domingo, 8 de outubro de 2017

Crítica de "Blade Runner 2049"

"Esses momentos se perderão no tempo. Como lágrimas na chuva". A frase mais icônica do clássico "Blade Runner", de 1982, é um daqueles "movie moments" que ficam marcados. É como se fosse uma única sentença representando todo o ideal do filme; todas as suas provocações filosóficas e existenciais. "Blade Runner" é um dos marcos do cinema e, muito provavelmente, o melhor filme de ficção científica já feito. Baseado no magnânimo livro "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?", o longa situa-se em uma futurística Los Angeles no (até então) longínquo ano de 2019. Em um ambiente comandado por uma gigantesca corporação chamada Tyrell, seres denominados "replicantes" começam a ser produzidos como forma de trabalho escravo para as colônias fora da Terra. Uma nave de replicantes, contudo, se desvincula do padrão e retorna à Terra. Cabe então ao caçador de androides (blade runner) Deckard (Harrison Ford) caçá-los e aposentá-los. Apesar de parecer uma trama simples, essa história distópica, responsável pela criação do universo "cyberpunk", coloca em xeque as questões do ser humano sobre o que é ser humano. Até que ponto uma máquina deixa de ser máquina para ser comparada a um ser vivente? Quais são os limites entre a artificialidade e a originalidade? Indagações como essa são transmitidas ao espectador durante toda a metragem - e as respostas parecem nunca chegar. É importante ressaltar, portanto, a influência de "Blade Runner" na cultura pop em geral. Se hoje usa-se a frase "Isso é muito Black Mirror" é porque "Blade Runner" revolucionou o cinema, mostrando que ficções científicas "cabeça" ainda tem espaço no imaginário popular. Em decorrência disso. tivemos "Matrix", "Ela", "RoboCop", "Ex Machina", além da já citada "Black Mirror" e da excelente série "Westworld".

Chegamos então em 2017 com a promessa de retorno ao universo tão complexo que é o dessa distopia. O filme acompanha o policial K (Ryan Gosling) que, depois de aposentar um replicante, descobre coisas que podem mudar o rumo de sua vida - e de sua "espécie". Mais uma vez, a trama principal do filme é simples. O roteiro escrito por Michael Green e Hampton Fancher apresenta elementos clássicos de filmes policiais, onde a investigação é o que comanda o desenrolar do enredo. Mesmo assim, o texto se apresenta de forma bastante lenta, sem se apressar para as resoluções da história. Isso não é uma coisa ruim: apesar de existirem cenas de ação, o foco aqui é desenvolver os personagens introspectivamente, dando diversas camadas a eles. Talvez a jornada de K seja a mais complexa, já que o espectador nunca sabe o que esperar do personagem. Isso porque a atuação (ou a falta dela) de Ryan Gosling contribui muito para o apego ao protagonista. O ator mostra-se versátil ao interpretar um personagem que apresenta um ciclo de autodescoberta, em que, muitas vezes, o replicante mostra-se mais humano do que os humanos do filme. Aliás, isso é o que faz "Blade Runner 2049" ser tão fascinante. O público nunca sabe definir quais personagens são replicantes, além daqueles que são explicitados. E estes são os mais bem escritos, visto que apresentam angústias e sentimentos genuinamente humanos. Seria a memória a única coisa que nos torna, efetivamente, especiais? E se a ciência fosse capaz de criar implantes de memórias tão reais que se confundissem com as próprias memórias, como definir o que é realidade? O roteiro abre muitas possibilidades, mas não concretiza nenhuma. Embora seja um "blockbuster", o filme preza pela reflexão e pelo raciocínio do espectador.

A direção é da sensação do momento Denis Villenueve. Após conceber excelentes obras, tais como "Os Suspeitos", "O Homem Duplicado" e "A Chegada", Villenueve nos presenteia com uma direção primorosa. Os traços de "A Chegada" são evidentes aqui: uma paleta escura e frívola para ambientar um universo fúnebre e deprimido. As cores do filme, aliadas à fotografia, expressam o sentimento daquele mundo, onde a artificialidade toma conta e os replicantes se mostram mais humanizados do que o próprio ser humano. Aliás, o filme aborda o famoso Teste de Turing, pois, depois de uma máquina ter consciência da própria existência, o que a torna diferente de uma entidade viva? Se fôssemos pegar por esse lado, o ser humano desconhece os mistérios que definem a sua existência. O que nos impede de sermos máquinas criadas por outros seres? Essa angústia provocada pela reflexão metafísica é realçada pelo ótimo trabalho de som do filme, que cria um ambiente tenso, profundo e deveras inquietante. Villenueve também acerta ao utilizar, na maior parte do tempo, "takes" abertos que prezam pela imersão do espectador. É interessante notar cada detalhe da cidade, desde os hologramas gigantes e o fusionismo cultural das ruas até as robôs amantes (alguém aí também lembrou de "Ela"?). A habilidade do diretor de posicionar sua câmera e a escolha acertada dos planos corrobora a veracidade do universo criado. Por se passar em um futuro distante, mas plausível; essa familiaridade gerada pelo visual do filme provoca uma angústia ainda maior. Afinal, "Blade Runner 2049" parece não ser apenas uma diversão escapista, mas uma verdadeira viagem no tempo.

