desenvolver sentimentos pela fera, contrariando a opinião dos habitantes de seu vilarejo.

O roteiro do filme, escrito por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos, segue o senso comum da narrativa de mundos fantasiosos. As viradas são feitas com bastante segurança, sem surpresas maiores ao longo do longa. Isso é algo positivo, pois faz com que a direção e a fotografia se sobressaiam na representação do universo fantástico. Os roteiristas lidam muito bem com o primeiro ato do filme, em que somos apresentados ao cotidiano monótono de Bela e sua vontade por ser mais do que aquilo. Nesse sentido, o desenvolvimento da protagonista é perfeito, visto que ela é sempre senhora de seu destino e "motor" dos acontecimentos ao seu redor. Em tempos de escândalos machistas, uma mensagem como essa é imprescindível. Além disso, o roteiro introduz certos elementos que trabalham a sexualidade dos personagens, o que foi alvo de crítica ao redor do mundo. Contudo, o trabalho foi bem feito, reiterando o papel do cinema em quebrar certos tabus vigentes na sociedade.

A direção de Bill Condon é essencial para a construção do ambiente do filme. Desde o início, com o movimento da câmera se afastando e aproximando, dando sensação de pequenez e grandeza, o espectador consegue distinguir a dimensão dos locais referidos. A fluidez do movimento de câmera na cidade permitem cenas belíssimas, que são realizadas com excelentes números musicais. As músicas em si não precisam de comentários, já que são clássicas desde a animação de 1991. Mas a sensação de ouvir "Beauty and the Beast" e "Be Our Guest" na telona é sempre a melhor possível. A coreografia e o figurino são extremamente condizentes com o tom fabuloso da metragem. Bill Condon nos oferece uma jornada impressionante a um universo já conhecido, mas sob uma perspectiva diferente e especial. Talvez seja por isso que os remakes da Disney sejam tão bem feitos. O diretor tem a liberdade de dar seu ponto de vista para a história, mas esta continua sendo "A Bela e a Fera". Um clássico é um clássico, independente de sua roupagem.

Luke Evans interpreta um Gaston carismático e com forte presença em tela. Emma Watson mostra-se uma atriz com muitas camadas, ao conseguir dar força e sensibilidade para uma personagem deveras complexa. Talvez o único grande problema do filme seja seu ritmo. Na transição do primeiro ato de apresentação para o segundo ato de desenvolvimento, o diretor se perde um pouco no rumo da narrativa. Enquanto o início é levado com bastante naturalidade e calma, dando ênfase à criação dos ambientes e personagens, o segundo ato se acelera demasiadamente. O romance inicial entre a Bela e a Fera é resolvido em pouquíssimas cenas, o que tira do filme a fluidez que havia sendo apresentada. O amor entre os personagens só é crível devido ao conhecimento do público acerca da história prévia, o que configura um seríssimo problema estrutural da obra. Ademais, o filme de 2017 é uma digna refilmagem de um clássico, trazendo a história sob um ponto de vista inventivo, mas sem tirar o brilho que imortalizou a animação de 1991.

Nota: 

-João Hippert 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crítica de "Fragmentado"

M. Night Shyamalan talvez seja a eterna promessa de Hollywood. O diretor abalou o mundo em 1999 com o poderosíssimo e já clássico recente "O Sexto Sentido". Um ano depois, Shyamalan trouxe para o público o bom "Corpo Fechado". Vale ressaltar que muito do mérito de ambos os filmes está na construção narrativa perfeita até a chegada de um plot twist. E é essa a grande sina da carreira do indiano até então; já que o público sempre espera algo surpreendente, os filmes nem sempre agradam. Mas eis que chega "Fragmentado", que parece realmente quebrar com tudo aquilo que esperam de Shyamalan. O filme conta a história de um homem com múltiplas personalidades (James McAvoy), que sequestra três meninas na porta de um shopping sem motivo aparente. O roteiro se desenrola através das conversas das garotas com as diferentes facetas do homem.

Primeiramente, é notório o ambiente angustiante do filme. A direção calma, ao início.sem movimentos aparentes, e a câmera focada nas expressões faciais dos atores permitem uma completa imersão no ambiente mostrado. Aliado a isso, está o roteiro deveras redondo, que consegue conter diversas camadas dignas de discussão. Ora, quando McAvoy exibe uma personalidade infantil, o espectador sabe que é um momento de alívio e até mesmo de conseguir algumas vantagens. Quando o personagem torna-se uma mulher, o sentimento mais frequente é a dúvida e o receio quanto às ambições da personagem. E não há como negar o medo assaltante que a faceta maligna impõe. O roteiro consegue, de forma prática, caracterizar as diferentes personalidades, de modo que sejam de fácil reconhecimento.

Um ponto negativo do roteiro é a falta de aprofundamento no desenvolvimento das meninas. Apesar de Casey (interpretada pela excelente Anya Taylor-Joy) apresentar um passado sombrio que vai sendo mostrado aos poucos, tal fato apenas serve para corroborar uma decisão do roteirista em relação ao clímax. Além disso, o texto se contradiz ao final da metragem, quando Shyamalan deixa um pouco o universo coeso criado para investir em algo mais sobrenatural. Apesar disto não ser algo totalmente estranho na filmografia do diretor, percebe-se uma discrepância em relação ao resto do longa que dá ao final um peso menor. O ponto alto do filme é James McAvoy e suas múltiplas personalidades. O roteiro tem o talento de relatar como é o cotidiano de uma pessoa com o transtorno, seja através de diálogos expositivos (que nunca tornam-se maçantes), seja pelo uso da câmera subjetiva. Aliás, a câmera de Shyamalan é extremamente inventiva e dinâmica, tornando o ritmo do filme ideal. Nesse quesito, o diretor lembra muito Hitchcock em sua boa fase, conseguindo aliar uma boa ambientação e fluidez cinematográfica a um roteiro instigante.

Se em 2016, o suspense confinado "Rua Cloverfield, 10" nos presenteou com a excelente atuação de John Goodman, aqui McAvoy rouba a cena. O ator demonstra uma flexibilidade imensa, ao transitar de opostos de personalidade em questão de segundos. É visível o esforço, até mesmo físico, do ator na realização de um excelente trabalho, provavelmente o melhor de sua carreira. Contudo, é importante avisar que "Fragmentado" não é um filme fácil de ser digerido. São 2 horas de pura tensão e incerteza, com cenas repugnantes, muitas vezes. Um fato interessante é a última cena do longa, que parece criar um "multiverso" dos filmes do diretor. Shyamalan apresenta um filme redondo, com traços "hitchockianos" de suspense, atuação primorosa de McAvoy e ritmo extremamente bem conduzido, que tornam "Fragmentado" um excelente retrato de múltiplas personalidades e da ignorância do homem em relação ao seu potencial cerebral.

