quarta-feira, 18 de abril de 2018

Crítica de "Um Lugar Silencioso"

O cinema de gênero, cada vez mais no panorama atual, vem perdendo espaço para as grandes produções. Os filmes de terror, por exemplo, são majoritariamente genéricos e com fórmulas batidas, apresentando poucos espaços para obras realmente inovadoras. Contudo, quando estas aparecem devemos reconhecer o frescor da arte sob a forma de película que faz a experiência cinematográfica ser maximizada sempre. O cinema de terror, especificamente, vem se fortalecendo bastante nos últimos anos devido a obras que pensam de uma forma diferenciada e que apresentam suas situações de formas não-convencionais, mas sem perder a essência do terror como manifestação do medo. "Invocação do Mal", "Corrente do Mal", "Babadook", "A Bruxa" são exemplos de cinema de gênero extremamente bem acabados em seu propósito, além de bem originais e com roteiros instigantes e complexos. Eis que, em 2018, surge John Krasinski (o mesmo da série cômica "The Office") com um roteiro bastante inovador. O filme acompanha uma família sobrevivente a uma espécie de apocalipse provocado por monstros que reconhecem suas vítimas através do barulho. Dessa forma, para que a família sobreviva é preciso se evitar ao máximo a emissão de qualquer som alarmante. Mas, como todo filme de terror, as coisas não saem exatamente como o planejado.

O principal desafio do roteiro foi a concepção do universo enquanto coisa real e a incorporação do conceito do silêncio como fator crucial à obra (nesse quesito remetemos ao excelente "Silêncio", de Martin Scorsese). Aqui, através de uma apresentação hábil de mundo, o script consegue definir regras daquele universo que são seguidas até o fim. Todas as gags, ao final, são utilizadas em prol da fluidez narrativa. Por exemplo, o fato do menino brincar com o carro no seu tempo livre tem impacto direto em um momento chave ao final da película. E essas articulações entre as diferentes partes do filme dão mais escopo à metragem, assim como uma maior coerência visual/textual. Ora, tudo é colocado de maneira tão encaixada que o público percebe o esmero do roteiro em definir os detalhes como elementos importantes da narrativa. Aliás, o filme trata justamente sobre isso. Em meio a uma sociedade de anúncios chamativos e barulhos a todo o momento, por que não mergulharmos em um filme pautado no silêncio e no apreço pelos detalhes? Além disso, vale ressaltar o emocionante desenvolvimento dos personagens da família, que foram utilizados como forma de engrandecer o apego do espectador àqueles sobreviventes. Todos os integrantes possuem um arco muito bem definido, sendo suas curvas dramáticas muito bem divididas a ponto de permitirem um excelente ritmo ao longa. O filme apresenta 90 minutos de duração, mas aparenta ter menos, justamente, por focar na fluidez dos fatos e na objetividade daquilo que é necessário à trama. Apesar de existirem momentos contemplativos e de desenvolvimento das relações entre os próprios personagens, o roteiro parece optar por um clima de tensão e um senso de urgência constantes, que, como são bem administrados, funcionam muito bem.

Por outro lado, vale também ressaltar a segura direção de Krasinski: mesmo não muito inovadora quanto à técnica, foi bastante prática. Krasinski parece ter a confiança de conhecer todos os nuances da história, ao apresentar sequências ora empolgantes, ora agoniantes, sendo a movimentação de câmera fator fundamental para a clareza visual. Por outro lado, o longa aposta em planos muito abertos que reiteram a grandeza daquele mundo pós-apocalíptico e a insignificância dos sobreviventes em relação a tudo. Nesse ínterim, a fotografia pálida e lúgubre serve para ressaltar esse ambiente triste e sem vida, sendo as cenas enquadradas pelo diretor muito bonitas, porém sem a vivacidade necessária, justamente, por esse apelo solitário que o filme traz consigo. Dessa forma, é impossível não comparar o visual do filme e a própria premissa ao jogo "The Last of Us", que também aposta muito no suspense e na construção de um universo rico como forma de desenvolver a história. Ademais, vale também destacar o papel vital do editor e do mixador de som na montagem desse filme, visto que o trabalho com o som é deveras importante para o impacto no espectador. Sendo uma obra que trabalha com a inexistência total de nenhuma forma sonora, qualquer ruído mais grave ou inserção de trilha sonora precisa ser feito de maneira totalmente estratégica, visto que configura-se como uma mudança de paradigma muito rápida. Assim, a trilha sonora também é usada de forma eficiente nos momentos oportunos, sendo o seu tom melancólico completamente condizente com a atmosfera criada.

