quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Crítica de "Star Wars: O Despertar da Força"

"Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante...". Assim começava o filme "Guerra nas Estrelas" de 1977. Uma produção extremamente complicada, com problemas de orçamento, escolha de elenco, além da falta de fé do estúdio. Mas, graças a perseverança de George Lucas, o filme foi um divisor de águas do cinema. Foi extremamente revolucionário em relação ao conceito de ficção científica/fantasia, inovando ao misturar efeitos computadorizados e práticos em uma mesma cena. Além disso, trouxe personagens inesquecíveis que se tornaram marcos não só do cinema americano, mas da cultura pop em geral. Como não conhecer Yoda, Chewbacca, Darth Vader? Até então, apenas o filme "Tubarão" havia superado a barreira das centenas de milhões. "Star Wars" foi um fenômeno tão massivo, que faziam-se filas que dobravam quarteirões para entrar no cinema (daí o surgimento da expressão "blockbuster"). Eis que 3 anos depois chega a continuação que mexe com a cabeça de todos os fãs. Trata-se de, possivelmente, a melhor continuação já feita na história da sétima arte. Não só por dar complemento a uma história fantástica, mas por apresentar um arco original que se fecha perfeitamente. Mais 3 anos e surge o fim da trilogia. "O Retorno de Jedi" amarrou todas as pontas soltas que os outros filmes deixaram, dando uma conclusão definitiva para a saga de Luke (pelo menos era o que se esperava). Entre 1999 e 2005 foi lançada a temível trilogia nova que conta a história de Anakin Skywalker. Extremamente rejeitada pelos fãs e pela crítica especializada, os três filmes são relevados quando o assunto é "Star Wars". Os fãs simplesmente ignoram esses episódios tenebrosos que tiraram um pouco da magia do cinema verdadeiro. Eis que a Disney compra por uma quantia bilionária os direitos da saga. Sem mais George Lucas, qual seria o destino dos personagens icônicos que marcaram gerações? A produtora confiou esse projeto a J.J. Abrams, um dos diretores mais corajosos na atualidade, visto que foi responsável pelo renascimento de "Star Trek" e, agora, "Star Wars".

A sinopse do filme não precisa ser contada. Basta saber que passa-se depois de "O Retorno de Jedi", onde a Primeira Ordem (espécie de descendente do Império) busca trazer o lado sombrio para todas as partes do Universo. Enquanto isso, em alguma parte da galáxia, ocorre um despertar da força... É melhor parar por aqui. Uma grande sacada do marketing do filme foi a elaboração de trailers e teasers que não contassem nada crucial da história, mas que traziam elementos nostálgicos que aumentavam a expectativa dos fãs. Dessa forma, o filme consegue resgatar um pouco da originalidade de "Star Wars", visto que um dos pontos fortes da saga sempre foram as reviravoltas da trama. A Disney acertou em cheio o modo de divulgação do longa, coisa que a Warner não conseguiu fazer com "Batman vs Superman", por exemplo. O roteiro do filme é fantástico. O espectador é rapidamente introduzido no universo dos novos personagens e a apresentação destes é muito fluida. Além disso, o desenvolvimento primário das características deles é de uma destreza expressiva. Destaque para a personagem Rey que rouba o filme por sua forte presença feminina e o heroísmo nato que a atriz Daisy Ridley inspira. Vale ressaltar também o robô BB-8 que visualmente é muito bem concebido, além de apresentar uma espécie de personalidade própria que rapidamente o faz cair nas graças do grande público. Outro ponto forte do roteiro é a aproximação desse novo universo com as caras já conhecidas pelo público. Han Solo, Chewbacca, Leia, C3PO, R2-D2 estão sempre ali, servindo como uma espécie de base para toda a narrativa preestabelecida, mas a história claramente se preocupa em seguir o rumo de novos personagens, mostrando que a franquia pode viver mesmo sem os personagens clássicos. Outro fator crucial para o engrandecimento do longa foi o humor sutil presente em quase todas as 2 horas e 15 minutos de filme. Enquanto a trilogia original apresentava um tom mais sério e sombrio, e a nova um tom bobo e fútil (basta relembrar Jar Jar Binks), Abrams cria uma espécie de humor controlado, pois as piadas não são forçadas, elas apresentam-se da forma mais natural possível.

A direção de Abrams é o diferencial do filme, George Lucas pode ser considerado um gênio por idealizar um mundo como o de "Star Wars", mas nunca foi o melhor pra reproduzir isso na direção. Isso pode ser muito bem observado na trilogia de Anakin, visto que a quantidade excessiva de CGI estraga a experiência do espectador quanto ao sentimento que o filme provoca. Abrams, nerd assumido, percebeu de imediato que o que faz a trilogia clássica ser tão aclamada é a mixagem de diferentes aspectos do cinema numa mesma obra. No roteiro há a mistura de elementos do faroeste, com filmes de samurai, seguindo a jornada do herói. E na direção, existe a miscigenação de efeitos práticos e computadorizados, ambientes artificiais e ambientes montados de verdade. É exatamente isso que o novo diretor resgata de "Star Wars". É visível a construção de diversos cenários no filme, assim como o uso de veículos reais, mas, ao mesmo tempo, existem os grandes efeitos especiais que apresentam um acabamento excelente que impede o espectador de duvidar se aquilo é um efeito ou não. A condução da direção é extramente bem feita e a narrativa se desenvolve de uma forma padrão, porem extremamente bem estruturada e dividida. O clímax é apresentado no momento certo, decorrendo de uma ascendência do roteiro desde o início do filme. Pode-se dizer que existem algumas pontas soltas, mas deve-se analisar o Despertar da Força como a primeira parte de um filme maior, assim como Uma Nova Esperança era. Portanto, é necessário paciência para o desvendamento de alguns mistérios ocultos.

John Williams volta mais uma vez para comandar a trilha sonora. Apesar de usar muitos temas já consagrados, o maestro consegue criar novas melodias para as novas situações e reafirma sua grandiosidade e sua importância para o cinema americano. O elenco está excelente, principalmente John Boyega, Oscar Isaac e a já citada Daisy Ridley. O único ponto fraco é Alam Driver, pois não consegue ainda passar o peso que seu personagem inspira. O elenco original dispensa comentários, pois eles são tão apegados a seus personagens que não precisam fazer esforço algum para vivê-los. É emocionante revê-los depois de mais de 30 anos fazendo os mesmos papeis que marcaram diversas gerações e continuam marcando. Aliás essa é a grande sacada de Abrams e da Disney. "O Despertar da Força" é um filme que pode ser visto sem saber nada sobre a saga, ao mesmo tempo que apresenta espécies de homenagens aos fãs. É como se o filme se preocupasse em recrutar a nova geração para aquele Universo, mas sem esquecer dos fãs consolidados que viveram a cresceram com "Star Wars". Por isso é tão importante. Não é apenas uma antologia de filmes, mas um verdadeiro retrato da sociedade da forma mais pura da arte. A miscigenação de elementos culturais mundias faz com que a saga seja amada no mundo inteiro. Poderia dizer até que foi por causa de Guerra nas Estrelas que o Skybaggins existe hoje, visto que serviu de uma porta para todo um universo nerd e cinematográfico, portanto foi um importante definidor de caráter e aquisição cultural.  E, felizmente, J.J. Abrams e a Disney compreenderam a real importância do produto e proporcionaram um filme repleto de ação, direção consolidada, roteiro afiado, mas, principalmente, a carga dramática que dá orgulho de fazer parte do universo de "Star Wars" e de sentir que a Força realmente existe nos corações dos fãs.

Nota:  (metalinguístico, não?)

- Demolidor

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Crítica de "No Coração do Mar"

"Moby Dick" é um clássico incontestável da literatura mundial, sendo até considerado "a epopeia oficial dos Estados Unidos". Como não conhecer a imensa cachalote branca ou até mesmo Ismael? Bem, como todo romance, trata-se de uma história fictícia. Mas, o que poucos sabem, é que o livro foi inspirado nos fatos reais ocorridos com a tripulação do baleeiro Essex. Por meio de um diálogo entre Herman Meville (escritor de "Moby Dick") e Tom Nickerson (tripulante do Essex), o filme apresenta a história original que inspirou um dos mais reconhecidos livros da história americana.

O grande problema do filme é a ambição e até mesmo a falta dela. Trata-se de um ambicioso projeto, visto a importância de "Moby Dick" para a cultura estadunidense, porém tudo no filme é muito passivo. Não existe um elemento narrativo que permanece fixo durante todos os atos, apenas alguns arcos esporádicos que apresentam um possível momento de tensão, mas que são suprimidos rapidamente. Ora, uma história épica dessas (do jeito mais literal da palavra) apresenta um grande potencial dramático e conflituoso. Com salvas exceções, a maioria dos personagens não apresenta empatia alguma. Além disso, a baleia, que é o principal motor da história, não apresenta peso algum. O mínimo que se esperava era uma tensão perante ao monstro desconhecido como é espetacularmente feito com o Tubarão, de Spielberg. A cachalote, porém, que deveria ser tão imponente, não se diferenciou muito das outros baleias presentes no filme e isso impediu o desenvolvimento de quiçá, o personagem mais importante da história. A grande questão do filme é o homem desbravando o desconhecido para o acúmulo de riquezas, mas é impedido pela insignificância humana perante aos elementos da naturezas. A baleia que deveria ser o símbolo dessa superioridade natural não teve tanto peso assim, o que prejudicou a mensagem por trás do longa.

Mas. nem tudo é ruim. A direção do experiente Ron Howard é segura e bem feita. O navio é muito bem explorado visualmente, visto que a câmera passeia por todos os compartimentos do baleeiro com uma fluidez impressionante. Além disso, o contraste que as tomadas fazem entre o navio e o mar são significativos, levando em conta o embate entre homem x natureza, durante o auge da Segunda Revolução Industrial, onde a natureza era tratada apenas como fonte de matéria-prima. A fotografia é exuberante, relembrando por alguns momentos "As Aventuras de Pi". A trilha sonora é condizente com o ritmo do filme e a mixagem e edição de som são perfeitas. A ambientação do filme (metade do século XIX) é muito condizente com o período histórico ao qual se refere, o que contribui para uma total imersão do espectador.

Um dos aspectos interessantes do roteiro é a luta de classes, exemplificada pelo comando do navio. O capitão é George Pollard (Benjamin Walker) e o primeiro-imediato é Owen Chase (Chris Hemsworth). Apesar deste apresentar uma tremenda experiência em caça à baleia, Pollard é escolhido como capitão devido ao seu nascimento privilegiado. O roteiro, por meio de diálogos e suposições com traços dos atores, parece criticar a aristocracia da época, que somente se preocupava em aumentar seu poder, de modo até mesmo maquiavélico (Os fins justificam os meios). Esse embate entre os dois, porém não é muito explorado durante o filme. Chega um momento que os dois se afastam e parecem se tolerar, o que dificulta a possibilidade de um embate significativo para o clímax e de uma crítica social relevante aos privilégios familiares.