Nota: 

- João Hippert

sexta-feira, 3 de março de 2017

Crítica de "Moonlight: Sob a Luz do Luar"

"Moonlight" talvez seja o filme comentado do momento. A grande surpresa independente que conseguir tirar o Oscar de melhor filme da mão de "La La Land" (literalmente). Mesmo antes de assistir ao filme, há de reconhecer-se a importância de sua vitória. Depois da polêmica de que a Academia é branca demais, "Moonlight" chega com força para demonstrar que negros também merecem destaque no cinema. O fato do filme ter ganhado o principal prêmio da noite atraiu holofotes à produção, aumentando até mesmo sua exibição em salas brasileiras. Obrigado Oscar! Mas vamos aos fatos. "Moonlight" acompanha Chiron, em três fases de sua vida: a infância (Alex R. Hibbert), a adolescência (Ashton Sanders) e a fase adulta (Trevante Rhodes). O menino mora em Miami com sua mãe drogada Paula (Naomie Harris), em um ambiente extremamente impróprio para seu desenvolvimento tanto intelectual quanto moral e é ajudado pelo traficante Juan (Mahershala Ali, vencedor do Oscar).

É aí que começa a primeira crítica social. Ao colocar em Juan a responsabilidade de educar o menino, sendo o exemplo que ele não tem em casa, o filme dá um alerta acerca das condições do lar de Chiron. Em que universo possível a educação de um criminoso prescindiria a criação de uma mãe? A crítica é tão sutil, que o espectador mais desavisado não percebe. Trata-se de um estudo de como uma relação familiar quebrada pode ser desbancada por qualquer outro tipo de relação. O roteiro tem a inteligência de humanizar Juan ao extremo, dando a ele o papel que mais inspira empatia do público. A relação construída entre eles é extremamente palpável, principalmente devido aos diálogos entre os personagens, principalmente aqueles em que o traficante aconselha Chiron a ser quem ele quer ser, independente do que os outros pensam. E é aí que entra a temática principal do filme: a homossexualidade. Chiron, ao longo do longa, sempre demonstra incerteza em relação ao que é. Basta lembrarmos da cena em que pergunta para Juan ("Eu sou gay?"). E Juan em uma resposta brilhante ("Você não precisa saber agora.).

O filme trata justamente da descoberta de Chiron, da sua busca por uma identidade que o defina. Ele se vê deslocado dos demais colegas, sofrendo xingamentos e espancamentos diários. O roteiro de Barry Jenkins tem a calma necessária para apresentar os fatos cotidianos de sua vida e mostra como o protagonista lida com cada situação. Chiron é um menino extremamente contido, sem apoio em casa, que se vê perdido durante a maior parte do tempo. Parece sempre que está fugindo de sua própria identidade e metáforas visuais como a dele correndo de outros meninos ressaltam essa ideia. O roteiro faz uma ode às diferenças, mostrando que cada ser humano é único e livre para ser o que desejar, mesmo que isso signifique transpor padrões sociais vigentes. Nesse quesito, a jornada de Chiron remete ao filme "O Segredo de Brokeback Mountain" e, até mesmo, "Boyhood". Apesar de suas inúmeras qualidades, "Moonlight" apresenta alguns problemas. Percebe-se a falta de peso nas consequências de determinados acontecimentos para a construção de Chiron em si. Se a genialidade de Jenkins está na crítica social e no representação de uma jornada por autoconhecimento, o roteiro linear apresenta algumas lacunas sentidas. Mesmo que o desenvolvimento introspectivo do protagonista seja primoroso, falta energia na construção da história, fazendo com que boa parte do filme tem uma monotonia desnecessária. Se por um lado ela pode agradar para potencializar o tom intimista da metragem, em certos momentos ela parece simplesmente forçada. De todo modo, a mensagem principal da obra não é afetada por deslizes momentâneos.

O elenco está sensacional. Os 3 atores que interpretam Chiron realizam trabalhos excelentes, além de parecerem muito entre si. Mahershala Ali segura muito bem as cenas em que é requisitado, passando uma segurança e um carisma necessários. Naomie Harris é o destaque do elenco, principalmente por interpretar a personagem mais complicada, haja visto os descontroles psicológicos frequentes da mãe. Apesar disso, Naomie apresenta uma serenidade no olhar que dá uma sensação de amor, apesar de tudo. Percebe-se como ela está possuída pelo vício e como em alguns lampejos de lucidez, ela é somente uma mãe que ama seu filho, como outra qualquer. Vale ressaltar também a excelente direção de Barry Jenkins. Além de dirigir seus atores de forma deveras consciente, Jenkins demonstra uma fluidez com a câmera na mão que dá uma familiaridade necessária ao longa. Note como na cena em que Juan e Chiron estão no mar a câmera parece estar flutuando, acompanhando o movimento das ondas. Esse tipo de direção aumenta a imersão do espectador no longa, fazendo com que a câmera pareça mais uma testemunha da história. Aliás, é importante lembrarmos que partes da história foram tiradas da vida do próprio diretor e de amigos dele. Não é difícil imaginar tal panorama: é uma realidade muito crível, até mesmo no Brasil. "Moonlight" tem a coragem necessária de desenvolver a descoberta da homossexualidade no subúrbio norte-americano, servindo como pretexto para uma magnífica jornada de autoconhecimento e crítica social.

Nota: 

- João Hippert

quinta-feira, 2 de março de 2017

Crítica de "Logan"

Os X-Men formam, provavelmente, a franquia de heróis mais importante do cinema. No longínquo ano de 2000, quando filmes baseados em HQ não eram tão recorrentes, um sujeito chamado Bryan Singer resolveu dirigir um filme dos mutantes. Mesmo que a qualidade possa ser debatida, foi esse o filme que iniciou toda uma nova era em Hollywood. Naquele momento o mundo conhecia o Wolverine de Hugh Jackman, que desde então, participou de inúmeros filmes da franquia X-Men, assim como 2 filmes solo do mutante que é "o melhor no que faz". Eis que "Logan" é anunciado: o último filme de Jackman como Wolverine. Apesar do impacto ter sido grande, este veio com uma certeza dose de desconfiança, haja visto os fiscos anteriores "X-Men Origens: Wolverine" e "Wolverine Imortal".