Talvez o grande problema da metragem esteja na sua parte final. E quando digo final remeto-me aos cinco minutos finais de fato. A resolução do clímax, apesar de ser válida para outros filmes e outras situações apresentadas, não possui respaldo na construção do universo previamente exibida. Mesmo que apresente um certo sentido narrativo, a ruptura com o sentimento sob o qual o filme se baseia faz com que o final não seja tão impactante quanto deveria. Apesar do longa a todo o momento quebrar paradigmas formais do gênero e desenvolver certas situações de forma criativa, é justamente o final que provoca um pouco de desgosto, por remeter a um clichê muito utilizado. Mas, mesmo assim, "Um Lugar Silencioso" é uma obra deveras ousada e que merece ser vista no cinema, principalmente pela experiência áudio-visual. O elenco também merece destaque por ser capaz de oferecer subcamadas aos personagens de modo que cada um tenha a sua personalidade própria, mesmo sem expressá-las por meio da voz. Talvez a mais exigida dramaticamente seja realmente Emily Blunt, mas os demais atores conseguem dar um suporte muito bom para ela, de forma que todas as atuações são críveis e competentes. Dessa forma, "Um Lugar Silencioso" se apresenta como um filme de gênero que foge das convenções, ao desenvolver um conceito criativo de forma atmosférica e completamente imersiva.

Nota: 

- João Hippert

sábado, 3 de março de 2018

Crítica de "Trama Fantasma"

Paul Thomas Anderson é aquele típico diretor/roteirista que, com o passar do tempo, tende a virar clássico. Mesmo que não seja tão conhecido pelo público popular atualmente e apesar de possuir uma filmografia relativamente pequena, Paul Thomas Anderson surpreende pela abordagem que deseja fazer nas suas obras: nenhum filme do diretor, mesmo que aparente ser, é óbvio. Isso porque PTA preza por construir roteiros repletos de simbolismos e atmosferas fantásticas que fazem o público pensar. A história principal sempre serve de pano de fundo para um ensaio sobre as fragilidades humanas, as aspirações, o poder, a casualidade. Cada filme de Anderson, melhor ou pior, resgata aquilo de mais nato que o cinema oferece: a capacidade de fazer com que o espectador reflita, utilizando dos diversos recursos cinematográficos para isso. É por isso que já existem tantas obras inesquecíveis dirigidas por ele, tais como "Magnólia", "Sangue Negro", "Boogie Nights", "O Mestre" e "Vício Inerente". "Trama Fantasma", portanto, chega cercado de expectativas pelo próprio peso de seu idealizador. Entretanto, existe um fator crucial que eleva a categoria do filme, mesmo antes da sessão ter início. O grande ator Daniel Day-Lewis (vencedor de 3 Oscars) anunciou que este seria o seu último projeto antes de se aposentar. Repetindo a parceira de sucesso de "Sangue Negro", o ator interpreta Reynolds Woodcock, um londrino dos anos 50 famoso por confeccionar vestidos para as mais variadas celebridades. Sua vida começa a mudar de rumo quando ele conhece Alma (Vicky Krieps), que se torna seu amor e sua inimiga, em uma relação conturbada, mas essencial para os dois.