O "casting" do filme é outro ponto sensacional. Ryan Gosling realmente rouba o filme na atuação de sua vida (e que fase excelente do ator), mas Harrison Ford, Robin Wright e Jared Leto demonstram um verdadeiro talento, ao incorporarem personagens dúbios, em um universo extremamente desconfiável. Aliás, "Blade Runner 2049" é uma obra que deixa uma carga negativa no espectador; parece que depois de toda a tensão e urgência apresentadas durante o filme, ao final existe um sentimento de êxtase. Talvez esse seja o grande papel de uma boa distopia: apresentar um mundo futurístico com base no que existe hoje. E a crescente falta de empatia pelas pessoas, a mecanização das tarefas humanas e o desejo de conquista, provenientes do nosso mundo pós-moderno, possibilitam o espectador a pensar na credibilidade daquilo que é apresentado. George Orwell, Aldous Huxley, Isaac Asimov, Philip K. Dick estariam orgulhosos. Trata-se de uma continuação digna, capaz de ampliar o universo criado pelo filme de Ridley Scott, ao mesmo tempo que mantém a essência da obra. "Blade Runner 2049" é um filme profundamente reflexivo, que através de ritmo seguro e roteiro circular, questiona o espectador acerca do que é ser humano. E o mais angustiante? Parece que não temos a resposta.

Algumas interpretações são possíveis com o filme. Deixarei abaixo uma que eu fiz durante a sessão, portanto cuidado com os SPOILERS.
"Blade Runner" 2049 mostra que o ser humano vive com base nas suas memórias, porém elas são meras construções de sua mente; extremamente maleáveis, enviesadas e arbitrárias. Enquanto isso, as memórias replicantes são perfeitas, fato que deixa a possibilidade de se interpretar que o replicante é um ser humano evoluído.
Observe como o roteiro "espelhado" entre os dois filmes corrobora essa ideia: no primeiro filme acompanhamos a transformação do Deckard-humano em Deckard-replicante (embora essa condição não seja explícita, existem fortes indícios). Já no segundo, K passa de um replicante para um replicante mais "humanizado", após ter consciência de sua própria existência. Logo, essa jornada narrativa em conjunto dos dois filmes mostra uma descrença na humanidade enquanto espécie atual, mostrando que a inteligência artificial pode vir a ser o próximo passo do processo evolutivo. "More humans than humans". 

Nota: 

- João Hippert

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Crítica de "It: A Coisa"

Os anos 80 foram um marco na indústria cultural, especialmente na dos Estados Unidos. Em um contexto de final de Guerra Fria, o "American way of life" já havia se espalhado pelo mundo inteiro - possuindo o respaldo de Hollywood. Ao se remeter a essa época, é comum lembrarmos dos clássicos filmes de sessão da tarde, que expressavam a vida nos "high-school" estadunidenses, tais como "Clube dos Cinco" e "Curtindo a Vida Adoidado" e aqueles que todo bom admirador do gênero aventura não deixa passar batido, por exemplo "Os Goonies", "Conta Comigo", "E.T.", dentre muitos outros. A marca dos anos 80, contudo, também foi responsável pela ascensão do excelente escritor de horror Stephen King, responsável por clássicos como "O Iluminado", que misturava elementos culturais da época com a atmosfera terrível proposta pelo autor. Nesse sentido, em 2016, o mundo foi abalado pela estréia da série "Stranger Things", que foi responsável por homenagear os grandes clássicos dos "anos dourados", através de citações explícitas e exercícios de gênero mais sutis. Pode-se dizer que o universo criado por King teve forte influência na concepção do seriado que, por sua vez, teve impacto direto sobre a mais nova adaptação do escritor para o cinema: "It: A Coisa".

O filme acompanha um grupo de jovens em uma pequena cidade do interior dos EUA que precisa lidar com o desaparecimento de pessoas na cidade, fato que é atrelado à presença do Palhaço Dançarino (Pennywise). A estrutura do roteiro escrito pelo trio Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman apresenta semelhanças gritantes com "Stranger Things" (que já é um compilado de vários clássicos infantis). O foco aqui está na relação entre os personagens; o mistério é apenas a chave para o desenvolvimento dos conflitos. Talvez, por esse fato, muitas pessoas decepcionaram-se com o tom do filme, por esperarem algo mais amedrontador e horripilante, como aqueles filmes ligados a espíritos ("Annabelle" e afins). Entranto, "It: A Coisa" nunca se propõe a isso; pelo contrário, já que a vitalidade do longa está no excelente desenvolvimento de personagens, muitas vezes propositalmente estereotipado, muitas vezes subversivo. Assim como em "Stranger Things", aqui vê-se uma personagem feminina extremamente forte (Beverly), que é detentora da coragem do grupo e responsável pelo desenrolar das decisões do grupo. Por outro lado, a inserção do personagem negro (Mike) provoca uma crítica velada ao racismo institucionalizado da época, já que o personagem sofre diversos tipos de discriminação por um grupo de "bullers". Estes, por sua vez, são um retrato da enraizada cultura do "bullying" no país, cujo comportamento é direcionado aos considerados mais "frágeis". Através da apresentação de tais arquétipos, o filme é capaz de representar um retrato fiel dos anos 80, mas sem contestar os valores vigentes.