A campanha do filme, contudo, conseguiu passar uma imagem extremamente positiva da produção. A divulgação de fotos em preto e branco, o trailer com música do Johnny Cash, piadas pontuais em relação ao próprio universo dos quadrinhos e a violência explícita deram ao filme um tom totalmente diferente do que já foi feito no cinema. Vale ressaltar que essa liberdade criativa só foi possível devido ao sucesso de "Deadpool", que provou que um filme de herói não precisa ser, necessariamente, infantil. Tomando isso como partida, chegamos ao impressionante "Logan". Em um futuro próximo, a raça de mutantes está praticamente eliminada. Logan (Hugh Jackman) trabalha como chofer na cidade de El Paso, onde cuida do poderoso Professor Charles Xavier (Patrick Stewart). O anonimato de Wolverine é colocado em cheque quando a jovem mutante Laura (Dafne Keen) surge em seu caminho e precisa de sua ajuda.

A cena inicial do filme chega para definir seu tom. Logan está deitado no seu carro, acorda, solta um palavrão e parte para a violência. Mas não se engane. Se pegarmos qualquer filme já feito com o mutante, o sangue das pessoas nunca é perceptível. Aqui acontece o contrário, já que todos os oponentes de Logan são mostrados com ferimentos profundos e muito sangue, lembrando muito como é feito nos quadrinhos. O próprio protagonista é mostrado inúmeras vezes repleto de cortes profundos e cicatrizes, algo jamais visto no cinema antes. A história criada por James Mangold, e roteirizada por ele, Scott Frank e Michael Green, apresenta um tom circular. O espectador, apesar de contar com alguns momentos de pura perplexidade, consegue perceber uma linearidade no roteiro. Além disso, o ritmo do filme não é frenético; ele toma seu tempo para desenvolver seus personagens e apresentar o ambiente em que a história se insere. O longa se passa em um ambiente sem vida, extremamente hostil e a fotografia ajuda a aumentar a sensação de incerteza do espectador.

O sentimento de tensão é, provavelmente, o que mais aparece no filme. Como o roteiro se preocupa muito em detalhar as situações, a apreensão é potencializada. Há um senso de urgência e desconfiança que paira sobre o filme inteiro, deixando o público inquieto durante toda a metragem. Outro fator extremamente positivo do roteiro é a construção do arco de seu protagonista. Pode se dizer que configura-se como algo impecável, em que nenhuma alteração se faz necessária. Logan é apresentado como um ser cansado de sofrer perdas na vida, ao mesmo que tempo que é desacreditado no futuro da raça mutante. Mesmo que os diálogos do personagem ajudam a clarear essa situação, é importante destacar a atuação de Hugh Jackman. Totalmente introspectivo, contido quando necessário, assim como explosivo nas horas oportunas, Jackman provê a melhor atuação possível. O retrato maduro do personagem combina com o ator e o peso da idade é representado com maestria. Existe sempre a sensação de que Logan não está bem hora alguma, e essa representação torna-o extremamente humano, mesmo que não seja. É interessante também perceber as várias facetas apresentadas, já que Logan não é nada idealizado. Nem todas as suas ações são louváveis, e esse balanço dá ao longa um tom extremamente verossímil.

A direção de James Mangold ("Johnny & June") reúne todos os aspectos bons da metragem. Ele tem a calma necessária para dirigir uma boa cena de diálogo, ao mesmo tempo que apresenta o frenesi necessário a uma cena de ação impactante. Sua câmera muito limpa consegue imergir o espectador de tal forma, que as mais de 2 horas passadas não pareçam mais de 10 minutos. Mangold demonstra que um filme de herói não precisa ser 100% ação, provendo um filme que sabe valorizar as partes tocantes de um drama bem feito. A trilha sonora melancólica também é extremamente condizente com o tom proposto, combinando-se com os demais elementos cinematográficos em uma harmonia perfeita. O elenco de apoio também está primoroso. Stewart interpreta o Professor X de uma forma totalmente diferente do que já fez, construindo um personagem multifacetado. Aliás, todos os personagens possuem crenças e angústias díspares, fazendo com que sejam repletos de camadas a serem analisadas.

"Logan", por fim, é um filme que incita muitas discussões acerca de temas universais, tais como moral, perda e lealdade. A história linear serve como plano de fundo para um profundo desenvolvimento das relações interpessoais entre os personagens. Trata-se de algo completamente diferente do que todo mundo já viu e isso é importante para renovar o gênero de herói. É possível que bons dramas dotados de crise existencial configurem-se como excelentes filmes do gênero. A FOX acerta mais uma vez, ao realizar um filme completamente condizente com a essência do personagem, em uma despedida digna de Hugh Jackman ao personagem. O roteiro introspectivo, a direção limpa e apreensiva, as atuações viscerais e emocionantes tornam "Logan" um dos melhores filmes de super-herói já feitos.

Nota: 

-João Hippert

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Crítica de "Aliados"

Robert Zemeckis talvez seja um dos diretores estadunidenses mais injustiçados pelo público. Não que existam muitos questionadores de seu trabalho, mas seu nome não é tão imortalizado como o de Spielberg, por exemplo. Basta lembrarmos que Zemeckis foi o diretor da trilogia "De Volta para o Futuro", do clássico "Forrest Gump" e do icônico "O Náufrago". Tal filmografia reforça a sua habilidade em contar boas histórias, acima de tudo. Depois de realizar o excelente "A Travessia", em 2015, Zemeckis retorna, aos 64 anos, com o filme "Aliados". A história acompanha Max Vatan (Brad Pitt) e Marianne Beauséjour (Marion Cotillard), um casal que se conhece durante uma missão em Marrocos, durante a II Guerra Mundial. Quando retornam para Londres, a relação entre eles é colocada em cheque, em decorrência das pressões da guerra.

Primeiramente, vale ressaltar o acerto em relação ao tema. Muitos filmes ambientados durante a Segunda Guerra prezam por retratar batalhas cruciais ou a vida de personagens importantes. "Aliados" chega com uma proposta diferente: trata-se de um filme tipicamente de espionagem, remetendo muitas vezes à franquia 007. Além disso, o contexto histórico, mesmo que seja um pano de fundo, é extremamente bem construído, tanto em termos narrativos quanto em relação à ambientação. Esta, por sinal, é perfeita. O uso de cores diferentes em ambientes diferentes dão ao filme um tom realista necessário, conseguindo transportar, com fluidez, o espectador para o tempo referido. O roteiro de Steven Knight consegue, além disso, retratar o cotidiano das pessoas em tempos de guerra. É muito corriqueiro assistirmos no filme momentos de relativa tranquilidade, até que os sinos ressoem e os ataques aéreos iniciem. Zemeckis tem a habilidade (e a experiência) de potencializar a tensão e a insegurança presentes no ambiente, através de planos fechados que incitam angústia.