O filme é um ensaio sobre o poder e a tensão que este provoca. Através de uma construção hábil de personagens contrastantes , Paul Thomas Anderson exibe um conto moderno sobre o jogo de poder nas relações interpessoais e a necessidade do ser humano de se sentir imponente. E, tendo em vista o fato de que os personagens são esféricos (complexos, imprevisíveis), o texto é surpreendente. O roteiro quebra com muitos estereótipos pré-estabelecidos, levando o espectador a uma jornada estranha, porém encantadora. É esse brilhantismo narrativo, tanto na construção dos personagens, quanto na elaboração das situações, que dá ao filme um ritmo ideal. Apesar de transparecer lentidão, "Trama Fantasma" é de fácil digestão por, justamente, ser arrebatador desde seu início. E, como o roteiro trata de verdades universais (poder, relação conjugal, trabalho), é impossível não se sentir compelido a absorver cada analogia da metragem. O filme também pode ser analisado como uma sátira do amor e como uma metáfora que diz respeito aos sacrifícios que uma boa relação demanda. O exagero faz parte da filmografia de Anderson e serve como um importante recurso narrativo para a criação de uma situação absurda, mas crível. O sub-texto consegue fazer um verdadeiro estudo psicológico do ser humano, sendo muito auxiliado por toda a "mise en scéne" e pela habilidade dos atores. Além disso, o longa trata da própria dissociação entre a vida e a obra do artista. Na jornada de Reynolds, a princípio, é visível o apego que ele tem à sua obra em detrimento a sua própria saúde, tanto física quanto mental. Com o decorrer de seu arco, Reynolds parece compreender as sutilezas que a vida oferece e o fato do personagem fazer uma escolha que iria claramente prejudicá-lo, é genial para o fechamento desse entendimento. A alternância entre os momentos de atividade e repouso, carinho e grosseria, amor e ódio dão a tônica desse filme que trata dos ciclos da vida de uma pessoa, sua transitoriedade e a bipolaridade que as próprias relações humanas impõem.

Assim, a direção de Paul Thomas Anderson é algo fantástico e se vende pela completa imersão proporcionada. O uso da câmera pelo diretor é muito inteligente e os planos longos em aliança aos planos sequências dão uma vivacidade maior ao longa. Mesmo que o diretor não se destaque pela inventividade dos ângulos de câmera ou pela movimentação, PTA é excelente por ser "menos". Em seu filme, a câmera é simplesmente mais um elemento que é usado para engrandecer a narrativa. E, juntamente com seu competente montador, o diretor é responsável por uma eficiente metragem, com a duração ideal. Nenhuma cena está no filme por acaso e, o que parecia ser uma mera relação abusiva de amor, é totalmente invertida pelas viradas de roteiro. A fotografia do filme também é eficaz, mas o que impressiona visualmente é o excelente trabalho de figurino e maquiagem que, em aliança com uma paleta de cores mais fria, dão ao longa um tom "vintage", condizente com a a época do filme. Sem falar na trilha sonora que é um absurdo de notas musicais bem encaixadas com a trama, utilizando de instrumentos musicais variados para dar o tom das cenas. "Trama Fantasma", entretanto, não é um filme para todo mundo. Mesmo que o ritmo seja coerente com a proposta do diretor, muitos podem achar o roteiro um pouco sem nexo, devido ao excesso de simbolismos e a dubiedade das ações dos personagens. É um filme que merece investimento emocional, mas, tais fatores, foram responsáveis por dividir as opiniões. Isso, em si, é muito valioso para o próprio filme, pois, uma obra que não termina com o apagar das luzes do cinema, põe em evidência o seu valor artístico e sua capacidade de gerar reflexão no espectador.

Mesmo assim, o filme não se vale apenas das qualidades de seu idealizador: Daniel Day-Lewis consegue roubar o filme para si. A versatilidade do ator é impressionante e o modo como ele toca seus projetos é algo louvável. Aqui, Lewis aposta na dubiedade e na excentricidade de seu personagem, mas nunca existe exagero algum que dê caricaturas demais a Reynolds. Através de pequenos gestos e de expressões faciais diferentes no momento da fala, o ator é capaz de fazer uma composição visual tão impactante quanto a do seu trabalho em "Sangue Negro". E Lewis é tão habilidoso que consegue fazer com que o filme seja ainda mais interessante para o espectador. Ele parece inspirar uma aura de mistério e segurança, ao mesmo tempo, que instiga o público a acompanhar sua jornada. Tudo isso é facilitado pelas ótimas atuações de Vicky Krieps e Lesley Manville, capazes de dar o suporte necessário para o bom funcionamento de Lewis em sua atuação. A grata surpresa que esse filme concede são as suas 6 indicações ao Oscar, pois, apesar de ser o melhor dentre os indicados, está longe de ser parecido com os demais. "Trama Fantasma" poderia ser comparado com "Mãe" em relação à sua preponderância narrativa e por sua análise complexa do comportamento humano. A atmosfera é absolutamente arrebatadora e estonteante, fazendo com que o público sinta-se extasiado ao final do filme. Se "Trama Fantasma" virá a ser um clássico é difícil dizer, mas as situações são tão interessantes que o filme surge como aquele que merece ser visto várias e várias vezes por apresentar diferentes facetas sob diversos olhares. O novo trabalho de Paul Thomas Anderson é imponente, complexo, desafiador e profundo. O roteiro repleto de sub-textos antropológicos em aliança com um ator de alto nível em seu auge resulta em uma realização cinematográfica completamente satisfatória - e surpreendente.