A construção da afetividade do público para com os personagens é muito acentuada pela excelência do elenco mirim: o grupo todo parece estar em sintonia com o universo de King e o senso de amizade, porém desconfiança perante o desconhecido é nítido. Os atores são ajudados pelo primoroso trabalho do roteiro em acrescentar subcamadas a cada personagem, tornando-os únicos e relevantes (mesmo que alguns venham a ser esquecidos com o passar do tempo). Além disso, a caracterização de Pennywise é fantástica. Certamente trata-se de um dos maiores marcos do cinema no ano de 2017, devido ao grande alcance que o filme já teve. O belo trabalho de maquiagem e de figurino aliado aos efeitos visuais reitera o semblante ambíguo do Palhaço, um figura controversa em relação aos sentimentos mostrados, mas sempre aterrorizante. Talvez pelo fato do longa focar muito na relação entre o grupo principal, Pennywise foi deixado como o simples vilão da história, sem o desenvolvimento completo que muitos gostariam. Provavelmente isso será assunto para um próximo filme. Ademais, o excelente design de produção e a competente concepção da fotografia são responsáveis por propiciar uma verdadeira viagem a uma década remota, mas com traços de horror. Apesar da familiaridade com a ambientação, há algo de sinistro que pode ser percebido através do figurino e dos cenários.

Apesar de ser um filme que trabalhe muito bem as relações interpessoais entre os protagonistas e seus diferentes pontos de vista quanto à solução de um problema maior, o diretor Andy Muschietti tem o mérito de proporcionar uma película, muitas vezes, perturbadora. O trabalho de câmera de Muschietti apela, em grande parte do tempo, para o convencional, com um uso excessivo da tática do "jump scare". Mesmo assim, tal tática reforça o retorno aos clássicos proposto pelo filme, mesmo que não deixe de ser uma obra original. O uso de convenções de gênero pelo diretor reforça a sua proposta de viagem a uma época passada, sem apresentar inovações técnicas que claramente se mostrariam avançadas no tempo. A direção, porém, não limita de nenhuma forma o andamento da história, já que o controle da câmera é tamanho que o filme tem um corte perfeito, com a duração necessária. O trabalho de montagem acerta ao conferir um ritmo extremamente acessível ao longa-metragem, mostrando as verdadeiras qualidades que um "blockbuster" precisa ter: diversão dotada de recursos cinematográficos em harmonia. É inevitável pensar no filme como uma espécie de episódio isolado de "Stranger Things", o que não é maléfico. Contudo, a nova adaptação de King ao cinema mostra um jeito especial de tratar o terror, de forma organizada e funcional. "It" é um filme que mescla elementos de aventura e horror de forma coerente, contando com um roteiro redondo e uma direção competente que tornam o filme uma diversão completamente satisfatória.

Nota: 


- João Hippert

sábado, 30 de setembro de 2017

Crítica de "Mãe!"

O cinema, assim como qualquer outro tipo de arte, apresenta como uma de suas funções provocar uma reflexão no espectador, seja pela exibição de relacionamentos amorosos, ficções que discutem valores vigentes, dentre outros diversos arquétipos presentes na sociedade. Contudo, são poucos filmes que conseguem abalar o público de tal forma que a sala finalize a sessão com um silêncio tênue e uma expressão angustiada no rosto; retrato de que a proposta do diretor foi cumprida com perfeição. No ano de 2016, a ficção científica "A Chegada" foi responsável por isso. Em 2017, "Mãe" se apresenta como tal tipo de filme, mesmo que potencialmente mais controverso, polêmico e conturbador. É por isso que trata-se de um filme de difícil ingestão: a violência vai além da imagética, já que perpassa por valores que moldam a nossa sociedade e simplesmente os quebra. Para aqueles que não são capazes de lidar com um filme extremamente crítico, a opção por "Mãe!" deveria ser repensada.