Zemeckis também se destaca ao construir a relação entre o casal protagonista. Existe uma cena, por exemplo, em que vemos o olhar apaixonado de Max, até que a câmera se afasta e nos deparamos com a reação de Marianne. A câmera se afasta mais uma vez e percebemos que aquilo era um espelho. Podemos analisar esse jogo de câmera como uma metáfora visual, tendo como base o ditado "os olhos são o espelho da alma". É por meio desses pequenos devaneios, que um diretor consegue introduzir em sua obra momentos reflexivos. Talvez o único problema do filme seja o ritmo. O início é bem arrastado, e o roteiro toma um tempo relativamente grande para fixar pontos importantes para a trama. Tendo dito isso, o filme não será um deleite para todos, já que existem, evidentemente, cenas em demasia na projeção. Pode-se até argumentar que o ritmo cadenciado é proposital, observando o desfecho da narrativa, todavia os minutos a mais fazem diferença para o filme como um todo.

A trama espiã é excelente. Knight consegue introduzir pistas ao longo da projeção, mas o espectador está sempre um pé atrás do roteirista. Nesse jogo de "gato e rato" percebemos, ao atingirmos o clímax da história, que o filme tinha base para ter o desfecho que quisesse. O incremento de diversos detalhes durante o enredo possibilitaram que o espectador contasse com a dúvida do final até este acontecer. E quando acontece... Melhor parar por aqui. O elenco está competente, mas Cotillard e Pitt dominam o filme inteiro. Pitt apresenta uma atuação boa, mas que não difere muito do papel que o ator está acostumado a fazer. Ele apresenta bastante carisma, o que ajuda na empatia com o público. Quem realmente merece destaque é Cotillard. A atriz apresenta um desenvolvimento de personagem extremamente complexo, produzindo no espectador uma constante sensação de estranheza. A dubiedade construída pelo roteiro é aumentada com a entrega da atriz. "Aliados" conta com uma direção eficaz, roteiro bem amarrado, atores excelentes, porém o ritmo inicial problemático pesa ao final da projeção.

Nota: 

- João Hippert

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crítica de "Estrelas Além do Tempo"

A segregação racial dos EUA foi uma das situações mais nefastas que a Terra já viu. Negros e brancos sendo separados em todos os aspectos da sociedade era algo corriqueiro na sociedade norte-americana. Contudo, nos anos 60, através de figuras como a do Dr. Martin Luther King, o movimento pelos direitos civis cresceu exponencialmente e a luta dos negros, finalmente, apresentou resultados. É justamente nessa fase de transição que o filme, baseado no livro de Margot Lee Shetterly, se insere. Aqui, acompanhamos a história de três mulheres negras que trabalham nos computadores da NASA, e por meio de seus intelectos se fazem indispensáveis ao programa espacial norte-americano. É interessante vermos que não foram apenas os ativistas assíduos que ajudaram a modificar o padrão social.

Em termos de contexto histórico, o filme é deveras pertinente. Ao mesmo tempo que o roteiro consegue desenvolver muito bem o ambiente segregado do território estadunidense, também demonstra as impassibilidades da Corrida Espacial. O fato de sempre sermos apresentados às mais recentes façanhas do programa russo, faz com que o longa tenha um senso de urgência extremamente desejado. E, é nas entrelinhas, que a crítica social está inserida. Basta percebermos como para a protagonista Katherine Johnson tudo é muito mais difícil, mesmo uma pequena ida ao banheiro. Com o intuito de tornar essa labutação corriqueira, o filme apresenta, inúmeras vezes, o trajeto da personagem atrás de um banheiro especial para negros. Isso traz ao filme uma realidade esmagadora e deixa no espectador um sentimento melancólico. A crítica social bem feita sempre promove divagações sobre a própria realidade e o filme entende isso perfeitamente. 

Um dos problemas do roteiro, porém, é não saber o quanto quer contar da história de cada uma das personagens. Apesar de ser evidente que Katherine é a protagonista, os arcos de Dorothy e Mary às vezes tomam um peso desnecessário. Não é que a história de uma seja melhor do que as outras; pelo contrário: a luta por reconhecimento de todas é venerável. Contudo, ao oscilar muito entre as diversas histórias, o ritmo do longa fica defasado. Às vezes estamos submetidos a um momento de tensão e somos deslocados a um momento calmo demais, fazendo com que desejemos retornar ao arco anterior. Apesar dos 127 minutos do longa se apresentarem com uma fluidez interessante. esses pequenos momentos impedem o ritmo de ser perfeito. Outro problema é a trilha sonora, que, muitas vezes, se faz presente quando não deve e falta quando não pode. Uma história de drama e de superação merecia qualidades musicais que elevassem a emoção do público,

O elenco é algo a ser discutido. Taraji P. Henson, interpretando Katherine, talvez seja o seu ponto fraco. É claro que sua personagem é extremamente difícil, por apresentar diversas emoções contrastantes durante o longa. Henson não consegue, com clareza, fazer esses saltos dramáticos, o que tira, de algumas cenas, a naturalidade que o longa tinha proposto. O elenco de apoio, todavia, está excelente. Octavia Spencer apresenta uma atuação bem imponente, e seu senso de coletivismo é muito bem expressado, Kevin Costner também apresenta uma atuação segura e condizente com o personagem. O problema deste é ser tratado como uma espécie de herói, que realiza boas ações, mesmo sendo um chefe da NASA. No início ele é tratado como alguém impaciente e insensível, mas não é o que o filme mostra.

Pode-se dizer que o filme celebra diversos aspectos valorizados pelo estereótipo norte-americano como a superação e a meritocracia. Contudo, o roteiro tem a sensibilidade de criticar valores sociais repugnantes, o que tira do filme o status de "americanizado". As minúcias da direção de Theodore Melfi são responsáveis por criar uma grande empatia com o público, que acaba, inevitavelmente, torcendo para o sucesso estadunidense, somente por causa do apego às protagonistas. "Estrelas Além do Tempo" é um filme que, através de nuances de direção, torna-se historicamente ponderoso, conseguindo aliar crítica social a bom desenvolvimento de personagens.

Nota: 

-João Hippert

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Crítica de "The Beatles: Eight Days a Week - The Touring Years"

Os Beatles talvez sejam a máxima do que pode ser entendido como uma cultura globalizada. É impressionante o impacto que aqueles 4 jovens músicos de Liverpool causaram no mundo. Seria um pleonasmo dizer que é a banda mais influente de todos os tempos - em todos os aspectos da arte, não só na música. O legado dos Beatles não estava nas músicas em si, mas no jeito como se portavam, seu instinto de rebeldia, que instigavam pessoas do mundo inteiro a admirá-los. O mais impressionante foi o curto tempo de turnê que tiveram (cerca de 4 anos). Por mais que a história dos garotos de Liverpool seja bastante conhecida, obras como "The Beatles: Eight Days a Week" potencializam a admiração à banda.