Nota: 

- João Hippert

sexta-feira, 2 de março de 2018

Crítica de "Me Chame Pelo Seu Nome"

A premiação do Oscar é muito controversa: apesar dos cinéfilos saberem que, na maioria das vezes, os indicados e os vencedores não merecem a estatueta, não vemos a hora de chegar a época da premiação. Isso porque é o momento em que filmes não-comerciais surgem com alguma relevância no território brasileiro, o que permite ao grande público conhecer obras fantásticas, que, mesmo não sendo premiadas, continuam no imaginário popular. Esse é o caso de "Me Chame Pelo Seu Nome": coprodução entre diversos países (inclusive o Brasil), comandada pelo diretor italiano Luca Guadagnino. Baseado no livro de mesmo nome, o filme se passa "em algum lugar na Itália", nos anos 1980, e acompanha o menino Elio (Timothée Chalamet) e suas descobertas pessoais na adolescência. A chegada de Oliver (Armie Hammer) é pretexto para despertar uma paixão arrebatadora no coração do menino e é aí que começa o romance entre os dois. O roteiro, como se percebe, não é muito original, mas jamais se presta a isso. O foco aqui é nas nuances do relacionamento, os olhares perdidos, os confrontos verbais; nunca o encantamento do amor em si. A estrutura narrativa, por ser parecida com "O Segredo de Brokeback Mountain", pode incomodar alguns pela falta de novidade, mas a trama é desenvolvida com tamanha suavidade que o filme ganha contornos próprios ao longo da projeção.

O roteiro de James Ivory é um dos pontos fortes da metragem por ser hábil ao construir uma atmosfera passional. Apesar da própria ambientação e da própria trilha sonora inspirarem um tom onírico, como se fosse uma viagem no tempo para um local remoto, o roteiro é capaz de desenvolver muito bem a dupla de protagonistas, principalmente seus conflitos internos. É perceptível a confusão de Elio no que se refere a sua sexualidade, afinal o menino se sente atraído, a princípio, por ambos os sexos. E a confusão que isso provoca na sua cabeça é de uma suavidade tremenda. Além disso, muitas vezes entendemos a situação de cada personagem simplesmente por causa da linguagem corporal. Entretanto, esse tom contemplativo acerca do ato de se apaixonar incomoda no início do filme, pois faz com que o ritmo seja extremamente defasado. A primeira metade do longa é desnecessariamente arrastada, haja vista que o espectador já é capaz de perceber onde o roteiro quer chegar, mas este não caminha, fazendo com que o ritmo se torne um pouco cansativo. Mesmo assim, a partir da segunda metade do filme, o diretor parece ter total convicção sobre os rumos que sua história deve tomar, engrandecendo demasiadamente a sua obra a partir de então. E é na química entre os protagonistas que a projeção se vale, visto que o roteiro sensível a as atuações viscerais são capazes de prover sutilezas essenciais para a credibilidade do romance. Outro ponto muito forte da obra é a construção de personagem do Mr. Perlman (pai de Elio). Ao longo do filme, o personagem apresenta uma aura com um quê de mistério e o público parece nunca ser capaz de perceber o que o move. Chega no clímax e, então, somos presenteados com um monólogo belíssimo capaz de exemplificar toda a mensagem do filme e encerrar o arco do personagem. Assim como "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças" propunha, o amor nunca deve ser esquecido, pois, mesmo que tenha trazido dor, são os momentos de felicidade que servem para engrandecer o eu.