Mas é justamente essa forma de abordagem do filme que o torna primoroso. Escrito e dirigido pelo excelente Darren Aronofsky, o longa acompanha um casal (Jenniefer Lawrence e Javier Bardem) que vive em uma casa isolada no campo, em decorrência do trabalho do homem: ser poeta. A vida do casal passa por mudanças a partir da chegada de visitantes inesperados. Esse é o máximo da história que pode ser contado sem que se estrague a profunda experiência cinematográfica que é "Mãe!". Todavia, existem metáforas essenciais para compreender a proposta da obra, as quais deixarei no final do texto. O roteiro talvez seja o ponto alto do filme por conseguir imprimir camadas e sub-textos a um ambiente relativamente limitado, através do uso de diversas figuras de linguagem. A apresentação do contexto em que o filme está inserido é feita de uma forma perturbadora, porém agridoce. O espectador consegue perceber que aquilo não é totalmente normal, mas os pequenos devaneios e artifícios utilizados pelo roteiro, como a apresentação de determinados personagens ou a elaboração de diálogos, permitem criar uma familiaridade com o filme. Apesar da estranheza inerente, "Mãe!" consegue prender do início ao fim, muito facilitado pelo excelente trabalho de montagem, edição e mixagem de som, que conferem ao longa a fluidez e o dinamismo necessário para o desenrolar do enredo. O trabalho de montagem consegue relacionar diferentes momentos ao longo do filme que criam rimas narrativas que, muitas vezes, têm papel fundamental no desenvolvimento da metáfora principal. Por exemplo: em uma cena fecha-se uma porta e na seguinte abre-se outra. É um simboliso simples (encerra-se um núcleo da história, inicia-se outro), porém pertinente.

Darren Aronofsky (responsável por "Noé", "Cisne Negro", "Réquiem para um Sonho", "O Lutador") apresenta como marca a forma psicodélica de se dirigir, através de cortes rápidos que dão agilidade para seus filmes. No entanto, em "Mãe!" o diretor mostra-se versátil, optando por uma proposta oposta ao seu estilo, mas essencial para o cumprimento do roteiro. A direção de Aronofsky é bem contida, optando por planos longos e planos-detalhe que focam no rosto dos personagens. A câmera sempre opta por viajar pelo cenário em um movimento bem retilíneo; é como se o diretor quisesse que o espectador estivesse realmente assistindo aquilo na "vida real", sendo a câmera apenas um meio para isso, nunca algo a ser notado. Mesmo assim, a forma estática da câmera nunca torna o filme teatral e monótono, haja vista que o senso de espacialidade do diretor mostra-se extremadamente apurado. Apesar do filme se ambientar em uma única casa, sem nenhuma tomada externa, a câmera de Aronofsky consegue realizar "travellings" oportunos, corroborando a excelência de ritmo conseguida pelo trabalho do montador. O diretor também tem o mérito de criar um ambiente de extrema confusão, já que o espectador se vê perdido na maior parte do tempo. A falta de entendimento e a progressão dos fatos causa uma sensação angustiante, pois a cena seguinte é totalmente imprevisível. Aronofsky acerta ao realizar um trabalho competente de apresentação de universo, direção de atores e criação de símbolos e imagens que só farão sentido ao final da projeção.

Apesar das inúmeras qualidades técnicas e criativos artifícios de roteiro, "Mãe!" é um daqueles filmes que depende muito da química entre os protagonistas. Felizmente, vemos dois atores em grande forma: Jennifer Lawrence e Javier Bardem. Jennifer Lawrence, que há muito já demonstra sua incrível capacidade dramática, confere à sua personagem um toque de inocência e incredibilidade que são essenciais para a construção da narrativa. Aliás, é como se sua personagem fosse os olhos do espectador na tela, pois ela parece ser a única a perceber os absurdos que acontecem e a única com sensatez nas tomadas de decisões. Por outro lado, Javier Bardem interpreta um papel difícil e desafiador, cujos intuitos e preceitos são sempre escondidos por uma máscara que inspira confiança e segurança. As expressões faciais do ator são tão sutis que ele consegue realizar variações dramáticas enormes, mas sempre mantendo a harmonia que seu personagem pede. A dualidade entre a visceralidade de Lawrence e a compassividade de Bardem reforça a perfeita química entre os atores, visto que é a relação entre os dois que move a história. O elenco de apoio também está satisfatório; todos os atores parecem compreender a ousadia de Aronofsky e embarcar no mundo criado por ele.

 As metáforas e interpretações decorrentes do filme são diversas, mas todas têm um peso enorme. É visível a ambição e a ousadia do diretor na idealização de uma obra como essa, já que, simplesmente, existem pessoas que se sentirão extremamente ofendidas. Cabe à cada um fazer sua própria análise, lembrando sempre de que os recursos utilizados no filme são exagerados e propositalmente conturbadores. Muitas vezes a arte precisa chegar fazendo barulho para, na verdade, fazer uma crítica muito mais sutil do que parece. "Mãe!" é um filme inteligente, perturbador, angustiante, quebrador de paradigmas, que se apresenta com um ritmo extremamente fluido, devido à sua montagem competente e ao excelente trabalho de câmera do diretor, além de ser completamente visceral e contar com uma dupla de protagonistas em excelente forma.