Uma das funções primordiais de um bom documentário é apresentar uma história, com comprovações históricas e documentos, que sejam pertinentes à proposta do diretor. E isso Ron Howard conduz com maestria. Apesar de muitos poderem alegar que os Beatles em si já seguram o filme, Howard apresenta um papel crucial no processo. Seu trabalho de entrevista concomitante ao som de músicas consagradas dão ao longa um ritmo extremamente ágil. Ao mesmo tempo que o espectador conhece um pouco as histórias de bastidores, a melodia de fundo torna aquele ambiente familiar. Outro mérito do documentário é saber separar a banda de cada integrante. Apesar de se passar durante os anos de turnê, o filme consegue dar um bom enfoque aos diferentes beatles. Somos apresentados aos diferentes trejeitos e sonhos de cada um - porém nunca esquecendo da sua importância juntos.

Esse estilo de direção ajuda muito na compreensão do próprio sucesso da banda. Ao conheceremos as individualidades dos astros, sabemos reconhecer como cada peça funciona em harmonia. Essa importância dos Beatles como grupo (na forma mais primordial da palavra) e não como um amontoado de pessoas com interesses comuns é um dos grandes diferenciais da banda. Basta analisarmos o fato de que, provavelmente, você sabe o nome de Ringo Starr, George Harrison, Paul McCartney e John Lennon. Mesmo os fãs, sabem reconhecer as individualidades dos artistas, mas sabem que a união deles é algo fantástico.

Outro aspecto que o filme enaltece á a chama "Beatlemania": aquele fervor que fazia com que pessoas esperassem em filas gigantescas para um ingresso. O sucesso era tamanho que já não era mais seguro fazer show em lugares fechados, sendo necessário a ida para um estádio de baseball. Foi assim que a primeira banda no mundo se apresentou em um estádio esportivo desse tamanho. Musicalmente, existe algo interessante aqui. Mesmo que os Beatles sejam uma unanimidade, cada pessoa tem suas músicas preferidas e sua fase predileta. Aqui, percebe-se uma subjetividade extrema na apresentação das canções. Parece que estamos ouvindo um compilado das músicas preferidas do diretor. Isso torna o trabalho surpreendentemente autoral, possibilitando que o público enxergue determinada canção de forma diferente. Ron Howard consegue, com habilidade, restaurar imagens antigas de shows e entrevistas, dando uma nova linguagem à banda. O documentário é excelente não só por se tratar dos Beatles, mas devido à inventividade do diretor em tornar o ritmo extremadamente dinâmico.

Nota: 

- João Hippert

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Crítica de "Até o Último Homem"

Uma das funções da arte é a de retratar o contexto histórico em que o artista está inserido. Tendo isso em vista, o cinema, comumente, traz à tona temas históricos que definiram a sociedade contemporânea. Dessa forma, a Segunda Guerra Mundial, que foi divisora de águas em diversos aspectos da humanidade, sempre foi muito retratada nas telonas, principalmente em produções norte-americanas, já que são considerados os "vencedores" da guerra. Eis que chega o polêmico Mel Gibson com mais um filme passado na Segunda Guerra Mundial. Dessa vez, acompanhamos a história de Desmond Doss (Andrew Garfield), um médico do exército que por princípios morais/religiosos se recusa a segurar um rifle, mas que é responsável pelo resgate de inúmeros soldados durante a batalha de Okinawa, no Japão.

Há de convir que a história pessoal de Desmond é deveras interessante. O fato de um americano se recusar a usar armas de fogo é um tanto quanto paradoxal e a força da ideologia do soldado sempre comove. Porém, a forma como o filme conta essa história pode ser um pouco desgastada. O roteiro é repleto de diálogos simples e uma estrutura convencional até demais. Isso reforça o grande espírito "americanizado" do filme. Á medida que a projeção se arrasta, percebemos como o filme perde oportunidades de criticar estereótipos e clichês, acentuando-os ainda mais. Basta perceber a imagem dos japoneses para o público. Mesmo que existam algumas pinceladas de como é a cultura japonesa, na maior parte do tempo os soldados do país são retratados como verdadeiros animais, sempre gritando sem motivo algum ou sendo governados somente por instintos grotescos. Por outro lado, o americano é sempre o "moralmente elevado", sentimental e correto. Essa visão arcaica diminui a imersão do espectador no universo do filme.

Além disso, o ritmo inicial é bastante contrastante. Ora o filme se alonga em determinadas situações, ora ele acelera ao extremo. Isso dá ao primeiro ato uma espécie de monotonia indesejada que deixa o público entediado. Somente a partir da guerra em si é que o filme começa a apresentar suas verdadeiras qualidades. Tecnicamente, mesmo sem muitos recursos, o filme impressiona. As cenas de batalha são bastante cruas e sangrentas, remontando ao estilo utilizado pelo diretor em "Coração Valente". Aqui, Mel Gibson tem total controle sobre sua câmera nas cenas de guerra, passeando pelo cenário de forma inteligente, potencializando a tensão a cada frame novo. Além disso, a paleta suja e escura utilizada pelo diretor de fotografia remete ao ambiente hostil e desesperançoso da guerra, remetendo até mesmo ao clássico "O Resgate do Soldado Ryan". Ademais, o filme apresenta uma qualidade sonora impressionante: a mixagem e a edição de som merecem prêmio.

Andrew Garfield é um dos pontos fortes do filme. Mesmo não apresentado uma atuação tão memorável em termos artísticos, o ator possui uma presença e um carisma que nos faz importar com seu personagem. A construção do personagem, mesmo sendo problemática, consegue ser entendida pelo esforço do ator. Hugo Weaving também merece destaque em um atuação extremamente visceral e emocional. Vince Vaughn, interpretando um sargento norte-americano, provê uma interpretação satírica e sarcástica, emulando a icônica cena de "Nascido para Matar". Aliás, isso é algo que o filme faz corriqueiramente. Sempre que somos apresentados a uma cena realmente boa, ela nos remete a alguma outra obra que já fez isso (melhor, inclusive). Assim, mesmo que o filme seja composto por sequências realmente bem feitas, ele apresenta um problema sério de identidade.