Nesse sentido, a direção consegue ser hábil e sensitiva: o espectador é transportado através das sensações dos personagens. Trata-se de um filme passional, quente, que, com a ajuda do cenário e das próprias referências à cultura greco-romana, discute os conceitos de beleza e de desejo. A câmera de Guadagnino, apesar de estática em grande parte do tempo, é muito minimalista: são os pequenos detalhes que engrandecem a história do filme. Tudo isso é muito ajudado pela excelente trilha sonora, capaz de emocionar devido à profundidade das canções. Aliás, "Me Chame Pelo Seu Nome" é um filme que inspira muito sentimento em todos os seus quesitos e é espetacular na forma como quer passar sua mensagem. Muitos diretores que não fossem hábeis ao contar uma história, focariam na descoberta da homossexualidade como fator crucial da trama. Todavia, aqui vemos isso surgir como pano de fundo para uma extraordinária jornada de aceitação e descoberta do próprio amor. O ambiente gerado pela composição visual e a perfeita sincronia entre os atores faz com que o filme apresente uma leveza tremenda, o que faz ser prazeroso assistir "Me Chame Pelo Seu Nome". Em tempos de crescimento dos discursos de ódio, o filme surge como uma ode à diversidade e se apresenta como uma importante obra de representatividade. O fato de uma premiação como o Oscar prestigiar o filme é importante para dar visibilidade à discussão sobre o preconceito e, como diria Lulu Santos, a obra mostra que "Consideramos justa toda forma de amor".

Por fim, mesmo que o roteiro sensível e a direção bem realizada segurem bem a trama, o destaque principal fica com a atuação dos protagonistas. Timothée Chalamet rouba o filme ao representar um menino inteligente e culto, mas completamente inseguro de suas qualidades. Além disso, o ator consegue dar diferentes facetas ao personagem, o que facilita o apego do público à ele, tendo em vista que todos os seus anseios e dúvidas tornam-se críveis. Ao seu lado, Armie Hammer surge como um contraponto: extremamente seguro de suas decisões, seu personagem surge na vida dos Perlman trazendo vivacidade e inspirando novidade. Mesmo sendo tão diferentes, a química fornecida pelo roteiro é potencializada pela enorme devoção da dupla: repare nos olhares de desejo, nos pequenos gestos físicos que demonstram uma completa devoção. E para completar temos Michael Stuhlbarg em excelente forma, interpretando um pai compreensivo e amoroso, que, mesmo sendo reprimido pela sociedade e por ele mesmo, busca ajudar o filho na jornada de aceitação. Dessa forma, "Me Chame Pelo Seu Nome" trata da descoberta do amor e da aceitação dele, mostrando que, mesmo o sofrimento decorrente desse sentimento é precedido por uma história muito feliz. Luca Guadagnino parece compreender isso nesse filme repleto de paixão, suavidade e desejo.

Nota: 

- João Hippert

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Crítica de "Pantera Negra"

O cinema, assim como as demais formas de expressão artística, é um retrato da sociedade. Todo filme está inserido em algum contexto sociopolítico que explica muito sobre a sua realização. Infelizmente, o cinema que trata da representatividade negra nunca foi muito divulgado em Hollywood. Basta lembrarmos de uma das últimas apresentações do Oscar, em que nenhum negro foi indicado a categorias de atuação, roteiro e direção. Contudo, o apelo da campanha "Oscar So White" parece, finalmente, começar a fazer efeito, dando maior visibilidade para o surgimento de excelentes cineastas negros que, além de proverem obras com conteúdos fantásticos, também apresentam um forte caráter identitário. Basta lembrarmos do icônico "Moonlight" - vencedor do Oscar de melhor filme do ano passado - e "Corra!": filme elogiadíssimo pela crítica e indicado nas principais categorias desse ano da Academia. Seguindo esse contexto, o grande e poderoso Marvel Studios lança um filme de verdadeiras raízes africanas: "Pantera Negra". Em um momento de busca por representatividade e repressão política ao redor do mundo, o simples fato da Marvel conceber um projeto desses é fabuloso. Porém, "Pantera Negra" não se resume a isso; muito pelo contrário. Sob a direção do ótimo Ryan Coogler (responsável por "Fruitvale Station" e "Creed") e contando com um elenco estrelado, o filme é uma sequência imediata dos acontecimentos de "Capitão América: Guerra Civil" e acompanha o príncipe T'Challa (Chadwick Boseman) em seu retorno ao seu país, Wakanda. Durante a sua coroação, todavia, um rival chamado Erik Killmonger (Michael B. Jordan) surge para reivindicar o trono.