SPOILERS:
A metáfora principal:
 A principal leitura do filme depreende que Javier Bardem representa Deus e Jennifer Lawrence a Mãe Natureza. Os primeiros visitantes da casa (que seria a própria Terra) seriam Adão e Eva (note que o homem passa mal e apresenta um corte na costela. Além disso, o casal possui dois filhos, porém um irmão mata o outro - Caim e Abel). As pessoas que chegam à casa representam o próprio progresso da humanidade, com a adoração à Deus ficando cada vez mais forte, a ponto de causar guerras, destruição e prisões. Além disso, as pessoas passam a retirar coisas da casa, mesmo com os avisos da Mãe. Isso pode ser relacionado com a própria degradação que a natureza sofre e como os homens insistem em se comportar desse jeito, mesmo depois de tantos avisos. O filho da Mãe Natureza com Deus seria Jesus, que é morto na mão dos adoradores de Deus, que comem sua carne (clara alusão ao processo de eucaristia da Igreja Católica). Por fim, a Mãe Natureza mostra-se saturada com a situação e destrói a casa (desde o início é perceptível a íntima relação entre a mãe e a casa). Depois disso, na cena final, vemos que Deus recomeça o ciclo, agora com uma outra mulher representando a natureza, o que pode representar uma espécie de vida cíclica na Terra.

Críticas: Ao abordar a exploração humana, o filme critica o desmatamento, a idolatria, as guerras, a fome, a miséira, enfim, todas as mazelas sociais que sempre assolaram a humanidade. Além disso, existe uma clara crítica à própria Igreja Católica e até mesmo à figura de Deus, fato que pode desagradar grande parte do público, já que a Mãe Natureza (original) é sacrificada pelos humanos (inquilinos), cuja presença é estimulada por Deus.

Nota: 

- João Hippert

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Crítica de "Dunkirk"

A Segunda Guerra Mundial talvez seja o tema mais batido do cinema hollywoodiano. Isso porque a contundente vitória estadunidense ao final da guerra permitiu ao país assumir a posição de superpotência - fato que se alastra até os dias atuais. Assim, a Segunda Guerra representa o triunfo final dos EUA e sua vitória é motivo de muito orgulho para o povo americano, sendo traduzida através de inúmeros longa-metragens produzidos acerca do tema. O mais recente "Até o Último Homem", por exemplo, é um claro exemplo dessa necessidade, muitas vezes exacerbada, da heroificação do cidadão americano, de forma petulante e arrogante, na maior parte do tempo. Por outro lado, diretores que apresentam uma sensibilidade aflorada e habilidade em contar boas histórias tendem a deixar obras inesquecíveis, verdadeiros clássicos da sétima arte. É o caso do grande Steven Spielberg, idealizador de filmes como "A Lista de Schindler", "O Império do Sol" e "O Resgate do Soldado Ryan". Eis que surge Cristopher Nolan, em 2017, querendo mostrar ser capaz de realizar um bom filme de guerra, que o coloque no patamar dos maiores diretores da história.

É inegável que o inglês é um dos melhores cineastas atuais, tendo em vista sua já extensa filmografia (ele tem apenas 47 anos). Nolan é responsável pela icônica trilogia do Batman, além de ter realizado excelentes películas, tais como "O Grande Truque", "Amnésia", "A Origem" e "Interestelar". Em seu primeiro filme histórico, Nolan demonstra que sua experiência em montar bons cenários foi extremamente válida. "Dunkirk" retrata a batalha de mesmo nome, ocorrida no litoral francês. Basicamente essa é a premissa que acompanha todo o longa. Todavia, a excelência do filme está contida nos devaneios, os pequenos detalhes que realmente importam em uma guerra. É como se estivéssemos estudando a Revolução Francesa sem focar nos principais (Robespierre, Napoleão, e etc), mas sim se acompanhássemos aqueles que tomaram a Bastilha, aqueles que foram assassinados durante a revolução. "Dunkirk" foge do estereótipo ao conter diversos núcleos de narrativas, compostas por soldados, civis e oficiais, retratando-os com extrema humanidade e se caracterizando como um verdadeiro relato de sobrevivência.