Os atores estão bem em seus papéis, mas nenhum merece realmente destaque. Hemsworth faz mais uma vez o papel de uma espécie de herói honrado que já virou marca de sua carreira. Sua atuação não é ruim, mas ele não demonstra nada novo. Talvez o grande destaque seja Cillian Murphy, que apesar do pouco espaço, consegue desenvolver uma relação afetiva interessante com o primeiro-imediato. A história, apesar de tudo, é bem conduzida até o final. Mas não é aquele filme marcante que o espectador lembra por meses. Talvez este seja o grande problema do longa. Com toda a expectativa alta devido a história do livro e a direção de Ron Howard, o filme decepciona. Não por ser ruim, mas por não mostrar nada de relevante em relação a história original e por não se propôr a criticar certos valores da época. Apesar de direção e aspecto visual imponentes, o filme decepciona por não acrescentar nada relevante a "Moby Dick" e por não apresentar um núcleo de roteiro consistente.

Nota: 

- Demolidor

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Crítica de "Aliança do Crime"

Filmes que tratam de máfia são um clichê em Hollywood. É impossível pensar no cinema do Tio Sam sem relembrar o clássico Don Corleone ou sem venerar os Bons Companheiros de Scorsese. Vale ressaltar que a carreira de Al Pacino e Robert DeNiro devem muito a esse gênero, onde, em seus respectivos papéis, demonstraram ao mundo suas grandes capacidades interpretativas. Poderíamos até dizer que o gênero é um daqueles clássicos, intocáveis. Coisas do passado, que não precisam mais ser retratadas nas telonas. "Aliança do Crime", porém, refuta essa ideia e nos demonstra que não existe gênero intocável, sempre existe uma história a mais a ser explorada sob uma perspectiva artística diferente. Baseado no livro "Black Mass" de Dick Lehr e Gerard O'Neill, o filme, por meio de testemunhos e "flash-backs", tem o foco narrativo no protagonista James "Whitey" Bulger (Johnny Depp), acompanhando sua ascensão na bandidagem da região Sul de Boston nos anos 70. Acompanhado de sua gangue,ele deixa de ser um mero dono de rua da região para se tornar um dos mafiosos mais temidos e mais importantes da cidade.

O primeiro ponto a ser destacado é a volta de Johnny Depp a um grande patamar artístico. Não que ele alguma vez negou esse seu dom, mas durante esse milênio o ator não têm se preocupado em se provar melhor, mas sim em participar de grandes produções de entretenimento em massa, caracterizando sempre o mesmo Jack Sparrow em todos esses filmes, de modo carismático e divertido, mas sem grandes desafios. Pode-se dizer que o astro não tem um papel importante dramaticamente desde 2001, no filme "Jogada de Risco". Em 2015, Depp realmente se enquadra no papel e extrai o máximo do personagem. Ele consegue interpretar de forma brilhante o típico anti-herói, pois apesar de ser claramente um bandido assumido e homicida, em alguns momentos o carisma do personagem e a sua afeição por seus protegidos fazem com que o público torçam, mesmo que por um breve momento, pelo personagem. Podemos dizer que o ator interpreta um Heisenberg da máfia, com o peso de interpretação tão grande quanto foi o de Bryan Cranston em "Breaking Bad". Outro ponto forte do elenco são os coadjuvantes. Benedict Cumberbatch agrega muita seriedade ao longa ao interpretar o irmão senador do maior bandido da cidade. O dilema moral que isso provoca e o jeito como ele trata isso poderiam ser melhores explorados, porém o ator não tem muito tempo de tela. Um personagem que ganhou espaço no longa-metragem foi John Connoly, um grande amigo de infância de Whitey, que entra para o FBI e começa uma aliança com o mafioso irlandês, a fim de eliminar a Cosa Nostra da região  (daí o motivo da tradução do título genérico aqui do Brasil). Um ponto muito abordado no arco de Connoly é a lealdade. Até que ponto devemos ajudar um amigo, mesmo que isso seja contra os princípios morais e éticos da sociedade e, até mesmo, da Constituição? Como o personagem recebe bastante tempo de tela, esse conceito é bem explorado e dá uma espécie de "razão" para suas atitudes.

A direção é do promissor Scott Cooper ("Tudo por Justiça"). Percebe-se que ele apresenta uma boa percepção para escolha de elenco e história, mas ainda não achou um ritmo ideal. Apesar de nas cenas de ambientes fechados a tensão ser muito bem construída, na cena seguinte já somos apresentados a um ambiente com um clima completamente diferente. Essas oscilações de humor que o filme promove demonstram uma falha na edição e montagem do filme, pois, apesar da história apresentar continuidade, o espectador demonstra-se desinteressado. Isso faz com que o público massivo que vai ao cinema não se apegue tanto a história e não extraia ao máximo seu potencial. Apesar disso tudo, considerando que trata-se apenas do terceiro longa da carreira do diretor, esse é uma aspecto que pode ser melhorado, e, se o for, trará a sétima arte belíssimas obras. O roteiro é bom, mas é prejudicado pelo andamento do filme. A falta de clímax também é notável, visto que não é apresentado um momento ápice de tensão. Talvez o grande fator crucial do roteiro seja o desenvolvimento dos personagem e da região em si. Do modo como tudo é apresentado, o espectador é rapidamente imerso em Southie Boston e passa a conhecer todos de lá. É um mérito que os clássicos de máfia faziam e que "Aliança do Crime" consegue realizar muito bem. Aliás, se formos comparar o filme de 2015 com os antigos, podemos fazer uma analogia interessante.

Ora, todos os filmes da década de 70 e 80 tratavam da Máfia italiana, normalmente tratando da ascensão dos sicilianos em território norte-americano. Aqui é exatamente o contrário, afinal o foco do filme é uma aliança entre o FBI e a máfia irlandesa para destruir a máfia italiana. Será que o novo filme teve a pretensão de se firmar na atualidade como novo clássico de máfia, deixando os italianos no passado? Seria demais fazer essa comparação, mas "Aliança do Crime" em 2015 cumpre seu papel. Apesar de ritmo lento e com muitas oscilações de tom, o longa retoma um gênero clássico explorando ao máximo a volta do grande potencial artístico de Johnny Depp, esquecido nas grandes produções hollywoodianas e abordando de forma interessante conceitos como o de família e lealdade.

Nota: 

- Demolidor


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Crítica de "Ponte dos Espiões"

Se você entende um pouquinho de cinema você conhece Steven Spielberg. Simplesmente um dos diretores americanos mais venerados da história, dotado de clássicos do cinema que vão de aventuras a comédias, dramas fictícios a romances históricos, etc. Trata-se de um diretor completíssimo que, em seus filmes, conseguiu passar uma mensagem muito clara da forma como ele entende o cinema (e o faz como poucos). É tão versátil que é responsável por franquias como "Indiana Jones" e o clássico "E.T. - O Extraterrestre", ao mesmo tempo que dirigiu "A Lista de Schindler" e "Império do Sol". Spielberg tem uma parceira de sucesso com o astro Tom Hanks (esse é o 4° filme da dupla) e não poderiam estar em melhor momento, contando com melhor história. "Ponte dos Espiões" acompanha a vida de James Donovan (Tom Hanks) um advogado de seguros que possui a difícil missão de defender, em tribunal, um homem acusado de ser um espião soviético. Trata-se de uma história real ocorrida no auge da Guerra Fria.

A grande perspicácia do roteiro é o enaltecimento dos valores morais do personagem. Afinal, até onde deve ir o código de conduta da profissão se este começa a ameaçar sua família ou até mesmo seu país inteiro? O dilema moral apresentado pelos Irmãos Coen demonstra a difícil situação vivida pelo advogado: deveria defender o réu seguindo todos os princípios da lei que decidiu amar e estudar ou deveria fazer "corpo mole" visto que o indiciado poderia ser um mau elemento para a nação? Com poucos minutos de filme o espectador já é inteiramente imerso nos conflitos do protagonista e, apesar de sabermos a História, o filme é intrigante do início ao fim. Outro ponto forte (e marca de Spielberg) é a imparcialidade. Apesar de ser totalmente americano, o filme não toma um lado como certo. Simplesmente conta a história de um herói, sem desmerecer nenhum território por causa disso. E é esse motivo que afasta o longa de se tornar clichê. Muitas obras (apesar de serem até qualificadas artisticamente) como "Sniper Americano", por exemplo, apelam muito para o excesso de nacionalismo e isso prejudica a percepção do filme como um todo. A mescla do roteiro de Joel e Ethan Coen com a direção de Spielberg é inusitada, pois une a velha geração à nova; o perfeccionismo praxe de Spielberg com a ousadia dos irmãos. Dessa forma, o longa consegue se contrabalancear, com momentos sérios unidos a momentos sarcásticos que inovam o gênero de tribunal/guerra.

Spielberg definitivamente sabe dirigir um bom drama. É notável como a câmera sabe os momentos certos de realizarem suas ações, quando deve ser tensa, quando o enfoque tem que ser mais aberto por causa do alívio, etc. Anos de experiência na realização cinematográfica proporcionaram ao diretor um "timing" perfeito na divisão dos elementos da narrativa. Introdução, desenvolvimento, clímax e resolução são muito bem divididos e, em cada momento, o diretor consegue extrair ao máximo daquilo que deseja comunicar visualmente. Aliado ao grande trabalho de Spielberg, está mais uma atuação primorosa de Tom Hanks. Após um belo trabalho em "Capitão Phillips", o ator retoma sua boa forma, fazendo um personagem nunca feito por ele antes, mas que é muito bem caracterizado. O astro inspira uma certa moralidade elevada ao personagem aliado com um desejo humanista imprescindível que fazem com que o personagem seja muito caricato. Talvez o Donovan "real" não seja assim, mas a forte caracterização de Tom Hanks ajuda a dar profundidade ao personagem e relevância aos conflitos.

Apesar de toda a qualidade técnica, o filme deve ser analisado como um retrato histórico. Todo figurino, a maquiagem e a ambientação remetem ao período histórico em questão e contribuem para aumentar o nível de veracidade. Além disso, é um longa que não omite a verdade em nenhum momento e talvez, por isso, configure-se como um dos bons filmes de Guerra Fria da história do cinema. Mesmo sem pesar para nenhum lado, o filme consegue retratar de forma imparcial toda o momento social/econômico/político da época. A trilha sonora é bem utilizada nos momentos chave, dando um toque suave condizente com o conteúdo visual. A aliança de um diretor lendário, dois irmãos escrevendo um roteiro redondo, um ator em sua melhor forma e uma história real comovente fazem com que "Ponte dos Espiões" seja tratado não somente como uma excelente obra de arte, mas também como um importante documento histórico.