Tendo em vista todos os aspectos citados não é difícil entender as 6 indicações ao Oscar. Mesmo sendo um filme razoavelmente bom, o filme é adorado pelos patriotas fanáticos. Mas, se analisarmos friamente, não existe nada novo - e muito menos especial. O longa apresenta inúmeras qualidades técnicas e boas interpretações, mas o discurso antiquado, a falta de identidade e o excesso de patriotismo fazem com que o novo filme de Mel Gibson seja bom, porém esquecível.

Nota: 

- João Hippert

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Crítica de "Eu, Daniel Blake"

Ken Loach é um dos cineastas mais importantes da história da Inglaterra. Isso pode ser dito sem hesitação alguma. O diretor merece tal prestígio não pela sua técnica excepcional com a câmera na mão ou pelos diálogos inesquecíveis, mas sim pela paixão e veracidade que dá aos seus filmes. Quando Ken Loach aparece no cartaz, pode-se esperar algo fora do comum, uma visão crítica da realidade britânica. Como o próprio diretor já disse uma vez "É possível contar histórias no cinema sobre pessoas comuns e seus dilemas. Não é preciso conter estrelas, pessoas ricas ou aventuras absurdas." É exatamente nesse panorama que o vencedor da Palma de Ouro em Cannes "Eu, Daniel Blake" está inserido. O longa conta a história de Daniel Blake (Dave Johns), que após sofrer um ataque cardíaco, precisa se ausentar do trabalho. Começa então sua luta contra o governo a fim de receber os benefícios que lhe convêm. Durante a sua jornada, Blake conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira, que acabou de se mudar e também precisa contar com a ajuda estatal.

O roteiro, escrito por Paul Laverty, segue basicamente essa premissa: Daniel Blake tentando provar para os órgãos estatais que não está apto a trabalhar e que merece ganhar um auxílio. Trata-se da jornada de um homem comum, buscando um objetivo comum. E é aí que a genialidade começa a atuar. Logo no início somos apresentados à personalidade de Blake: a princípio ele parece um velho rabugento, desgostoso com a vida. Mas, à medida que a metragem se desenvolve, percebemos os reais motivos que deixam o protagonista com essa aparência. E mais, com o passar do tempo, o público é capaz, facilmente, de se identificar com os entraves de Daniel Blake. A tridimensionalidade que o roteiro dá ao personagem faz com que ele seja extremamente crível e realista. Isso nos faz pensar que é capaz de estarmos andando na rua e, sem querer, toparmos com um Daniel Blake da vida.

Esse realismo está muito seguro na mão de Ken Loach. O diretor usa de movimentos de câmera extremamente discretos, usados de forma a engrandecer a odisseia do personagem. Ora, por ser uma jornada de um homem comum, Loach opta por utilizar artifícios que deixam o longa cada vez mais parecido com a "vida real". A fotografia mais acinzentada, combinada com a ambientação inglesa sempre nublada, reforçam o pessimismo que o filme inspira. Além disso, a ausência de cores primárias dão ao filme um tom melancólico que pode parecer estranho, mas é deveras necessário. Um grande acerto de "Eu, Daniel Blake" é contar uma história universal. Apesar da ambientação toda se passar em território inglês, a trama poderia se passar em qualquer outro lugar do mundo, inclusive no Brasil. Falando em Brasil, o longa lembra em alguns aspectos o excelente "Aquarius", por abordar uma pessoa mais velha lutando contra um órgão muito maior que ela. O fato do personagem ser inglês consegue desmistificar o romantismo de certos filmes que exaltam a vida na Europa como perfeita. Em todos os lugares do mundo a pobreza existe e os marginalizados não contam com o apoio do Estado.

A burocracia é tão grande que o cidadão é colocado de lado. "Preencha isso. Imprima isso. Acesse tal site.". A repetição de tais chavões acontece durante todo o filme, inspirando uma sensação de revolta. Loach nos deixa tão clara a situação verdadeira que é impossível não torcermos para que tudo dê certo da forma mais rápida possível. Além de ser uma crítica à burocratização, o filme também pode ser analisado como uma crítica à exclusão, principalmente a digital. É nítido como o protagonista sofre por não conseguir usar um computador e como sua vida se torna mais complicada por conta disso. Vivemos em um mundo tão repleto de tecnologias que às vezes esquecemos como é difícil para uma geração mais antiga se adaptar. Mesmo que algumas cenas relacionadas ao tema gerem um humor satírico, com o passar do tempo a realidade vai pesando e o espectador reflete. É interessante a forma como o filme passeia por esses temas já corriqueiros sem dar enfoque em nenhum específico: o espectador atento é capaz de encontrar seus próprios indícios e formar seu pensamento crítico.

 Dave Johns está excelente no papel principal. O ator consegue inspirar carisma, comoção e admiração. Apesar de parecer um homem sem mais esperanças, ainda é possível perceber um brilho em seu olhar, que inspira compaixão e afeto. Hayley Squires também se destaca ao interpretar uma mãe extremamente complexada, mas com um amor sincero aos filhos. "Eu, Daniel Blake" se destaca dos demais filmes por, justamente, não parecer um filme. Parece que estamos acompanhando uma história real através de uma janela na rua de Daniel Blake. Essa simplicidade engrandece a crítica social do diretor, pois faz com que seja mais palpável. Ken Loach consegue realizar um trabalho extremamente reflexivo, dotado de inúmeras camadas e sub-textos que dão consistência a uma obra crítica e imprescindível.

Nota: 

- João Hippert

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Crítica de "La La Land: Cantando Estações"

"La La Land" é a febre do momento. Elogiado por onde passa, o filme quebrou o recorde do Globo de Ouro e faturou 7 prêmios (incluindo melhor filme de comédia/musical, roteiro, direção, ator e atriz principais), além de ser um forte candidato ao Oscar de melhor filme. Contudo, premiações como essa não são parâmetro de qualidade. É muito comum vermos filmes medianos se destacando nas disputas, enquanto trabalhos mais autorais ficam de fora. Apesar de "La La Land" parecer um filme clichê e "oscarizado", seu sub-texto impressiona devido as minúcias e devaneios apresentados. O longa conta a história de Sebastian (Ryan Gosling), um pianista de jazz, e Mia, uma aspirante a atriz de cinema. Ambos sonham em fazer sucesso com suas respectivas paixões e seus caminhos se interceptam em Los Angeles: a cidade dos sonhos.