Nesse quesito, o filme acerta ao evitar a extrema "vilanização" dada aos nazistas, já que, por toda a película, apenas acompanhamos os ingleses tentando voltar para a casa, assim como qualquer um faria. Não existe menção à crueldade nazista ou ao motivo da batalha estar acontecendo. O filme não é presunçoso a ponto de querer explicar a guerra (como muitos fazem), mas se limita a desenvolver apenas a batalha de Dunkirk, e os homens que lutaram nela. O roteiro é inteligente ao economizar nos diálogos - a maior parte do filme é apenas sonorizada pela trilha e pelos barulhos de bombas, tiros e explosões. Tal recurso sonoro reitera a veracidade da guerra, sua crueldade e visceralidade, onde apenas a sobrevivência importa. A mixagem de som e a edição encaixam-se perfeitamente nesse aspecto. Já a trilha sonora talvez seja um dos pontos altos da metragem; é simplesmente impossível não se sentir apreensivo com a música. Aliado a isso está a montagem fenomenal, capaz de intercalar os diferentes núcleos de personagens de forma dinâmica, sem prejudicar, de forma alguma, o ritmo do filme. A direção de Nolan é extremamente consciente no que quer abordar: os planos longos e abertos são utilizados de forma frequente, mas inseridos em um contexto plausível e com uma movimentação de fácil entendimento para o espectador. O uso da câmera tremida em momentos oportunos também reforça a imersão do espectador no ambiente hostil da guerra, gerando uma sensação de angústia e impotência.

A paleta acinzentada de cores aliada aos belos planos aéreos tornam a fotografia de "Dunkirk" maravilhosa, um verdadeiro espetáculo visual. A equipe técnica do longa realizou um brilhante trabalho. Contudo, um filme só é capaz de perdurar no imaginário do público se sua mensagem for forte. E "Dunkirk" consegue fazer isso. O filme acompanha homens comuns durante a guerra, mas não apela para o excesso de melodrama. O fato de não existir nenhum protagonista reflete a vontade de Nolan em abordar não os ingleses ou os franceses, mas sim o ser humano em si. Afinal, em um momento de hostilidade como é uma batalha de tamanhas proporções, o comportamento humano é muitas vezes falho, covarde e insensível. Isso porque simplesmente não estamos preparados para encarar o nosso destino, e a possibilidade de sobreviver conta muito mais do que a vitória do país. Nolan mostra que, mesmo com aliados ao seu lado, em um contexto de tanta hostilidade a máxima é "cada um por si". Ao retratar os personagens de forma extremamente sensível e humanizada, o apego do público é muito intenso, o que contribui para o excelente andamento do longa. "Dunkirk" apresenta inúmeros aspectos técnicos que merecem exaltação, mas é o retrato de Nolan acerca do homem comum na guerra que torna o filme tão especial.

Nota: 



- João Hippert

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Precisamos falar sobre: "Sete Minutos Depois da Meia-Noite"

"Sete Minutos Depois da Meia-Noite" (originalmente "A Monster Calls") é um daqueles filmes que fazem sucesso nos festivais ao redor do mundo, porém, ao atingir solos brasileiros, duram pouco e fazem parte de um circuito extremamente reduzido. A data oficial de estreia do filme no Brasil foi 5 de Janeiro de 2017, contudo grande parte do público não teve a oportunidade de ir ao cinema. Eis que o filme surge no catálogo Netflix e torna-se mais acessível, suscitando diversas discussões acerca de temas deveras profundos e filosofantes.

O filme acompanha Conor, um menino que sofre bullying na escola e tem uma mãe com uma doença em estágio terminal. O menino começa a receber visitas de um monstro "amigo", que conta para ele algumas histórias. A premissa parece básica, mas a estrutura do longa é diferente de quase tudo que já vi no cinema. Trata-se de um exímio conto de fadas, na acepção mais pura da palavra, sem os devaneios tão comuns na versão Disney (nesse quesito se assemelha ao excelente "O Labirinto do Fauno"). O clima pesado referente à situação emocional na qual se encontra o protagonista conversa com a morbidez das histórias contadas pelo monstro. De certa forma, é possível comparar as histórias com a própria realidade em que vivemos, haja visto que uma história sempre parte de um contexto real. E, muitas vezes, uma simples história fantástica pode nos ensinar muito mais do que palavras jogadas ao vento em seu sentido denotativo.

Nesse sentido, o diretor J. A. Bayona acerta em cheio ao conectar os diversos elementos fantásticos com as situações vivenciadas pelo menino. Se em uma cena vemos Conor destruindo um castelo imaginário concomitantemente com um caos produzido na casa de sua avó, também percebemos como tudo o que ele pensa sobre a moral deve ser destruído. Estamos acostumados a viver em um mundo regido por normas de convivência e comportamento e, o simples fato de desejarmos algo fora do comum, nos torna culpados - não só pela sociedade em que vivemos, mas também por nossa própria consciência. O monstro, ao demonstrar a necessidade de Conor destruir os ambientes opressores ao seu redor, seja na metáfora de um castelo, seja no ambiente arcaico da casa de sua fria avó, prova como a verdade humana só pode ser atingida ao se desconsiderar todo o ambiente ao redor. Fugindo de perspectivas deterministas (tão presentes no mundo atual), o longa aborda profundamente a concepção platônica do ser, fazendo o público refletir acerca das verdades irrefutáveis que temos que engolir e refletindo sobre a famosa questão: "o que faz o ser humano ser humano?".