Nota: 


- Demolidor

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Crítica de "Perdido em Marte"

Ridley Scott. O diretor britânico, se quisesse, poderia parar de fazer filmes hoje e seria considerado um dos maiores da história. Isso porque ele é responsável por clássicos da ficção científica como "Alien - O Oitavo Passageiro" e "Blade Runner - O Caçador de Androides", além de diversos outros filmes excelentes como "O Gladiador" e "Falcão Negro em Perigo". O problema é que, atualmente, Scott tem se arriscado demais em gêneros desconhecidos e fracassado frequentemente. Um grande exemplo é o filme "Êxodo: Deuses e Reis" que foi um fracasso. Por que, então, o diretor não volta para seu lugar de origem que é a ficção científica? Foi o que ele fez. E ao fazê-lo mostrou que, nesse gênero, ele é difícil de se bater. O filme além de se tratar de uma ficção científica, também se enquadra no gênero de sobrevivência. Isso é arriscado, afinal nos últimos 2 anos o cinema contou com "Gravidade" e "Interestelar", filmes que abordam a ficção científica dessa mesma forma. Mas, "Perdido em Marte" conseguiu ser original e até mesmo superar esses já consagrados clássicos recentes.

O longa conta a história do astronauta Mark Watney (Matt Damon) que é acidentalmente deixado para trás numa missão em Marte. Usando de seus conhecimentos científicos, Mark precisa achar um jeito de se comunicar com a NASA e de garantir sua sobrevivência no "Planeta Vermelho". O grande mérito do roteiro é fugir do convencional. "Gravidade", por exemplo, apesar de ser um espetáculo de direção e efeitos, apresenta um roteiro muito clichê. Uma carga dramática muito intensa e a resolução dos problemas sendo feita sem uma explicação totalmente plausível. Enquanto isso, o novo filme de Ridley Scott dá uma profundidade imensa ao roteiro. Apesar de saber explorar os momentos dramáticos do protagonista, o longa é divertidíssimo. Parece que os roteiristas tiveram a ideia de ver na tragédia algo cômico e isso funciona perfeitamente. Traz um apego imediato ao personagem e em algumas cenas faz o espectador realmente rir. Para se ter uma ideia o filme apresenta referências a "O Senhor dos Anéis". É um filme essencialmente "nerd". Mas esse apego todo só é possível através de uma boa atuação. Afinal, o foco da trama se concentra em apenas um ator. Porém Matt Damon demonstra o grande ator que é. Desde as transformações físicas, as mudanças de semblante, até a leveza na interpretação são dignas de elogio. O ator consegue dar um quê de carismático ao personagem e, sem apelar tanto para o emocional, faz com que o público torça para que dê tudo certo. E isso é outro ponto forte do roteiro. Este é totalmente imprevisível. Existem problemas o tempo inteiro e toda vez parece que vai dar tudo errado. Mas a grandiosidade do "script" está na resolução desses arcos. Tudo que se apresenta no longa é cientificamente aceito e explicado de forma orgânica ao público. Assim, o filme se caracteriza como um grande incentivador da ciência, além de se tratar de uma bela obra de arte. Além disso, as intrigas políticas presentes no filme são muito bem boladas. Se um astronauta ficasse perdido no espaço seria preciso muita habilidade para lidar com as pessoas na Terra e para conseguir ajuda. E o filme explora muito bem esse lado, dando ênfase aos diretores da NASA e à divergência entre eles quanto a determinados assuntos. Devido a esses fatores, o filme configura-se como um retrato totalmente possível de uma realidade futurística.

A direção de Ridley Scott é pontual. Aliado com o roteiro de muitas reviravoltas, a experiência do diretor é essencial. Existem cenas que através do movimento da câmera o espectador se sente claustrofóbico, desesperado ou sozinho. Mas, durante boa parte da sessão, o público fica tenso. Parece que o clímax da história já é apresentado na primeira cena. A partir dali é impossível relaxar durante todo o filme. Mas isso não é uma coisa pesada, pois entre toda essa tensão estão momentos de comicidade e dramaticidade. A forma como Scott consegue balancear todas essas emoções e oferecer um filme extremamente digerível é fantástica. Aliás, o longa apresenta aproximadamente 2 horas e meia de duração, todavia em nenhum momento o espectador se sente entediado. Com um roteiro afiado e uma direção perspicaz, o filme nos introduz naquele universo de tal maneira que esquecemos a vida real. E, afinal, não é esse o papel do cinema? Ridley Scott demonstra que ainda está vivo e nos oferece uma direção que, sem sombra de dúvidas, está dentre as melhores de sua carreira.

Outro grande ponto forte do filme é o elenco coadjuvante. Apesar do tempo para eles ser escasso, enquanto estão na frente das câmeras demonstram os grandes atores que são. Alguns nomes de destaque são Sean Bean, Chiwetel Ejofor, Jeff Daniels, Michael Peña, Kate Mara, dentre muitos outros. Mesmo com Matt Damon dominando o longa, seu elenco de apoio é excelente. O visual de Marte é muito bem explorado. Os efeitos práticos superam os efeitos especiais, então o planeta não é tão artificial. E isso, mais uma vez, contribui para a possível veracidade do longa. A fotografia, por isso, é extremamente bonita, aliada com uma trilha sonora oportuna. Ridley Scott nos presenteia com uma ficção científica/sobrevivência com roteiro afiado, direção eficaz que possivelmente se tornará um clássico do século XXI devido a sua originalidade e sua aproximação com um futuro plausível.

Nota: 

- Demolidor

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Crítica de "Roger Waters The Wall"

Pink Floyd. Uma das bandas mais importantes e influentes do século passado. Tendo início em 1965 na Grã Bretanha, o grupo é responsável por clássicos como "Wish You Were Here" e o icônico álbum "The Wall" (que inclusive possui um documentário). Eis que surge uma turnê de Roger Waters relembrando o álbum "The Wall" e, por conseguinte, um documentário. Este acompanha o show inteiro e conta com entrevistas exclusivas e emocionantes.

Como documentário, o filme é surpreendente. Não é uma produção padronizada (até porque não poderia ser tratando-se de Pink Floyd). O longa não segue uma linearidade. O show é interposto por entrevistas e pensamentos filosóficos de Waters. Isso dá uma dinâmica imprescindível ao filme, principalmente pelo tema das músicas se relacionar com as situações. Aliás, não é possível apreciar a música da banda sem prestar atenção nas letras politizadas e reflexivas que se tornaram símbolo de uma geração revolucionária e subversiva. Isso pode ser analisado até no título do álbum "The Wall". Todas as músicas fazem alusão a essas barreiras imaginárias a quais todos estamos submetidos e que precisamos sair. Aliás, as músicas do álbum acompanham a jornada de um personagem que se relaciona muito com o próprio Roger Waters. Durante o filme, é apresentado o fato de seu pai ter sido morto durante a Segunda Guerra Mundial e como isso o influenciou para seguir o caminho da música. Por meio de suas letras e melodias, Roger procurava transpor o sofrimento pessoal que possuía para o meio exterior. Um ponto interessante do filme é que a direção é de Roger Waters e Sean Evans (nenhum diretor com alguma experiência). Mas isso dá uma naturalidade absurda ao longa. Os momentos de diálogo são de tal imersão que o espectador realmente se vê dentro daquele universo. Por isso o mundo da sétima arte é tão bonito. Não é preciso efeitos especiais ou qualidade técnica para a direção ser boa, basta ser natural e apresentar os enfoques necessário à proposta do filme. E, nesse quesito, o documentário acerta em cheio.

Musicalmente, não há o que falar. São as músicas que todos conhecem (e sabem da qualidade) numa telona e sob um contexto apresentável. O que vale sim ressaltar não está no filme em si, mas no filme que existe dentro do filme (Inception?). A produção do show é tão grandiosa e recheada em efeitos sonoros e visuais que se comparam com uma produção cinematográfica (podendo até superar certos longas). É uma explosão de cores combinada com efeitos sonoros que remetem a aviões e bombas que trazem um quê de psicodélico ao filme. Mas, como poderia ser de outra forma? Pink Floyd tem uma proposta extremamente psicodélica (o símbolo mais famoso é um triângulo e um arco-íris) e é isso que os dá grandiosidade: a originalidade e a inibição de reproduzirem o que sentem. Dessa forma o show se configura como um retrato resumido da banda e isso é motivo de emoção para os fãs. Trata-se de um filme que não estreou em rede nacional, apenas sessões reservadas, contudo vale a pena se programar para assistir. Mesmo se o espectador não for um grande fã, passará a ter mais respeito por esta e apreciará a a produção como uma verdadeira obra de arte. Trata-se de um belo documentário sobre um ótimo show de uma das melhores bandas de todos os tempos.

Nota: 




- Demolidor

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Crítica de "Que Horas ela Volta?"

Cinema brasileiro. Infelizmente isso se tornou sinônimo de produção massiva sem conteúdo algum. Comédias esdrúxulas patrocinadas pela Globo que não apresentam potencial artístico algum, porém atrai a grande maioria dos brasileiros. Mas, será que o cinema brasileiro sempre foi assim? A resposta é não. Na década de 60, por exemplo, o Brasil apresentava um cinema politizado reconhecido internacionalmente: o Cinema Novo. Um dos pilares desse tipo de filme foi Glauber Rocha, criador da "estética da fome". Os filmes se preocupavam em incomodar o espectador e alertá-lo sobre os problemas da sociedade, que na época era a seca no Nordeste que provocava as migrações. E, partindo de outro ponto de vista, "Que Horas ela Volta" tenta fazer exatamente isso. O filme conta a história da empregada doméstica Val (Regina Casé), que vive com os patrões em São Paulo. A estrutura da família é abalada com a chegada da filha de Val, Jéssica ( Camila Márdila).

As críticas sociais e comportamentais presentes no longa são incontáveis. Uma das mais fortes é o comodismo das classes mais baixas que, por falta de conhecimento, tornam-se alienadas. Val não percebe que está sendo subjugada pelos seus patrões a todo o momento, ela se sente confortável com a situação toda e não se preocupa em sair da inércia que aquilo provoca. Esse pensamento só muda a partir do convívio com a filha Jessica, que por ter um bom conhecimento acadêmico entende o comportamento da sociedade e a critica, fazendo com que Val repense a maneira como deve aceitar o tratamento a ela imposto. Outro fator importante no filme são as relações superficiais. É notável como a babá tem mais apego com o menino do que a própria mãe. Pela grande quantidade de trabalho e a rotina estressante, a mãe deixou a educação de seu filho de lado, fazendo com que a babá tornasse-se uma espécie de figura materna para o menino. Contudo, quando Fabinho presta o vestibular, a mãe é que exerce toda a pressão sobre ele, recebendo o crédito ou o desmérito pela situação. Portanto, a sociedade atual é tão corrida que uma mãe não tem a capacidade de cuidar de seu próprio filho? E quando não o faz, ela que precisa cobrar do menino com que ele tenha boas qualidades morais e intelectuais? Mas como ela pode cobrar isso sabendo que não teve papel no processo de formação de caráter do filho? Outro exemplo dessa falta de humanismo nas relações está no fato da família jantar usando aparelhos celulares à mesa. Isso é um símbolo enorme da superficialidade  familiar, visto que eles não são capazes de possuir uma conversa sadia "olho a olho". Portanto, essa crítica as relações está diretamente relacionada com a família, que se mostra deveras convencional e que não apresenta um real amor e união. O diretor faz questão de exaltar essa frieza ao longo do filme, com cenas que fogem do senso comum de uma família feliz.