A cena de abertura pode ser considerada, facilmente, uma das melhores do ano. Assim que o filme tem início, somos convidados a entrar em um emaranhado de carros na entrada da cidade de L.A. É perceptível como o diretor preza por mostrar a diversidade de sonhos presentes naqueles jovens, através de um número musical extremamente bem coreografado e filmado. Aliás, não existem cortes aparecentes na cena, o que deixa tudo mais imersível e belo para o espectador. Damien Chazelle passeia sua câmera pelos números de dança e musicais, com um ritmo extremamente hábil e seguro. É nesse ambiente de sonho que somos apresentados aos protagonistas e uma breve cena de contato entre os dois parece não fazer sentido. Todavia, ela é retomada minutos mais tarde para servir como uma excelente rima narrativa.

Aliás, o roteiro original de Damien Chazelle é repleto de rimas narrativas que engrandecem o peso da história. Se anteriormente o diretor/roteirista tinha brilhado com a construção narrativa sufocante de "Whiplash", aqui somos apresentados a um ambiente familiar. Os diálogos entre Sebastian e Mia são extremamente orgânicos e a relação dos dois não segue nenhum clichê romântico. Chazelle até mesmo consegue brincar com esse tipo de coisa, ao enganar o espectador inúmeras vezes durante a metragem. Apesar do texto principal focar na relação entre os protagonistas, o sub-texto revela uma mensagem mais importante: a de seguir os seus sonhos. Mas, mesmo assim, o roteiro não banaliza tal ato a ponto de idealizá-lo; ele entende as dificuldades da vida real e mostra como o resultado de tudo que fazemos tem base em escolhas prévias. Às vezes é preciso tomar decisões que nos fazem afastar de pessoas queridas a fim de alcançarmos aquilo que buscamos.

O filme é uma verdadeira ode ao cinema clássico (não só aos musicais). Aliás, "La La Land" chega para quebrar o tabu de que musicais devem ser "parados", visto que a direção e o roteiro conseguem encaixar perfeitamente as sequências musicais com o resto do filme. O fato de Sebastian ser um pianista de jazz ajuda muito na inserção das canções, que, por si só, são estonteantes. A primeira cena em que "City of Stars" é cantada configura-se como um exemplo de cinema perfeito. A fotografia na cena é utilizada com enorme inteligência, a câmera de Chazelle sabe exatamente onde focar, a melodia é bonita e a atuação de Gosling é extremamente verossímil. Aliás, cenas como essa se repetem durante toda a metragem, tamanha é a qualidade dos profissionais envolvidos.

Mesmo assim, o filme vai além. Se em "Whiplash" acompanhamos um garoto em busca do sonho de ser baterista de jazz, aqui o instrumento usado é o piano. Contudo, a homenagem ao gênero musical continua forte e pertinente. Ryan Gosling está vivendo um dos momentos mais brilhantes de sua carreira. Vindo de excelentes trabalhos em "A Grande Aposta" e "Dois Caras Legais", aqui o ator faz um personagem "romântico", mas realista. Através de diálogos extremamente bem encenados, Gosling consegue passar bem a dicotomia de seu personagem ao espectador. Por outro lado, Emma Stone é o coração do filme. É impossível assistir a "La La Land" sem se encantar profundamente com a atriz. Além de prover uma performance extremamente crível, seus pequenos maneirismos e trejeitos a tornam uma mulher extremamente dócil. Ambos conseguem contracenar com uma naturalidade impressionante, o que potencializa a química entre os personagens.

Além do roteiro ser extremamente completo, a direção de Chazelle impressiona. Seus movimentos de câmera extremamente fluidos, que passeiam pelo cenário, remontam muito ao cinema de Martin Scorsese. A montagem é excelente, assim como o design de produção e a maquiagem. Existem sequências inteiras que emocionam só pela beleza visual. Trata-se de uma obra de arte que merece ser vista no cinema. O inusitado é olharmos a idade do idealizador disso tudo. Damien Chazelle tem 31 anos. Espera-se que o diretor ainda tenha um longo caminho pela frente. "La La Land" é um filme de cinéfilos feito para cinéfilos. A cinematografia de Chazelle impressiona, assim como sua habilidade para construir rimas narrativas, que ajudam Ryan Gosling e Emma Stone a apresentarem atuações inesquecíveis. Se compararmos os elementos cinematográficos com instrumentos musicais, o resultado de "La La Land" é uma canção que ressoa, não só por sua beleza melódica, mas também pela mensagem que quer passar.

Nota: 




- João Hippert

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Crítica de "Assassin's Creed"

O cinema hollywoodiano sempre foi pautado na adaptação de outras mídias para as telonas. Por mais que roteiros originais existam em grande quantidade, a indústria cinematográfica sempre contou com o artifício de recontar algo já existente em um livro ou quadrinho. A partir dos anos 90, com o advento e a massificação dos videogames, tal mídia passou a servir de provedora de roteiros para filmes. Contudo, é um consenso geral que as adaptações de games para cinema não tiveram peso até o momento. Basta lembrar do mais recente "Warcraft": apesar de ser um filme divertido, foi rechaçado pela crítica especializada e não faturou tanto quanto deveria. Seria esse um mercado sem salvação? Eis que chega "Assassin's Creed" para responder tal pergunta. Infelizmente a resposta é alarmante.

O filme acompanha Callum Lynch (Michael Fassbender), que através de um programa que usa da memória genética, descobre que seu antepassado Aguilar era membro da Creda dos Assassinos. Agora no presente, Cal reúne forças para enfrentar os Templários. Trata-se de uma premissa básica, presente em todos os jogos da franquia. Mas o filme se diferencia por um fator muito importante e responsável pela ruína do potencial cinematográfico da obra. O interessante de jogar "Assassin's Creed" é viver em épocas passadas, visitar monumentos históricos, topar com pessoas famosas durante a campanha. Embora o roteiro de Michael Lesslie, Adam Cooper e Bill Collage consiga criar uma mitologia interessante em volta das organizações dos assassinos e templários, isso parece ser ignorado pelo resto da metragem. A maior parte do filme se passa no tempo presente. E, mais, existe um grande contingente de cenas que não dialogam com o propósito da franquia, o que torna o filme genérico demais. O início do longa é bastante promissor e as cenas de ação são bem coreografadas. Tais fatores permitem uma diversão descompromissada, mesmo que o valor artístico seja bem aquém da média.

É decepcionante ver tal potencial perdido, já que a ambientação do ano de 1492 é espetacular. O diretor Justin Kurzel utiliza de uma câmera aérea para mergulhar o espectador naquele universo que permite uma completa imersão. Todas as cenas que se passam na Espanha da época apresentam excelente design de produção, maquiagem, figurino e, até mesmo, montagem. A melhor cena do filme é a de uma perseguição entre as estreitas ruas espanholas. Além do diretor conseguir dinamizar a ação através de movimentos rápidos, algumas opções apresentam rimas com o próprio jogo, causando o chamado "fan service". Mas, tirando isso, o filme não tem muito cabimento. A direção tenta emular um estilo Zack Snyder de direção: utilização de zoom em personagem na batalha, aceleração de pequenos movimentos para aumentar a tensão do combate e as famigeradas cenas em câmera lenta. Apesar de ser bastante estilizado a princípio, esse estilo de direção cansa o espectador com o passar do tempo, principalmente por não sair do lugar comum. As cenas passam a se apresentar de maneira previsível e desinteressante.