Um dos principais problemas da Marvel em relação a roteiro é a sua fórmula batida que, apesar de eficiente, desgasta o espectador com o passar dos filmes (afinal são 3 filmes por ano do estúdio). O roteiro de Joe Robert Cole e Ryan Coogler, apesar de não se desprender totalmente da fórmula de filmes solos de heróis, consegue fornecer alguns avanços extremamente interessantes, narrativamente falando. Além do próprio T'Challa/ Pantera Negra possuir um arco dramático bem resolvido, emocionante e engrandecedor, os personagens secundários também têm a sua relevância. O próprio vilão do filme foge um pouco de estereótipos maniqueístas. Apesar do roteiro nunca mostrar suas motivações como corretas, elas são compreensíveis, principalmente, devido ao background do personagem. Aliás, quando as revelações sobre a sua vida são feitas o roteiro leva o filme para outro patamar por, justamente, mostrar que todo ser humano é falho, até mesmo o seu maior ídolo. E, quando T'Challa vira rei de Wakanda, ele aprende que não pode responder pelos erros passados, mas sim projetar um futuro melhor. Essa grandiosidade narrativa apresenta um profundo caráter político, já que, com base na diversidade e na aceitação da comunhão entre os povos, o progresso seria atingido. Aliás, o fato de todo esse enredo estar baseado em um país africano de alta tecnologia inverte totalmente a lógica da relação metrópole-colônia, colocando os negros em uma áurea de superioridade notável naquele universo, mas sem nunca demonizar todos os brancos. Nesse quesito, o personagem de Martin Freeman surge como um exemplo útil do bom relacionamento entre as diversas etnias. E, mesmo com tamanho peso, o filme não desvia muito do padrão ao incluir diversos alívios cômicos e gags que dão leveza à narrativa. Embora nem sempre em momentos oportunos, os momentos de descontração são importantes para a fluidez rítmica da metragem.

A direção de Ryan Coogler, cinematograficamente falando, talvez seja o ponto forte do filme. O diretor tem total controle sobre a sua câmera, principalmente nas cenas de ação, fazendo com que todos os movimentos sejam bem entendidos pelo público. Além disso, as cenas de luta são muitíssimo bem coreografadas, dando ao filme uma grandeza épica deveras interessante. A fotografia também merece destaque: existem quadros do longa que são simplesmente fantásticos e os enquadramentos usados por Coogler reforçam o poder das cores e todo o simbolismo visual de cada passagem. Como uma das grandes virtudes do filme é a representatividade, os figurinos e a maquiagem que remetem às diferentes tribos africanas simbolizadas pelas tribos que compõem Wakanda são bem acabados, com uma explosão de cores e artefatos que geram estranheza inicial no espectador ocidental, porém, com o passar do tempo, tais traços tornam-se corriqueiros na tela. Nesse quesito, a obra acerta muito em expandir o Universo Marvel nos próprios costumes de Wakanda, sendo os diferentes rituais, a língua e a religião partes importantes, inclusive, da trama. Todo esse cuidado narrativo e estético possui respaldo na excentricidade do próprio filme, haja vista que o longa concentra-se na sua própria história, sem se preocupar com a inserção de outros heróis da Marvel. Felizmente, o Homem de Ferro não aparecer para salvar o dia. Tratando-se de elenco, o longa apresenta atores em grande forma. Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, Leticia Wright, Michael B. Jordan, Chadwick Boseman... Todos estão muito bem, com destaque à relação herói-vilão entre Boseman e Jordan. Este, em sua terceira participação em filmes do diretor, apresenta carisma suficiente para prover um nêmesis à altura do herói, também muito bem desenvolvido devido à forte presença de Boseman.

Outro ponto interessantíssimo do roteiro é a sua semelhança com "O Rei Leão" que, por sua vez, é uma releitura de "Hamlet". Isso não significa falta de originalidade, mas a diferente roupagem que essa história apresenta aqui vale o ingresso. Um "O Rei Leão" situado em um país mítico do Universo Marvel foi capaz de dar certo devido ao cuidado das diferentes partes responsáveis pelo filme. Vale ressaltar a trilha sonora genial de Kendrick Lamar, capaz de se encaixar perfeitamente com os diversos momentos da sessão (o álbum "Black Panther", disponível também nas plataformas digitais, é excelente). É tanto esmero na produção de "Pantera Negra" que o filme assume tons grandiosos demais. Mesmo não sendo um filme perfeito cinematograficamente, devido a algumas convenções de roteiro aqui e outros furos ali, o longa se assemelha com "Mulher Maravilha", por representar uma parcela da população historicamente excluída e discriminada. Mais do que como filme, "Pantera Negra" precisa ser visto como uma obra político-social de representação. Surgindo como um "Rei Leão" da Marvel, o longa apresenta cenas de ação empolgantes, arcos bem desenvolvidos e uma estonteante cinematografia, fatores que fazem a obra fugir das convenções do gênero e se assumir como um importante filme.