Se Glauber Rocha apresentava os motivos da migrações, Anna Muylaert apresenta estas concretizadas. Porém faz uma crítica enorme ao preconceito regionalista existente. É notável a forma como todos os personagens, assim como os convidados que vivem em São Paulo e têm uma boa condição financeira, apresentam um olhar de desdém a Val. Porém, esta, devido a sua ingenuidade e alienação, não percebe tal fenômeno. E isso é um problema muito sério que realmente acontece no país. Muitas mulheres trabalhadoras precisam migrar para sustentar suas famílias, mas para isso precisam se ausentar da morada de seus parentes. Isso prejudica também as relações familiares. Se por um lado é realmente importante a aquisição de dinheiro para a manutenção da família, como fica o lado da educação de seus próprios filhos? Mais uma vez o filme apresenta uma crítica forte relacionada a sociedade. E o melhor de tudo é que se trata de um filme essencialmente brasileiro. Não é preciso adaptar nada para a nossa realidade, pois trata-se exatamente dela. Dessa forma, o filme se apresenta como um verdadeiro crítico que não se importa com a manutenção das ideologias presentes e apresenta a triste realidade atual com sensatez. Tal tristeza pode ser observada através da direção. É constante o uso de sombras que demonstram o mundo das ilusões sob o qual Val está submetido. Além disso, existe uma sobreposição constante de cores para simbolizar o predomínio dos patrões na casa. E outra coisa interessante da parte visual é o figurino de Val. O filme começa e ela apresenta roupas mais coloridas e leves. A partir do momento em que ela se aproxima mais de sua filha e começa a enxergar as coisas de errado, as roupas passam a ter uma coloração mais escura, simbolizando a amargura da empregada.

Aliás, Val é interpretada por Regina Casé. "É um filme da Regina Casé, não vou ver." A pessoa que teve esse pensamento perdeu uma grande interpretação. A atriz surpreende a todos, conquistando uma interpretação firme e convincente que faz com que o espectador se esqueça de quem ela realmente é. Uma atuação feminina tão forte que merece muitos elogios e uma quebra do preconceito existente. Não é um filme perfeito, pois possui alguns furos relacionadas a história em si. Mas esta em si não é o grande forte do longa. A força está na proposta de conscientização sobre os problemas da sociedade. Assim, "Que Horas ela Volta" transcende a categoria de entretenimento para se tornar reflexivo. O filme é um grande estudo das relações familiares seja na classe dominante ou na dominada e apresenta críticas sociais e comportamentais fortes que relembram os filmes brasileiros do tempo do Cinema Novo.

Nota: 

- Demolidor

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A filosofia por trás de "Into the Wild"

"Into the Wild". Filme americano de 2007, dirigido por Sean Penn. Indicado a 2 Oscar e muito bem avaliado em sites de cinema como o IMDB. Porém, infelizmente, não é um filme de que se ouve falar tão frequentemente. O filme conta a história de Chris, um jovem que foge de casa em direção ao Alaska, na busca de aventuras selvagens. Se mais da história for contada a experiência pode ser prejudicada. Trata-se de uma história real ocorrida na década de 90. Mas, por que "Into the Wild" é tão especial?

Primeiramente, o filme é um dos poucos da era moderna do cinema que consegue realmente mexer com as emoções e com os pensamentos do público. Não é um filme que se apresenta apenas como um divertimento, mas sim tem o desejo de deixar o espectador incomodado. Cada um acaba de ver o filme reagindo de uma forma, atribuindo tal personagem a tal pessoa com a qual se relaciona ou fazendo uma autorreflexão sobre os meios como os relacionamentos interpessoais estão sendo dirigidos. Apesar de apresentar uma premissa de solidão, um dos grandes pontos fortes do filme é explorar o relacionamento das pessoas que passam pela estrada de Chris. Dessa forma, o protagonista serve como uma espécie de narrador testemunha dos fatos apresentados. E, mesmo durante pouco tempo, existe uma identificação muito forte com todas aqueles personagens. O casal de "hippies" que demonstram a dor que o amor pode causar, mas ao mesmo tempo a união proveniente desse sentimento. A dureza de uma vida de um velho solitário que precisa se agarrar a alguém no presente para esquecer os fantasmas do passado. Nesse quesito trata-se de um filme muito rico em profundidade. O segredo dessa identificação toda é que o filme é extremamente humano e emocional. As relações são baseadas na verdade e por isso não são artificiais como se vê normalmente. O longa também apresenta questões importantes sobre a sociedade. O desejo de ser bem visto por todos, de conseguir uma ascensão social são ridicularizados por Chris. Valores como uma verdadeira amizade ou um prazer de tomar um banho num rio são os mais prezados no filme. São estes que realmente importam, que fazem alguém ser alguém de verdade. Afinal, o que vale possuir um belo diploma na faculdade, se não souber se relacionar com as pessoas? Se não entender a real importância da natureza. Esses diplomas e classes sociais são coisas extremamente fúteis perante a grandeza do espírito humano.

Dentre as inúmeras críticas sociais, uma é extremamente importante: a que se refere à família tradicional. É visível como uma família unida por laços não afetivos, mas sim convencionais está fadada ao fracasso. Dessa forma, uma criança que cresce em meio ao caos passa a não sentir identificação por um dos bens mais importantes na construção da moralidade de uma pessoa. E, por isso, precisa buscar em outros lugares uma forma de conforto, de alívio. Assim, começa a jornada de Chris. Uma autodescoberta de si mesmo, sem as mentiras impostas por sua família e pela sociedade no geral. Outro tema bastante abordado é a ideia de felicidade. E claramente esta não vem dos bens materiais, mas sim do contato com a natureza, das relações bem construídas e do amor em geral. O filme apresenta grupos não aceitos na sociedade padronizada como os hippies e os nômadas tendo uma vida muito mais feliz do que o padrão "correto". Isso nos faz pensar: "Será que eu realmente estou no caminho certo para a felicidade? Ou estou num caminho de felicidade ilusória?". É essa a relevância do filme: fazer com que cada um pense como está vendo o mundo e agir para mudar isso.

Portanto, o filme serve como uma grande crítica à alienação e aos valores sociais impregnados na sociedade atual, demonstrando que o verdadeiro amor e a verdadeira felicidade não dependem dos outros, mas sim de você e só você. "Into the Wild" pode ser considerado um "Clube da Luta" moderno, com questões atualizadas sobre escolhas da vida e relações interpessoais, mas tão profundo quanto e muito intenso ao mesmo tempo. A fotografia é simplesmente maravilhosa, uma explosão de cenários bonitos e a trilha sonora proveniente do álbum de Eddie Vedder é extremamente tocante. Mas o real motivo que deve motivar todos a verem esse filme é aquilo que tem de não convencional, a filosofia por trás do longa que mistura elementos de pensadores como Tolstoy com elementos da sociologia moderna e que fazem com que "Into the Wild" seja um grande estudo do psique humano.

- Demolidor

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Crítica de "Missão Impossível - Nação Secreta"

Quase 20 anos após o lançamento do primeiro filme uma conclusão: nenhum longa sucessor superou o primordial "Missão Impossível". Trata-se de um filme de gênero que introduziu conceitos novos ao cinema, restabeleceu o papel do protagonista, mostrou cenas de ação impactantes, além de contar com uma direção magistral de Brian de Palma. Se por um lado a franquia não consegue superar seu filme inicial, nenhum capítulo da série Missão Impossível pode ser considerado ruim. Mesmo os filmes não tão profundos em termos de roteiro propuseram cenas de ação dignas e enalteceram o papel de Tom Cruise, que por si só faz valer a pena cada filme. Chegamos então em 2015 com a proposta de um novo longa-metragem para uma franquia que vem crescendo seu número de bilheteria a cada novo trabalho. No filme, a organização IMF (Impossible Mission Force) liderada pelo agente Ethan Hunt (Tom Cruise) tem seu trabalho ameaçado pelo diretor da CIA (Alec Baldwin). Por outro lado, Ethan e seu grupo precisam deter uma organização terrorista denominada Sindicato. Para isso, eles precisam trabalhar às avessas, dotando apenas da ajuda de alguns amigos e muito treinamento.

O roteiro é escrito por Drew Pearce ("Homem de Ferro 3") e Cristopher McQuarrie ("Jack Reacher-  O Último Tiro"). Não trata-se do ponto forte do filme, porém cumpre seu papel de forma bem feita. O filme apresenta uma história de espionagem com elementos como agentes duplos, planos mirabolantes e situações inesperadas. Dessa forma, apresenta-se uma gama de oportunidades para uma possível incoerência de roteiro. Porém, este é muito regular. Todas as propostas que o filme promove são resolvidas e todas as tramas são fechadas. Por tratar-se de um produto de uma franquia grandiosa, existe sempre a possibilidade de mais continuações e, devido a isso, o roteiro é "obrigado" a deixar ganchos para próximos trabalhos. Porém, este não o faz. Apresenta todos os elementos da narrativa nesse filme, inclusive os vilões e os desafios do herói e tudo é solucionado no mesmo. Apesar de ser uma história tão compacta e bem fechada não impede a realização de continuações. O longa apresenta então a fórmula que todo filme de franquia deveria apresentar: uma preocupação em contar uma boa história de cada vez, sem ficar dividindo em partes um, dois e, até mesmo três. Os diálogos ão muito bem escritos e remetem a uma espécie de humor britânico imortalizado nos filmes do famoso espião 007. Aliás, "Missão Impossível" serve bem como uma resposta americana à tão aclamada franquia inglesa, porém com originalidade e estilo próprio

O ponto forte (como em qualquer outro longa da franquia) é Tom Cruise. Independente de sua qualidade como ator dramático ("Magnólia" e "De Olhos bem Fechados" já demonstram seu talento) que é discutida por pessoas no mundo todo, Tom Cruise se liberta durante as gravações de Missão Impossível. É nítido o seu empenho em tornar o filme cada vez melhor e mais realista. Não obstante, todos já sabem das cenas de ação praticamente impossíveis que o ator (já nos seus 50 anos) realiza sem a ajuda de dublês. Tais cenas promovem o filme de tal forma que convocam o público até as salas de cinema. Portanto, Tom Cruise realiza um excelente papel de marketing no filme, apenas promovendo o desejo das pessoas de verem cenas grandiosas onde o ator realmente viveu na pele. Segundo ele, este é o cinema de verdade, onde tudo é feito "realmente" e não por efeitos computadorizados.  O fato de ser o 5° filme da franquia e do núcleo principal continuar o mesmo ajuda muito na identificação com o público. Luther (desde o primeiro) e Benji (desde o terceiro) são personagens extremamente caricatos que funcionam como alívio cômico ao mesmo tempo que dão para o grupo uma espécie de relação de família, onde é plausível a amizade entre os personagens. Além destes, acontece o retorno de Brandt (Jeremy Renner) que foi apresentado no Protocolo Fantasma. Seu retorno também ajuda ao filme, principalmente pela qualidade grandiosa do ator.