O roteiro é extremamente problemático e utiliza de inúmeras incongruências para fazer a história avançar. Existem diversas decisões tomadas pelos personagens que não têm argumento algum, o que prejudica não só a força da trama, mas também o desenvolvimento dos personagens. Apesar do protagonista apresentar potencial para segurar o filme, ele é prejudicado por um roteiro limitado. Os diálogos presentes no filme são deploráveis. É perceptível como aquilo soa decorado e tira a atenção do espectador da história principal. E o pior: isso acontece quando atores como Michael Fassbender, Marion Cotillard e Jeremy Irons estão em cena. Mesmo sendo um elenco de respeito, a falta de peso do diretor e o roteiro medíocre prejudicam as interpretações dos atores. Todos apresentam lampejos de boa performance, mas a inconstância da metragem não dão sequência à qualidade. A personagem de Cotillard parece enigmática a princípio, mas logo se mostra sem profundidade alguma e sem peso em suas decisões. A forma como ela abandona suas verdades é jogada no espectador sem um desenvolvimento prévio. São decisões equivocadas como essa que estimulam o fracasso. "Assassin's Creed" apresenta um elenco mal aproveitado, direção sem originalidade, diálogos intragáveis e personagens esquecíveis. Contudo, existem (seletas) boas cenas de ação que tornam o filme uma opção para diversão despretensiosa, mesmo que com muitas ressalvas.

Nota: 

- João Hippert

domingo, 8 de janeiro de 2017

Crítica de "Moana - Um Mar de Aventuras"

Se existia alguma dúvida acerca da capacidade dos novos filmes da Disney, ela foi eliminada. Desde que a Pixar foi adquirida pela Disney e John Lasseter assumiu o controle, o estúdios mais antigo de animações do cinema têm realizado acerto atrás de acerto. Basta lembrar os últimos dois filmes da produtora: o jovem clássico "Frozen" e o excelente "Zootopia". "Moana" chega para oficializar o que já estava praticamente óbvio: a Disney ainda consegue fazer um cinema de relevância. O filme acompanha a garota Moana, em um mundo fantasioso, onde existem monstros e deuses. Ela sempre é impedida pelo pai de sair da ilha que mora, porém devido a circunstâncias extremas, a heroína precisa viajar o mundo, ao lado do semideus Maui, em uma jornada repleto de perigos e autodescobertas.

Apesar da premissa ser relativamente clichê e convencional, são os devaneios que engrandecem o poder do filme e as discussões que acarreta. Ora, a jornada principal do filme acompanha um semideus e uma pequena garota. Contudo, devido ao excelente desenvolvimento da protagonista e sua forte presença, toda decisão tomada pelo pequeno grupo é feita por parte dela. Mesmo que seja impossível competir com a força e poderes de Mauí, Moana apresenta um sentimento de perseverança e crença em seus próprios objetivos que a fortalecem ainda mais. Trata-se de uma personagem feminina extremamente forte e, por ser um filme voltado ao público infantil, a discussão do empoderamento é pertinente. Se em "Frozen" descobrimos a força das princesas do mundo congelado, em "Zootopia" nos encantamos com a astúcia da coelhinha Judy, "Moana" nos traz uma versão diferente de tudo que já vimos. Como ela mesmo diz, a personagem não é uma princesa, mas sim a filha do chefe da tribo. São pequenos diálogos como esse que servem para quebrar o tabu de que protagonistas femininas precisam ser princesas perfeitas. Moana é uma pessoa cheia de sonhos e medos, como todos nós, ao mesmo tempo que crê veementemente no caminho que trilha. A sua autoconfiança e o desejo de terminar a tarefa a qual se propôs a humanizam de forma tocante. O público é imediatamente impelido a torcer pelo êxito do grupo. É por isso que não há hesitação em afirmar que trata-se de uma das personagens mais relevantes do universo Disney.

A direção de Ron Clements e John Musker é extremamente eficaz. Existe uma limpeza visual que ajuda ao espectador a embarcar naquele mundo. Toda a metragem é muito bem conduzida e os arcos dos personagens são bem realizados. A relação entre Mauí e Moana é um dos pontos altos do filme devido a credibilidade. É muito difícil para Moana conquistar a confiança e o apoio do semideus. Além disso engrandecer as atitudes da protagonista, tal fato dá camadas para a mitologia do filme, visto que um ser superpoderoso deveria ser, realmente, bastante cético em relação aos "mortais". O visual do longa é fantástico, existe um cuidado meticuloso com cada frame animado, além da própria composição dos personagens, que mesmo caricatos, continuam sendo críveis. Vale destacar também a trilha sonora extremamente atuante, com destaque para a música "How Far I'll Go". É impossível não sair do cinema com a melodia na cabeça. Engraçado é que a mesma coisa aconteceu com "Let it Go", e deu no que deu...

Apesar de todos os elogios ao filme, algumas ressalvas precisam ser colocadas em pauta. O primeiro e segundo ato do filme apresentam alguns problemas de ritmo que dão ao filme uma certa lentidão indesejada. Se o desenvolvimento introspectivo de Moana foi feito de forma perfeita, algumas situações pela qual se depara são (às vezes) longas demais e realmente desnecessárias. Além disso, mesmo sendo uma animação musical, o excesso de músicas no filme prejudica um pouco o andamento da história. Há a sensação de que três músicas a menos fariam o filme mais ágil e objetivo. Tais pequenos problemas impedem o filme de ser perfeito, mesmo com toda a sua atualidade e relevância. Mesmo assim, o terceiro ato apresenta um ritmo ideal, contando com grandiosidade nas horas certas e rimas visuais que dão a famosa "recompensa" aos espectadores. É muito interessante ver como tudo resume-se a uma jornada por libertação e pela opção de seguir os próprios desejos. Tomando como base o sub-texto feminista, essa metáfora vale para a própria luta de igualdade das mulheres. E tudo isso em um filme da Disney! É gratificante ver como a nova leva de animações do estúdio consegue aliar uma história encaixada, com questões sociais extremamente atuais. "Moana" conta com uma discussão atual sobre o empoderamento feminino, envolta na metáfora por liberdade de escolha da própria protagonista.

Nota: 

- João Hippert