Nota: 

- João Hippert

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Crítica de "A Forma da Água"

Guillermo del Toro é um dos diretores mais queridos pelo público nerd ao redor do mundo. Isso porque o diretor foi responsável por levar o anti-herói Hellboy para as telonas, além de dirigir o segundo filme do caçador de vampiros Blade. Além disso, del Toro também tem o carinho do público ligado a um cinema mais artístico devido às suas excelentes obras "A Espinha do Diabo" e "O Labirinto do Fauno", em que o diretor trata da relação entre humanos e seres fantásticos, onde o tom fabuloso e as alegorias criadas são cruciais para o bom desempenho da história. Pode-se dizer que "A Forma da Água" surge para finalizar essa trilogia não-oficial que conta, inegavelmente, com os melhores trabalhos do diretor. Aliás, "A Forma da Água" configura-se como um filme importantíssimo na carreira de Guillermo por ser um dos mais aclamados pela crítica, recebendo, inclusive, 13 indicações ao Oscar, sendo ele o principal aspirante a vencer na categoria de melhor direção. Possivelmente Guillermo Del Toro se juntará a seus conterrâneos Alfonso Cuáron ("Gravidade") e Alejandro G. Iñárritu ("Birdman", "O Regresso") no posto de premiado pela Academia. "A Forma da Água" situa-se nos anos 1960, no auge da Guerra Fria, e acompanha Elisa (Sally Hawkins), uma mulher muda, responsável pela limpeza de uma unidade secreta do governo estadunidense. Eis que chega uma forma fantástica ao local e a história de romance entre Elisa e o "monstro" começa.

O grande problema de filmes como "A Forma da Água" é a expectativa que os bons comentários trazem. Já que vivemos num tempo carente de produções cinematográficas inovadoras, a ideia de del Toro fazendo um filme artístico e profundo é tentadora demais para ser ignorada. Cria-se, portanto, o monstro da expectativa que, muitas vezes, é responsável por resultados insatisfatórios. E foi exatamente isso que aconteceu. Não que o filme seja ruim; pelo contrário, porém existem incongruências demais para ele estar no mesmo patamar de "Blade Runner 2049" e "Mãe", dois dos filmes mais esnobados do último ano. O principal ponto negativo de "A Forma da Água" reside no roteiro de del Toro e Vanessa Taylor. Por se tratar de um romance entre seres visualmente incompatíveis, é impossível o filme não se basear na estrutura de "A Bela e a Fera". Mas se a animação e o próprio remake acertam em deixar o amor entre a Bela e a Fera crível, aqui isso não existe. O primeiro ato do longa é extremamente apressado, fazendo com que a empatia entre Elisa e a criatura seja deveras forçada. Além disso, o filme não toma tempo suficiente para dar pausas narrativas que engrandeçam o desenvolvimento dos personagens secundários. Tirando Elisa e seu vizinho Giles (Richard Jenkins), todos os personagens são unidimensionais e caricatos. O vilão segue o arquétipo do homem mau, em todos os sentidos, e o fato dele não apresentar nenhuma sensibilidade, nem mesmo em casa, cria sobre ele um estigma artificial que o levará ao esquecimento. A personagem de Octavia Spencer parece existir apenas para ser o alívio cômico da obra, sem apresentar alguma profundidade que dê importância à ela. Além dessa pobreza narrativa em relação aos personagens, o filme peca por querer ser maior do que é. Por ser situado em um ambiente de Guerra Fria, o longa parece se ver obrigado a incluir uma subtrama de espionagem. Esta, entretanto, é desinteressante, clichê e totalmente dispensável para o desenrolar da história, acrescentando minutos tediosos e desnecessários para o longa.