A franquia apresenta sempre diretores aclamados ou promissores em sua história: Brian de Palma ("Scarface"), John Woo ("O Matador"), J. J. Abrams ("Além da Escuridão - Star Trek") e Brad Bird ("Os Incríveis"). Todos estes ao serem incluídos na série já haviam demonstrado talento em trabalhos anteriores. Todavia, ganharam muita liberdade para dar aos filmes seus toques pessoais. É possível claramente perceber o estilo de direção variando de filme para filme. O diretor da vez é Cristopher McQuarrie. Apresenta apenas poucos filmes em seu currículo, dentre eles o mediano "Jack Reacher - O Último Tiro". Aqui, porém, o diretor faz um trabalho decente. As cenas de ação são muito bem filmadas e mantêm o nível preexistente na franquia. Além disso, o diretor consegue criar tensões durante o filme que incomodam (de um jeito bom) o espectador. Cristopher consegue também fazer um trabalho muito bom com a edição sonora do filme, pois a trilha está muito bem encaixada. E por falar em trilha sonora, como não citar o tema principal? Já virou um ícone da franquia e em 2015 apresenta-se nas horas devidas. A direção, portanto é satisfatória, mesmo o diretor não apresentando um traço tão original.

Outro ponto típico da franquia é a mudança constante de cenários. Aqui não é diferente. O filme passa-se em Viena, Londres, Cuba e até mesmo no Marrocos. Essa troca constante de países reforçam a ideia de uma organização poder ter tanta mobilidade pelo globo através de sua influência. O desejo de ver o filme veio da divulgação das cenas de ação de Tom Cruise. Porém, o longa entrega muito mais que isso e reforça a ideia da franquia ser uma das mais acertadas da atualidade. O filme apresenta trilha sonora envolvente, reforça o papel do ator numa produção cinematográfica, apresenta um humor sarcástico bem trabalhado, além de corresponder às expectativas nas cenas de ação, provando, mais uma vez, que "Missão Impossível" é a franquia definitiva dos filmes de ação escapistas e de espionagem.

Nota: 

- Demolidor

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Crítica de "Quarteto Fantástico"

Quarteto Fantástico. Grupo bem conhecido pelo público geral, podendo até ser um dos mais famosos. Essa popularidade deve-se muito aos filmes de 2005 e 2007 ("Quarteto Fantástico" e "Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado" respectivamente). Esses filmes apesar de serem pífios para a crítica e até mesmo desrespeitosos para os fãs "originais", geraram certa popularidade para o grupo. Este que foi um dos pilares na Marvel dos anos 60, sendo até o primeiro grupo de heróis da editora. Foram anos mágicos de histórias mirabolantes e que atraíram milhares de fãs. Conseguiram consolidar o universo Marvel nas HQs e bater de frente com a principal rival DC Comics (que na época já era um sucesso com o Batman e Superman). Mas, a pergunta que não quer calar é: por que heróis tão importantes na história da indústria do entretenimento não conseguem um filme digno? Até mesmo os Guardiões da Galáxia, grupo até o ano passado desconhecido, possui um filme extremamente divertido tanto para a massa quanto para os fãs e até mesmo para a crítica. Por que não Quarteto Fantástico? Josh Trank tentou responder a essa pergunta. Com uma premissa de renovação do grupo, o longa acompanha desde a infância/adolescência de Reed Richards (Miles Teller) e Ben Grimm (Jamie Bell) até se encontrarem com o dono do Instituto Baxter (escola para super gênios), Franklin Storm (Reg E. Cathy) e sua filha adotiva Sue Storm (Kate Mara). Esse encontro acontece numa feira de ciências onde ambos decidem unir seus projetos relacionados a viagem interdimensional.

Logo no início já percebemos que é uma tentativa de quebrar a tradição do grupo. Fazer com que Sue e Johnny sejam irmãos adotados, dar uma nova perspectiva da origem da mutação, tudo altera-se comparado ao material original. Isso pode até ter afetado alguns fãs, mas trata-se de uma visão do diretor que merece ser avaliada de acordo com a história. Porém a história é ridícula. O roteiro é totalmente sem ritmo. Faz com que o espectador fique o filme inteiro esperando por uma cena que não chega. E quando existe a possibilidade de um vilão bem feito (Doutor Destino), este perde toda a credibilidade. Após uma cena extremamente empolgante com o vilão, ele é rapidamente resolvido. Trata-se de um dos maiores vilões do Universo Marvel! E o tempo de tela dele é tão curto quanto uma aparição do Stan Lee. Por falar em Stan Lee, mesmo sabendo que os direitos do filme pertencem a FOX, espera-se uma pequena aparição do criador disso tudo. Porém ele não aparece nenhuma vez no filme. E além disso, não existe nenhuma cena pós-créditos. Parece que os roteiristas simplesmente esqueceram de que o filme faz parte da Marvel e resolveram fazer um filme independente. Se fosse para fazer tal filme não seria necessário o peso do nome do Quarteto Fantástico. Mas nem tudo no filme é tão ruim assim. A química entre os personagens é muito boa e em termo de tom este longa é melhor que seus dois esdrúxulos antecessores. Além disso, o roteiro apresenta questões profundas sobre reconhecimento científico como por exemplo ninguém saber o nome do engenheiro que projetou a Apolo 18, mas todos saberem o nome de Neil Armstrong por ser o primeiro astronauta na Lua. Trata-se de uma reflexão sobre mérito e sobre a indústria expositiva dos ídolos. Mas mesmo com um conceito tão rico, este foi deixado de lado durante todo o filme.

A direção é de Josh Trank. Anteriormente ele havia dirigido "Poder sem Limites". E assim acaba sua filmografia. Um diretor com a experiência de apenas um longa em seu currículo teria capacidade para dirigir um blockbuster com tal orçamento? A resposta é não. Sua direção é confusa e não sabe onde é preciso um enfoque da história. A direção é como um leque aberto, onde várias histórias são abertas, mas no final poucas se fecham. Além disso, o trabalho com um orçamento tão alto não fez bem para o diretor que fez sua fama com a câmera na mão de "Poder sem Limites". Muitos efeitos foram mal acabados e tão artificiais que percebe-se que são efeitos. Com um ano com filmes como "Jurassic World" (praticamente impecável em relação a montagem e aos efeitos especiais"), Quarteto Fantástico apresenta sérios problemas. Não parece um filme de 2015. A única coisa que o visual do filme fez bem foi a fisionomia de cada personagem. O Coisa está de certa forma mais realista e os poderes de todos heróis foram bem explorados. Até agora parece que o único ponto bom do filme foram os personagens, não é mesmo? E é exatamente isso que salva o filme de um desastre total. Além de um visual bem feito e tramas interessantes, os personagens são interpretados por atores em grande forma. Atores da nova geração de Hollywood que mostraram um competente trabalho em suas interpretações, porém sem um roteiro bem acabado e uma direção segura são um talento desperdiçado.

Trata-se de uma das maiores decepções do ano. Um filme que foi despretensioso ao ponto de contar uma história monótona do início ao fim e acontecimentos previsíveis. Tudo bem que trata-se de um filme de origem e que primeiro precisa-se estabelecer o universo para depois criar a história, mas aqui o universo é construído de forma apressada e a história não passa nada de interessante. Talvez o elenco bom, sob uma direção competente possa vir a fazer continuações melhores. Mas, em 2015, somos presenteados com uma espécie de "Quarteto Fantástico Origins" que nos faz sentir saudade das piadas bobas com o Coisa no filme de 2007.

Nota: 

- Demolidor

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Crítica de "Selma: Uma Luta pela Igualdade"

"Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação  onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho  um sonho hoje!" Quando lê-se esse discurso, todos já sabem de quem se trata. Martin Luther King Jr. Uma das figuras mais importantes da história mundial, ativista em prol da defesa dos direitos civis dos negros, ganhador do prêmio Nobel da paz. Um dos homens mais importantes do século XX. King já foi tema de alguns filmes sobre seu trabalho inteiro, mas aqui é muito específico. O filme acompanha a luta dos negros em Selma, Alabama pelo direito de votar.

Trata-se apenas de uma das conquistas de Luther King em sua jornada contra a desigualdade racial nos EUA. Mas isso não desmerece sua figura. Pelo contrário. Mostra como ele se entregava em suas lutas e fazia o melhor possível para vencê-las. Discutía com chefes de estado (até mesmo com o presidente) e fazia discursos maravilhosos a fim de mobilizar a população. O roteiro do filme tem a habilidade de retratar Martin da maneira mais fiel possível. A partir do momento que emergimos naquele mundo passamos a nos importar com a luta dos negros. Chega até a dar nojo das atitudes de algumas autoridades e da população local. O roteiro consegue passar a mensagem de sacrifício e luta que os negros passaram para terem seus direitos aprovados até que no final sejam recompensados num momento de glória. É difícil analisar o roteiro impassionalmente, pois seu objetivo é retratar uma luta extremamente desumana e nos mostra como determinados personagens foram tão empenhados na luta, entregando sua própria vida em troca da liberdade. O mérito perceptível que o roteiro apresenta é de tornar o filme dinâmico. Apesar de ser um tema deveras político, não existe aqueles momentos enteidantes. O roteiro sempre consegue prender a atenção do espectador.

A direção é de Ava DuVernay. É uma direção extremamente corajosa. Ela usa de tomadas que focam nas expressões dos personagens em momentos dramáticos que são belíssimas. Além disso, a diretora não esconde as cenas de sofrimento. Ela configura-se como uma diretora que incomoda. Isso não é ruim, pelo contrário. Através da cena o espectador fica enojado com tudo aquilo e seu senso de realidade aumenta. Trata-se de um excelente trabalho de direção. A diretora também faz uma crítica explícita a sociedade da época, extremamente corajosa. Enquanto filmes como "Sniper Americano" enaltece a figura do herói americano, Selma rebaixa os valores morais do país. Não é que o filme critique o país inteiro, mas critica vorazmente a postura das pessoas em relação ao racismo.

Dessa forma, "Selma" configura-se como um filme extremamente importante, ao tratar de assuntos até hoje muito ocultos e dando uma posição imparcial sobre ele. Conta com uma atuação espetacular de David Oyelowo (esnobado no Oscar) e trilha sonora fantástica. Destaque para as músicas escolhidas para o longa dentre elas a música "Glory" de John Legend e Common. Um roteiro que consegue prender a atenção do espectador e uma direção que incomoda. Uma aula sobre como fazer fimes baseados em fatos reais, onde os fatos são realmente reais diferentes de filmes como "O Jogo da Imitação". Esquecido no Oscar, Selma é um dos melhores filmes do ano e precisa ser visto não só pelos amantes de cinema, mas pelos amantes da humanidade.