(a partir daqui alguns spoilers do filme são revelados)

Toda essa reflexão é extremamente favorecida pelo arco final do protagonista. Como um menino com o pai ausente e sem nenhum amigo é capaz de lidar com a eminente morte de sua mãe, único laço amoroso que ainda possui? Inicialmente, Conor parece desejar muito que sua mãe sobreviva, apelando ao monstro (que é uma árvore curandeira) para salvá-la. Entretanto, o monstro parece desconfiar da veracidade do sentimento do menino e dá indícios do que ele realmente queria escutar: a verdade. Conor deseja que sua mãe sobreviva (é claro), mas ao mesmo tempo não suporta que sua mãe sofra tanto com a doença. Ao mesmo tempo que ele quer sua mãe bem ao seu lado, ele quer que seu sofrimento acabe. Mesmo que isso signifique sua morte. Ao destruir todas as barreiras impostas por sua consciência, Conor descobre ao final que não é "pecado" apresentar tais sentimentos dualistas. Simplesmente faz parte de ser humano: às vezes queremos coisas contraditórias e sofremos com coisas exatas. Não existe uma fórmula certa para nos dizer o que fazer e como fazer. Em uma belíssima cena final, o monstro narra: "E, por fim, o menino agarra forte sua mãe e finalmente deixa ela ir." Ou seja, ao final de sua jornada Conor percebe que a estadia de sua mãe na Terra já estava no fim e aceita com resignação. Apesar de sentir tristeza e saudade, Conor entende que faz parte da vida. A vida é um passeio onde apenas conhecemos o início e temos certeza do fim. "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" nos mostra como o sentimento humano é paradoxal e como está tudo bem por conta disso. As grandes reviravoltas da vida e os momentos de sofrimento são as coisas que a tornam extremamente válida, mesmo que não a entendamos plenamente. É nossa parte aproveitarmos cada momento da forma que achamos melhor, deixando de lado qualquer meia culpa que nos impeça de alcançarmos nossos objetivos. Ás vezes precisamos ouvir palavras de um monstro para realmente darmos valor à mensagem.

- João Hippert

domingo, 2 de abril de 2017

Crítica de "A Bela e a Fera"

Walt Disney Studio é sinônimo de clássico. Desde os primórdios do cinema, com a realização de "Branca de Neve e os Sete Anões", até o recente "Zootopia". Quando se trata de criar universos e personagens fantásticos, a produtora é imbatível. De uns tempos para cá, todavia, a Disney tem investido em produções que retomam universos já conhecidos pelo público. Basta lembrar dos recentes sucessos "Mogli" e "Malévola", que renderam uma boa bilheteria, além de serem elogiados por boa parte da crítica internacional. Eis que chega a vez de revistarmos um dos contos de fada mais clássicos de todos: "A Bela e a Fera", que já havia se tornado uma animação em 1991. O longa acompanha Bela (Emma Watson) que, após ficar presa no castelo de um terrível monstro (Dan Stevens), começa a desenvolver sentimentos pela fera, contrariando a opinião dos habitantes de seu vilarejo.

O roteiro do filme, escrito por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos, segue o senso comum da narrativa de mundos fantasiosos. As viradas são feitas com bastante segurança, sem surpresas maiores ao longo do longa. Isso é algo positivo, pois faz com que a direção e a fotografia se sobressaiam na representação do universo fantástico. Os roteiristas lidam muito bem com o primeiro ato do filme, em que somos apresentados ao cotidiano monótono de Bela e sua vontade por ser mais do que aquilo. Nesse sentido, o desenvolvimento da protagonista é perfeito, visto que ela é sempre senhora de seu destino e "motor" dos acontecimentos ao seu redor. Em tempos de escândalos machistas, uma mensagem como essa é imprescindível. Além disso, o roteiro introduz certos elementos que trabalham a sexualidade dos personagens, o que foi alvo de crítica ao redor do mundo. Contudo, o trabalho foi bem feito, reiterando o papel do cinema em quebrar certos tabus vigentes na sociedade.

A direção de Bill Condon é essencial para a construção do ambiente do filme. Desde o início, com o movimento da câmera se afastando e aproximando, dando sensação de pequenez e grandeza, o espectador consegue distinguir a dimensão dos locais referidos. A fluidez do movimento de câmera na cidade permitem cenas belíssimas, que são realizadas com excelentes números musicais. As músicas em si não precisam de comentários, já que são clássicas desde a animação de 1991. Mas a sensação de ouvir "Beauty and the Beast" e "Be Our Guest" na telona é sempre a melhor possível. A coreografia e o figurino são extremamente condizentes com o tom fabuloso da metragem. Bill Condon nos oferece uma jornada impressionante a um universo já conhecido, mas sob uma perspectiva diferente e especial. Talvez seja por isso que os remakes da Disney sejam tão bem feitos. O diretor tem a liberdade de dar seu ponto de vista para a história, mas esta continua sendo "A Bela e a Fera". Um clássico é um clássico, independente de sua roupagem.