Nota: 

- Demolidor

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Crítica de "Sniper Americano"

Clint Eastwood. Com certeza, um dos diretores mais surpreendentes da história do cinema. Quem iria imaginar que aquele ator sem muito talento dos velhos filmes de faroeste poderia se tornar em um diretor tão profundo? Clint surpreendeu a todos, fazendo história no cinema moderno com excelentes filmes como "Menina de Ouro" e "Gran Torino". No gênero de guerra, Clint mostrou-se um diretor afiado a debater assuntos controversos, apresentando os dois lados da história nos filmes "Cartas de Iwo Jima" e "A Conquista da Honra". Um diretor que no auge dos seus 85 anos continua dirigindo e produzindo filmes dignos de premiações. Com essa bagagem inteira nas costas, chegamos a Sniper Americano. O filme conta a história de Chris Kyle (Bradley Cooper), o atirador de elite mais letal da história do exército americano que fez seu nome ao lutar na Guerra do Iraque.

Apenas pela premissa dá pra perceber que o filme é extremamente patriótico. Isso é um pouco decepcionante ao falar do diretor, que costuma apresentar as histórias de um modo imparcial. Aqui não existe nenhum momento que a guerra é criticada com clareza, e os americanos têm sempre a figura de um herói, enquanto os iraquianos são sempre os vilões. Como recurso do roteiro é um trabalho notável, pois o público consegue criar uma identificação com os personagens principais. Porém tratando-se de uma história real é uma manobra muito arriscada, pois muitas pessoas interpretarão a Guerra do Iraque como válida e apoiará os EUA. Esse é o principal fator que impede o filme de ser histórico: a política. O roteiro, aliás, descontando o patriotismo é fantástico. Consegue apresentar a história do protagonista sem enrolar muito e cria uma imagem heroica na qual o espectador se agarra rapidamente. Além disso, debate um tema constante na Guerra: o abalo psicológico dos soldados. O roteiro consegue apresentar isso numa forma muito clara, nas tomamadas de decisões e nas mudanças de comportamento que os personagens apresentam. É um tema que já foi mostrado em clássicos como "Apocalypse Now", mas é bem adaptado aos dias atuais.

A direção de Clint Eastwood é notável. As transições que ele usa de uma cena para a outra, o contraste de cores são artifícios muito usados pelo diretor. Além disso, Clint é um diretor muito detalhista e enfoca em alguns elementos interessantes. Existem duas cenas que o diretor foca em terroristas usando roupas de marcas americanas como "Nike" e "Adidas". Isso é um crítica implícita, e mostra como a guerra é mais comercial do que qualquer outra coisa. Clint porém, não se apresenta como aquele diretor notável devido a grande propaganda política que o filme é, mesmo mostrando-se um excelente diretor de cenas dramáticas (possivelmente o melhor da atualidade nesse quesito). A história de Chris Kyle com certeza é fantástica, mas o modo como foi passada para as telonas é americanizado demais. É até compreensível, afinal trata-se um filme americano sobre um herói americano, mas tratando-se de Clint Eastwood esperava-se algo mais.

Bradley Cooper é a grande surpresa do filme. Apesar de ter se mostrado um bom escolhedor de trabalhos nos últimos anos, sendo indicado a 3 Oscars seguidos, é aqui que Cooper faz valer suas indicações. O ator carrega o filme inteiro nas costas e sua atuação é fantástica. Ele capta o espírito caubói do personagem, usando de cacuetes da região, além de fazer um sotaque diferente. Fisicamente, Cooper se preparou bem e durante o filme convence como um militar de elite. Mas, onde o ator realmente surpreende são nos conflitos psicológicos, onde o ator consegue passar muita emoção. É perceptível como Bradley Cooper se entregou ao papel e realmente encarnou Chris Kyle. O elenco de suporte também está muito bem, mas o destaque sem dúvidas é Bradley Cooper.Trata-se de um excelente filme de guerra, com um personagem bem apresentado e interpretado. O grande problema do longa é a política por trás dele.

Nota: 

- Demolidor

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Crítica de "A Teoria de Tudo"

Stephen Hawking é, sem dúvida, um dos maiores gênios da atualidade. Sua vida é repleta de atos de superação e, como Hollywood (e o Oscar) adora esse tipo de história, temos como indicado a melhor filme esse ano “A Teoria de Tudo”. O filme mostra um trecho da vida de Hawking. Desde o descobrimento da doença até a publicação de seu primeiro livro “Uma Breve História do Espaço-Tempo”, quando a esclerose lateral amiotrófica já se encontrava num estado avançado.

O longa foca, principalmente na relação de Stephen com Jane. Isso resulta no maior problema do filme (pelo menos para mim). O espectador vai ao cinema muito mais interessado em conhecer o trabalho de um dos maiores físicos de todos os tempos do que em conhecer sua vida amorosa. Claro, é mostrado parte de seu trabalho, mas o foco aqui é claramente o romance entre os dois. O que talvez pode deixar alguns espectadores frustrados.

Eddie Redmayne interpreta Stephen numa atuação completamente física. A maneira como o ator capta os diversos estágios da doença é brilhante. O jeito que ele se contorce e a forma como ele passa emoção mesmo quase sem se mexer também é incrível. Ele está indicado a Melhor Ator, mas não votaria nele. Além de preferir as performances de Cumberbatch (Jogo da Imitação) e Keaton (Birdman), acredito que Redmayne ainda é muito jovem e que, se continuar desse jeito, ainda concorrerá muitas outras vezes.

Felicity Jones faz Jane Hawking, a mulher de Stephen. Sua atuação também é muito boa. A grande verdade é que Jane só casou com Hawking porque sabia que ele morreria em dois anos, e queria dar os melhores dois anos para o marido. Porém, quando o tempo começou a passar, e Stephen aguentavou a doença, Jane se viu num dilema. Afinal ela não queria passar a vida inteira cuidando de Hawking. Felicity nos passa esse dilema através de sua performance. Ela também está indicada a Melhor Atriz, mas também não deve ganhar. Existem candidatas mais fortes na categoria também, como Julianne Moore (Still Alice) e Reese Witherspoon (Wild).

A direção é de James Marsh. Pode-se dizer que ele cria um filme visualmente muito bonito usando bastante as cores e o foco. Além disso, ele conduz muito bem os atores, o que é muito difícil, principalmente quando se trata de atuações gradativas. Mesmo assim, a direção e o roteiro perdem pontos por focar demais no relacionamento e muito pouco no trabalho do físico. Afinal, o filme é baseado no livro que a esposa de Hawking escreveu.

No final, “A Teoria de Tudo” é um bom filme. Tem uma indicação merecida a Melhor Filme, mesmo com poucas chances de ganhar. Com atuações excelentes, o filme retrata de uma forma tocante a vida de um dos maiores gênios da atualidade. Porém, não se pode dizer que esse é o retrato definitivo de Stephen Hawking.

Nota: 

- Bilbo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Crítica de "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

"Birdman". Difícil falar sobre um filme tão simples e,ao mesmo tempo,tão complexo. É uma daquelas obras que continuam no inconsciente do espectador mesmo muito tempo depois de ser assistida. Um filme que se apresenta como uma verdadeira obra de arte e que desfila sobre a telona do cinema num ritmo agradável, apresentando seu mundo ao espectador e fazendo com que ele emerga nele. É um daqueles longas difíceis de serem avaliados ou criticados, pois trata-se de uma crítica social poderosa. É um filme que serve como entretenimento, mas muito mais que isso mexe com as emoções,ao mesmo tempo que mexe com o intelecto do público. Simplesmente fantástico. O filme acompanha Riggan (Michael Keaton) um ator famoso nos anos 90 por interpretar o herói Birdman nos cinemas. Riggan, então, decide provar seu verdadeiro valor artístico através de uma peça da Broadway.

A premissa do filme parece bastante simples. Trata-se de um ator em busca de reconhecimento artístico. Isso pode ser aplicado muito bem ao ator Michael Keaton que é taxado como o Batman do Tim Burton. O filme serve como uma alusão ao próprio protagonista. Mas o longa vai além disso. Não chega a ser uma crítica ao entretenimento para as massas (os famosos "blockbusters"), mas sim a forma como essas obras são tratadas pelos que se autodenominam "verdadeiros artistas". O filme mostra de uma forma muito clara o desprezo que os críticos e os atores teatrais têm por essas obras que não são artísticas, servem apenas para entreter a massa. O filme porém não segue o pensamento desses personagens. Muitas vezes o roteiro rebate essa ideia, mostrando que mesmo os filmes blockbusters têm seu valor. Além disso, a verdadeira crítica está no fato de Riggan querer ser aceito na sociedade artística. Não satisfeito com o fato de ser conhecido como o Birdman, o ator faz de tudo para proporcionar uma obra na qual seu trabalho seja reconhecido. O roteiro mostra que o ator não faz isso por amor (é claro que ele gosta do que faz), mas a principal razão é o reconhecimento das pessoas. O fato dele querer mostrar para o público que existe um grande ator por trás da máscara. E é assim que o roteiro torna-se genial: expressando os conflitos psicológicos de Riggan, usando de personagens como sua filha Sam (Emma Stone) e seu parceiro de cena Mike (Edward Norton) como vértices de sua obsessão.O filme também traz o espectador ao mundo dos blockbusters, mostrando na TV ao fundo uma entrevista de Robert Downey Jr, ou citando que Michael Fassbender está fazendo um novo "X-Men". Nota-se que os atores mostrados ou citados são excelentes (inclusive artisticamente falando). Um roteiro brilhantemente pensado e que se for notado cada detalhe estaria escrevendo isso por dias.

A direção é de Alejandro González Iñárritu ("Babel"). Ele faz um trabalho excepcional. O filme inteiro é filmado através dos planos sequência. Ele consegue trabalhar com a câmera duma forma que ela torna-se o público. Grande parte do longa situa-se no teatro onde a peça vai ser apresentada, e a câmera flui através dos camarins, dos palcos, parando somente em diálogos entre os atores. Isso faz com que o filme tenha um quê de realista, pois a direção não é cronometrada, ela deixa-se levar pelo ambiente contando a história de sua forma. Além disso, o diretor consegue manusear a câmera em algumas cenas para extrair o máximo da performance de seus atores. O filme apresenta alguns efeitos especiais e estes são extremamente bem acabados. Surpreendentes até, por tratar-se de um filme sem muito dinheiro investido. Alejandro apresenta uma direção desafiadora e o filme mostra o esforço necessário para essa realização.

O elenco está fantástico. Michael Keaton apresenta-se com a melhor intepretação do ano. Sua atuação é praticamente indescretível. Ele consegue realmente viver o personagem e ajuda assim ao público emergir na história e esquecer realmente que trata-se de um antigo Batman. Trata-se do papel mais artístico de Keaton e ele não deixa a chance escapar. Faz um trabalho digno de reconhecimento. Aliados a ele, Emma Stone e Edward Norton fazem um excelente trabalho de suporte, tendo seus momentos de destaque. É um elenco muito bem selecionado e que mostrou-se bastante entrosado. Birdman é um daqueles filmes que mesmo se não for premiado ficará na memória daqueles que o assistiram como uma obra satírica, sarcástica e até mesmo inovadora.

Nota: 

- Demolidor

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Crítica de "O Jogo da Imitação"

Se está na moda cinebiografias dramáticas, eis mais uma. Associada ainda com o tema Segunda Guerra Mundial? Teria tema mais clichê? Quem fez essa pergunta se surpreendeu ao conhecer o filme "O Jogo da Imitação". O filme conta a história de Alan Turing (Benedict Cumberbatch), o gênio matemático que descobriu o código nazista usado na máquina Enigma. Essa descoberta, segundo os historiadores,encurtou a Guerra por dois anos, salvado 14 milhões de vidas.Trata-se de um dos maiores heróis de guerra da história mundial! E você provavelmente nunca ouviu falar em Turing. Isso tudo porque essa brilhante e emocionante trajetória foi mantida em sigilo por mais de 50 anos. Muito tempo depois de falecido é que a história de Turing veio a tona. Primeiro no livro de Andrew Hodges e agora nas grandes telonas.

O roteiro é de Graham Moore. Trata-se de um roteiro brilhante. O roteirista consegue apresentar os fatos reais de uma forma bastante dinâmica. Provavelmente os fatos reais demoraram para se desenvolver, com grandes intervalos entre grandes acontecimentos. No filme,os personagens possuem relações interessantíssimas. O círculo de pessoas em volta da descoberta do código está em constante conflito e o roteiro cria uma tensão entre os personagens primorosa. Além disso, a personalidade de Alan Turing é muito bem apresentada. Existe um outro lado de Turing que o filme apresenta bem: seu lado homossexual. E o filme apresenta esse lado de uma forma tão sutil que não nos surpreende. E mais: o roteiro consegue criticar a sociedade homofóbica da época por meio de diálogos e reações dos personagens.Além disso constrói toda a personalidade de Turing por meio de acontecimentos de sua vida (o filme passa-se em tres momentos distintos da vida do matemático). O roteiro tem o mérito, portanto, de dar um ritmo agradável ao filme, prendendo a atenção do espectador e criando um vínculo com os personagens.

A direção é de Morten Tyldum. Ele apresenta uma direção muito consciente. Sem apresentar enormes tomadas e planos sequências devastadores, o diretor mostra-se preocupado com acompanhar o roteiro. Com a câmera na maior parte do tempo na mesma altura dos personagens, a câmera se torna apenas uma observadora. E não precisava ser mais que isso. Devido a fascinante história, a câmera não precisava de inovaçôes, apenas acompanhar a história seria suficiente. Aliás, a direção se mostra preocupada com os atores e extrai ao máximo seus potenciais artísiticos. O elenco torna-se assim excelente. Benedict Cumberbatch (que está numa crescente de sucesso) conduz muito bem o filme. Sua atuação é metódica e desafiadora. Aliás existem alguns momentos do filme que sua atuação lembra seu próprio Sherlock da série da BBC. Mas é nesse filme que Cumberbatch prova seu verdadeiro valor artístico nas cenas de emoção, principalmente. O elenco de apoio também está muito bom, destaque para Keira Knightley e Charles Dance.

O filme precisa ser visto, não somente por tratar-se de uma excelente obra cinematográfica, mas por apresentar a história de um verdadeiro herói desconhecido. Não sei se essa forte campanha do Oscar conseguirá enaltecer o valor do filme, e se não o fizer será uma pena. "O Jogo da Imitação" é a perfeita combinação entre uma história real imprescindível e um filme bem feito com roteiro e atores fantásticos.

Nota: 


- Demolidor

domingo, 18 de janeiro de 2015

Crítica de "Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo"

Quando anunciou-se que um novo filme sobre luta iria chegar aos cinemas fiquei animado. Só o gênero em si me atrai. Exemplos disso são a antologia Rocky (a qual sou fã há bastante tempo), além de grandes filmes como "Menina de Ouro", "O Lutador" e "O Vencedor". Eis que surge Foxcatcher. Além de ser de um gênero que eu costumo admirar, o filme foi bastante elogiado em festivais mundo a fora, além de ser lembrado em importantes premiações como o Globo de Ouro e o Oscar. Tudo isso só faz com que a expectativa aumente e que se espere não menos que um ótimo filme. É aí que Foxcatcher decepciona.

O filme conta a história real do campeão olímpico de luta Mark Schultz (Channing Tatum) que é convidado pelo bilionário John Du Pont (Steve Carell) a participar da equipe de luta Foxcatcher, um lugar com uma grande estrutura para treinos. Se não se tratasse de uma história real, a premissa do filme seria rídicula. Mas, como parece, as história mais reais são as mais difíceis de acreditar. Com uma premissa tão pouco rica a obrigação do roteiro era de desenvolver bem os personagens, fazendo com que o público se sentisse dentro daquele mundo. O roteiro, porém, não faz isso. Mark tem um bom desenvolvimento, mas não é um personagem pelo qual o público torce ou até mesmo se importe. John configura-se como aquele personagem que não sabemos o que esperar e isso causa uma certa tensão durante o filme. Porém os acontecimentos não se desenrolam e assim o público passa a não dar tanta importância ao personagem. Além disso, o roteiro apresenta situações em que não se explica o porquê de determinadas coisas. Isso torna a história deveras complicada. Isso tudo é fruto dum roteiro defeituoso e preguiçoso, pois não foi capaz de identificar os furos e corrigi-los.O final porém é o que salva o roteiro todo de ser um fiasco total. O clímax final é muito bem apresentado e apresenta acontecimentos que pegam o espectador de surpresa. A pena é que o roteiro não foi assim durante a maior parte do longa.

A direção é de Bennett Miller ("Capote", "O Homem que Mudou o Jogo"). Devido a sua carreira percebemos que o diretor gosta de filmar histórias reais em forma de ficção. Isso porque seus filmes não seguem diretamente a linha real da história. Isso não é um problema, afinal o cinema é uma forma livre de se expressar. Mas talvez em Foxcatcher, o diretor tenha exagerado um pouco. Sua direção é extremamente apagada. A câmera não dá fluidez ao filme. Nas cenas de diálogos e drama, a câmera acompanha pouco os personagens, focando somente em suas expressões faciais. Nessas cenas esse estilo de direção é válido. Porém, essa direção é mantida nas cenas de luta. Benett Miller deveria assitir "Menina de Ouro" para aprender como filmar uma cena de luta. Naquele filme, CLint Eastwood dá um show nos níveis de tensão e apreensão nessas cenas. Em Foxcatcher porém, as lutas não têm emoção e não existe aquela tensão para saber quem vai sair vencedor. Talvez a escolha do trabalho tenha sido errônea. O diretor, porém, consegue trabalhar temas interessantes sobre confiança e solidão, usando muito de artifícios como a cor preta e sombras.

O elenco é o diferencial. Channing Tatum demonstra potencial dramático. Ele conduz muito bem o filme, caracterizando bem os conflitos do personagem. Além disso, o ator está em uma forma física condizente com a do personagem. Isso demonstra um comprometimento profissional muito grande. Steve Carell também está muito bem. Deixando de lado o papel de idiota que fez nas comédias "O Âncora" e "O Virgem de 40 Anos", Steve faz um papel dramático duma forma muito convincente e desenvolve bem o que o diretor o pediu. Talvez o grande erro mesmo tenha sido o roteiro que o prejudicou na hora de dar um aprofundamento a mais ao personagem. O destaque do elenco porém é Mark Ruffalo. Ele interpreta o irmão de Mark. Servindo de uma figura paterna ao protagonista, Mark Ruffalo consegue demonstrar-se um ator versátil e extremamente eficiente. Além disso, o ator também está em plena forma física para o filme. Pode ser que esse seja o seu maior filme (artisticamente falando). O trabalho de maquiagem é excelente, destaque para a maquiagem de Steve Carell que muda totalmente o rosto do ator.

Outra coisa que me incomodou foi o subtítulo brasileiro. Em outras obras como "Whiplash - Em Busca da Perfeição", apesar de apresentarem subtítulos dispensáveis, são condizentes com o filme. Porém com "Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo" isso não acontece. Afinal, essa história chocou a quem? A maioria das pessoas não conhecia a história antes de ver o filme. O subtítulo brasileiro exagera muito ao dizer que trata-se de uma história que chocou o mundo. É triste criticar um filme com tamanho potecial. Este porém foi extremamente desperdiçado. Com roteiro e direção preguiçosos, filme sobre luta não é condizente com o gênero e apenas se destaca devido ao elenco surpreendentemente bom.

Nota: 

- Demolidor

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Crítica de "Invencível"

2°Guerra Mundial. Com certeza um dos temas mais debatidos nos cinemas. Já foram passados às telonas grandes batalhas, histórias de grandes heróis de guerra, massacres etc.. "Invencível" chega as telonas como um novo filme do gênero, mas se diferencia em diversos aspectos. O filme conta a história de Louie Zamperini (Jack O'Connell), um corredor olímpico americano que está lutando a Guerra. Após sofrer um acidente de avião, Louie é capturado pelos japoneses e assim desenvolve-se sua jornada pela sobrevivência.

Depois de ter visto o longa percebe-se que Louie é um grande herói. Tornou-se um exemplo de superação e perdão, devido a seus atos que são inspiradores. Era mais que justo uma pessoa tão importante, mas tão pouco conhecida, ser levada ao grande público. Através da direção da humanitária Angelina Jolie e do roteiro escrito em parte pelos Irmãos Coen, o filme tinha tudo para ser excelente. Excelente não foi, mas teve seus momentos. O roteiro oscila muito. A primeira metade do filme é espetacular. O público consegue se apegar aos personagens facilmente e as cenas conseguem ser extremamente dinâmicas. Mesmo nas cenas sem ação, o roteiro desenvolve diálogos importantes que ajudam a caracterizar bem o protagonista. A segunda metade, porém, possui diversos deslizes. O longa torna-se demasiado lento e o roteiro perde aquele apego aos personagens. Tudo bem que Louie continua sendo querido pelo público, porém os personagens coadjuvantes tornam-se extremamente dispensáveis. Além disso, o filme cede ao antigo clichê de caracterizar os japoneses como os vilões. Certamente existiam japoneses que torturavam impiedosamente por prazer, porém também existiam pessoas que apenas faziam aquilo devido às cirscunstâncias da guerra. Isso tira um pouco a humanidade dos japoneses e faz com que o filme torna-se o típico drama americano onde os EUA estão certos sempre.