Luke Evans interpreta um Gaston carismático e com forte presença em tela. Emma Watson mostra-se uma atriz com muitas camadas, ao conseguir dar força e sensibilidade para uma personagem deveras complexa. Talvez o único grande problema do filme seja seu ritmo. Na transição do primeiro ato de apresentação para o segundo ato de desenvolvimento, o diretor se perde um pouco no rumo da narrativa. Enquanto o início é levado com bastante naturalidade e calma, dando ênfase à criação dos ambientes e personagens, o segundo ato se acelera demasiadamente. O romance inicial entre a Bela e a Fera é resolvido em pouquíssimas cenas, o que tira do filme a fluidez que havia sendo apresentada. O amor entre os personagens só é crível devido ao conhecimento do público acerca da história prévia, o que configura um seríssimo problema estrutural da obra. Ademais, o filme de 2017 é uma digna refilmagem de um clássico, trazendo a história sob um ponto de vista inventivo, mas sem tirar o brilho que imortalizou a animação de 1991.

Nota: 

-João Hippert 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crítica de "Fragmentado"

M. Night Shyamalan talvez seja a eterna promessa de Hollywood. O diretor abalou o mundo em 1999 com o poderosíssimo e já clássico recente "O Sexto Sentido". Um ano depois, Shyamalan trouxe para o público o bom "Corpo Fechado". Vale ressaltar que muito do mérito de ambos os filmes está na construção narrativa perfeita até a chegada de um plot twist. E é essa a grande sina da carreira do indiano até então; já que o público sempre espera algo surpreendente, os filmes nem sempre agradam. Mas eis que chega "Fragmentado", que parece realmente quebrar com tudo aquilo que esperam de Shyamalan. O filme conta a história de um homem com múltiplas personalidades (James McAvoy), que sequestra três meninas na porta de um shopping sem motivo aparente. O roteiro se desenrola através das conversas das garotas com as diferentes facetas do homem.

Primeiramente, é notório o ambiente angustiante do filme. A direção calma, ao início.sem movimentos aparentes, e a câmera focada nas expressões faciais dos atores permitem uma completa imersão no ambiente mostrado. Aliado a isso, está o roteiro deveras redondo, que consegue conter diversas camadas dignas de discussão. Ora, quando McAvoy exibe uma personalidade infantil, o espectador sabe que é um momento de alívio e até mesmo de conseguir algumas vantagens. Quando o personagem torna-se uma mulher, o sentimento mais frequente é a dúvida e o receio quanto às ambições da personagem. E não há como negar o medo assaltante que a faceta maligna impõe. O roteiro consegue, de forma prática, caracterizar as diferentes personalidades, de modo que sejam de fácil reconhecimento.

Um ponto negativo do roteiro é a falta de aprofundamento no desenvolvimento das meninas. Apesar de Casey (interpretada pela excelente Anya Taylor-Joy) apresentar um passado sombrio que vai sendo mostrado aos poucos, tal fato apenas serve para corroborar uma decisão do roteirista em relação ao clímax. Além disso, o texto se contradiz ao final da metragem, quando Shyamalan deixa um pouco o universo coeso criado para investir em algo mais sobrenatural. Apesar disto não ser algo totalmente estranho na filmografia do diretor, percebe-se uma discrepância em relação ao resto do longa que dá ao final um peso menor. O ponto alto do filme é James McAvoy e suas múltiplas personalidades. O roteiro tem o talento de relatar como é o cotidiano de uma pessoa com o transtorno, seja através de diálogos expositivos (que nunca tornam-se maçantes), seja pelo uso da câmera subjetiva. Aliás, a câmera de Shyamalan é extremamente inventiva e dinâmica, tornando o ritmo do filme ideal. Nesse quesito, o diretor lembra muito Hitchcock em sua boa fase, conseguindo aliar uma boa ambientação e fluidez cinematográfica a um roteiro instigante.

Se em 2016, o suspense confinado "Rua Cloverfield, 10" nos presenteou com a excelente atuação de John Goodman, aqui McAvoy rouba a cena. O ator demonstra uma flexibilidade imensa, ao transitar de opostos de personalidade em questão de segundos. É visível o esforço, até mesmo físico, do ator na realização de um excelente trabalho, provavelmente o melhor de sua carreira. Contudo, é importante avisar que "Fragmentado" não é um filme fácil de ser digerido. São 2 horas de pura tensão e incerteza, com cenas repugnantes, muitas vezes. Um fato interessante é a última cena do longa, que parece criar um "multiverso" dos filmes do diretor. Shyamalan apresenta um filme redondo, com traços "hitchockianos" de suspense, atuação primorosa de McAvoy e ritmo extremamente bem conduzido, que tornam "Fragmentado" um excelente retrato de múltiplas personalidades e da ignorância do homem em relação ao seu potencial cerebral.

Nota: 

- João Hippert