A direção é de Angelina Jolie. É apenas o segundo longa que ela dirige, mas ela se sai bem. Os movimentos de câmera são bem fluídos e acompanham os personagens. A edição do filme é muito boa, o corte de uma cena para a outra é muito cuidadoso. A fotografia usada é belíssima. Visualmente é uma excelente reconstruição histórica, com paisagens muito bem usufruídas. O grande problema da direção é o receio da Angelina de cortar algumas cenas desnecessárias. Não que estas sejam ruins, mas tiram o dinamismo do filme e tornam o longa demasiadamente longo. A trilha sonora entra nas cenas certas, com uma música emocionante e condizente com a cena. Aliás, existem cenas irretocáveis, onde Angelina mostra que pode ir longe. Talvez tenha sido precipitado ela filmar Invencível no início de sua carreira, pois com experiência por trás das câmeras, Angelina poderia ter feito um trabalho infinitamente superior.

A atuação de Jack O'Connell é boa. Ele consegue sustentar o filme todo sozinho, mas é bastante facilitado pela personalidade de Louie.O ator não é excelente, mas consegue fazer desse papel um grande salto para a sua carreira. Sua atuação deve ter sido bastante facilitada pela direção de Angelina Jolie, que preza primeiramente dirigir seus atores. O longa é uma grande homenagem a Louie que veio a falecer em 2014. Com certeza é uma história que precisa ser conhecida. Mas talvez o filme não tenha sido ideal para contar essa história. Apesar de tudo, a diretora apresenta potencial para trabalhos melhores, assim como o ator principal que consegue se destacar.O filme foi lembrado pela Academia ao ser indicado a 3 Oscars, porém todos relacionados a especializações técnicas. Dirigido por Angelina Jolie, "Invencível" entre altos e baixos, emociona ao mesmo tempo que entedia.

Nota: 

- Demolidor

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Crítica de "Whiplash - Em Busca da Perfeição"

Jazz. Um estilo musical genuínamente norte-americano que faz parte da própria história do país. Atualmente, claramente, o gênero perdeu um pouco sua força. No século passado, por exemplo, os Estados Unidos foram berço de diversos artistas consagrados ao redor do mundo. Exemplos desses sucessos são Charlie Parker e Ray Charles. Ambos ganharam cinebiografias como "Bird" e "Ray". Para os fãs do jazz, os filmes foram interessantes para conhecer a história dos artistas e seguem um roteiro deveras premeditado. Chegamos então ao ano de 2014, onde somos apresentados a um novo filme sobre o jazz. Porém "Whiplash" traz uma temática totalmente nova e usa da música apenas como um consoante da revelação da verdadeira natureza humana.

O filme acompanha o jovem bateirista Andrew (Miles Teller) que é novato na melhor escola de música do país, o Conservatório Shaffer. Ele começa a fazer parte da orquestra comandada por Fletcher (J. K. Simmons) e lá sofre mais pressão e é incentivado sempre a atingir a perfeição. A primeira cena do filme é um quadro aberto num corredor e vai afunilando até nos apresentar o protagonista. Logo na primeira cena percebemos que o bateirista é empenhado e está se esforçando. Logo de início, Fletcher também aparece rebaixando e humilhando Andrew. Toda essa cena inicial já nos dá o tom que o filme vai tomar. Isso é um acerto muito grande do diretor, pois já estamos conectados na história desde o início.

O roteiro é bem escrito. Pode ser considerado monótono, por tratar apenas da luta de um aluno esforçado contra um professor tirano. Porém, o roteiro toma excelentes decisões que deixam o filme dinâmico. A construção dos personagens é incrível. Andrew, por exemplo, começa como o típico fracassado que não tem confiança em si próprio e aceita muito o que os outros pensam ou mandam. Porém, de acordo com o decorrimento do longa, o personagem vai ganhando personalidade e desafiando algumas coisas que ele nunca faria no início. Isso mostra um roteiro que desenvolve um personagem durante um filme apenas e faz com que o público "se orgulhe" por ele ter passado por todas essas provações e ter evoluído no final. Todo esse trabalho escrito é acentuado pela excelente atuação de Miles Teller que, como seu personagem, começa inseguro, mas vai evoluíndo durante o filme.

Mas, quem realmente merece destaque é o personagem Fletcher. No início o espectador sente um desgosto pelo personagem, até mesmo raiva. Conforme a história se desenvolve entendemos realmente a intenção do maestro. Na verdade ele não é uma pessoa má. Mas como diz num dos diálogos mais profundos do filme seu método de ensino não promove elogios, mas sim críticas que farão com que seu aluno tente superar mais e mais. O fato de seu ensino ter seus imensos defeitos por às vezes chegar a uma tortura emocional é indiscutível. Porém, através de pequenos detalhes do roteiro conseguimos compreender o porquê daquilo, concordando ou não. Esse personagem já foi uma grande sacada para o enredo, porém J. K. Simmons o engrandece mais ainda.

 O ator é o típico coadjuvante que todos conhecem de rosto, mas não sabem seu nome e nem reconhecem sua capacidade artística. Ele participa de grandes sucessos como a trilogia do Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi ou pela comédia "Juno". Nesses trabalhos, Simmons não é capaz de desenvolver seu talento, portanto não é muito reconhecido. Todavia, o trabalho em Whiplash merece aplausos. Simmons dá seu próprio toque ao personagem e passa uma emoção por trás daquele homem metódico e extremamente perfeccionista. O ator consegue fácil roubar a cena durante o filme todo e sua atuação durante todo o longa é admirável. O inusitado é ele ser reconhecido por trabalhos como esse, projetos pequenos sem muita perspectiva que demorou pouco para ser gravado, do que em grandes obras Hollywoodianas.Isso reforça a ideia de que muito talento possa estar sendo subjulgado e até mesmo desperdiçado em Los Angeles. Uma prova de que seu atual trabalho merece destaque foi que o ator ganhou merecidamente o prêmio do Globo de Ouro por melhor ator coadjuvante. E o Oscar vem aí...

A direção (assim como o roteiro) é de Damien Chazelle. Ele escreveu o roteiro do filme "Toque de Mestre" anteriormente, mas não tem uma carreira conhecida. Esse é seu grande trabalho. A direção é o destaque. Damien usa de tomadas até mesmo sufocantes para contar a história. Existem cenas que a câmera poderia muito bem ficar parada sem que nada acontecesse. Porém, o diretor faz movimentos velozes com a câmera focando nos olhares dos personagens e isso causa uma tensão impressionante. A cena escrita não era suposta de dar tanta tensão assim, porém com uma direção afiadíssima Damien consegue superar seu próprio roteiro e deixa o filme mais interessante de ser assistido.

O longa consegue ser apreciado até por aqueles que não são muito por dentro do jazz. Eu, por exemplo, não sou muito conhecedor. Porém, o longa além de apresentar uma bela história, faz com que o público se interesse pelo gênero. Além disso, apresenta métaforas interessantes como: O que é mais importante: o talento ou a dedicação? A resposta não é dada, mas percebemos que Damien Chazelle possui os dois ao realizar Whiplash. Único, sarcástico, dramático. Uma bela surpresa. O filme apesar de excelente, definitivamente não é uma obra-prima e talvez venha a ser esquecido pelo público geral. Uma pena, pois "Whiplash - Em Busca da Perfeição" mostra que o cinema artístico e o que entretém podem estar interligados em uma só obra.

Nota: 

- Demolidor

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Crítica de "Ida"

Polônia. Quando cita-se esse país é inevitável que a memória mais forte situa-se num dos períodos mais conturbados da história mundial: a Segunda Guerra Mundial. A Polônia foi o primeiro país a ser dominado pelos nazistas e lá viviam muitos judeus. A Polônia então foi alvo de muitos massacres à sua população, cicatrizes que ainda ardem nos dias atuais. Então, o que seria conveniente para um diretor polonês contar a história de seu país? Bem, a resposta que provavelmente muitos dariam seria um drama de guerra, que contasse realmente os acontecimentos que ocorreram naquele lugar. "Ida", porém, vai muito além disso. Em vez de tomar essa decisão clichê, o filme conta um drama atual, mas fortemente ligado com o passado. Acompanha a freira Ida (Agata Trzebuchowska) e sua tia Wanda (Agata Kuleska) em busca de respostas pessoais. Ida descobre que seus pais eram judeus através da tia, e ambas embarcam numa jornada em busca da família.

Talvez o grande acerto do filme seja a relação entre as duas protagonistas. Como uma freira extremamente católica prestes a fazer seus votos reagiria sabendo que seus pais eram judeus? O que torna a relação das duas tão interessante é que acompanhamos desde o momento em que as duas se conhecem.É perceptível o choque que as personagens causam uma na outra. Os conflitos entre elas são excelentes, muito bem escritos. Esses conflitos fazem pensar que trata-se de uma luta entre o bem e o mal, o que é certo e errado. Mas, o filme com uma sutileza do roteiro mostra que não existe nada disso. Mesmo a freira "quase santa" pode ceder a atitudes consideradas erradas e mesmo a juíza que cede facilmente a desejos carnais pode realizar alguma ação boa. No final, percebemos que apesar de serem tão diferentes, as personagens se complementam e são essenciais uma para a outra durante a história.

O roteiro talvez não possa ser considerado muito bom. A história em si é bem monótona e o espectador não se apega aos acontecimentos.É uma mistura de drama com road movie.A história em si não prende a atenção do público. O que realmente salva é a relação entre as personagens, que nos fazem refletir sobre a nossa própria vida. A atriz que interpreta Ida está em seu primeiro papel cinematográfico. É um papel bom, eficiente, mas que não merece destaque. Enquanto isso, a atriz da tia Wanda está excelente. A emoção passada por suas expressões faciais são claramente convincentes e o desenvolvimento que ela dá para a personagem é excelente. A direção do filme é de Pawel Pawlikowski. Ele usa em todas as cenas a câmera parada. Em nenhum momento do filme a câmera acompanha a movimentação dos personagens. Isso limita um pouco a área de atuação dos atores, mas a escolha consegue ser acertada devido à simetria presente. Os planos que o diretor usa, na maior parte das vezes, usa dum eixo simétrico para dividir a tela ao meio em duas partes iguais. Isso causa uma beleza insubstituível ao longa, ainda mais por este ter sido rodado em preto e branco. Aliás, a direção lembra muito os filmes antigos em preto e branco, onde a câmera permanecia sempre estática.

A montagem do filme é muito bem feita. As cenas têm exatamente a duração necessária. O filme dura apenas 80 minutos, mas é mais do que o suficiente. O roteiro infelizmente não é cativante e por isso o filme perde um pouco nesse quesito. Porém, devido a boas atuações, uma direção referencial e conflitos extremamente bem trabalhados o filme torna-se assistível e essencial para fãs de cinema europeu.

Nota: 

- Demolidor