Mesmo com tantos problemas narrativos, "A Forma da Água" se sustenta devido ao completo amadurecimento de seu diretor Guillermo del Toro. A câmera do mexicano é inquieta; nunca somos apresentados a planos estáticos e toda essa movimentação ajuda no tom de fábula. Além disso, a fotografia é belíssima, contando com verdadeiros quadros em movimento durante algumas sequências. Toda essa beleza estética dá ao filme um tom "vintage" exacerbadamente charmoso, ajudando na imersão do espectador na história. Aliada a isso, está a trilha sonora tocante e envolvente, capaz de suscitar diversas emoções no espectador. Dessa forma, os aspectos técnicos de "A Forma da Água" precisam ser exaltados por tornarem o filme uma verdadeira poesia visual. Alguns movimentos de câmera e enquadramentos, inclusive, lembram muito o tom sonhador de "La La Land". Se não fosse a artificialidade do roteiro, "A Forma da Água" poderia se configurar, facilmente, como um verdadeiro conto de fadas moderno, com um diretor extremamente confiante acerca das próprias decisões. A montagem do filme também merece destaque por prover momentos de descontração decorrentes da colagem das cenas. Por exemplo, em uma cena vemos a protagonista guardando algo em um saco. Na cena seguinte, vemos ela abrindo outro saco com uma coisa diferente. Essa habilidade de edição dá ao filme um tom leve que auxilia no ritmo da metragem.

E, se o roteiro não ajuda muito os personagens secundários, pelo menos Elisa tem um arco bem definido. Sally Hawkins está perfeita no papel, demonstrando uma doçura inocente que nos faz torcer para a personagem, independente de qualquer coisa. Mesmo assim, a falta de veracidade que o romance principal inspira prejudica no peso de suas ações, pois em nenhum momento o espectador é apresentado a um sentimento de perda ou angústia que seja contundente. Outro destaque do elenco é Richard Jenkins, interpretando o artista renegado por conta de sua opção sexual e que demonstra-se solitário, fazendo do humor uma válvula de escape para seu sofrimento. Além dos dois, Michael Shannon, Michael Stuhlbarg e Octavia Spencer apresentam atuações operacionais, muito dificultadas pela falta de aprofundamento de seus personagens. Cada um é capaz de desenvolver apenas um lado da personalidade, o que tira do filme a sua credibilidade narrativa. Por fim, mas não menos importante, está Doug Jones interpretando a criatura aquática com uma habilidade tremenda, utilizando da ótima maquiagem e figurino para criar um ser emocionalmente profundo e fisicamente assustador. Embora apresente roteiro enfadonho, personagens secundários rasos e um romance artificial demais, "A Forma da Água" se mostra um deleite técnico e visual, contando com uma fotografia e com uma trilha sonora que inspiram a verdadeira magia do cinema.

Nota: 

- João Hippert

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Crítica de "Lady Bird: A Hora de Voar"

Normalmente, quando se fala "filme adolescente" pensa-se imediatamente em filmes medíocres, sem profundidade, meramente desenhados para um público amplo, com o intuito de gerar capital. E, infelizmente, com o passar dos últimos anos, esta se tornou uma fórmula de sucesso. Tal fato acarreta um preconceito com o subgênero, mas algumas obras se sobressaem e mostram que o cinema que trata de adolescentes pode ser muito adulto. Se nos anos 1980 o mestre em contar tais histórias era John Hughes, com os clássicos "Gatinhas e Gatões", "Clube dos Cinco" e "Curtindo a Vida Adoidado", que sempre pendiam para um lado mais cômico, atualmente Richard Linklater mostrou-se hábil ao contar o cotidiano do jovem estadunidense em "Boyhood" e "Jovens, Loucos e Mais Rebeldes". Mesmo assim, tais filmes focavam muito na relação entre os adolescentes meninos, muito porque baseavam-se nas experiências próprias dos respectivos diretores. Faltava um filme forte que falasse também das angústias, medos e (por que não?) futilidades da jovem contemporânea. "Lady Bird: É Hora de Voar", uma espécie de autobiografia da diretora Greta Gerwig, surge imediatamente após o excelente filme "Quase 18". Mas, se em "Quase 18" a jornada de Nadine tem seu fechamento no último ano de colégio, aqui a proposta vai além. "Lady Bird" acompanha a menina rebelde, desgostosa com a vida na cidade de Sacramento e eternamente em conflito com a sua mãe Marion (Laurie Metcalf), que aspira a fazer faculdade em algum lugar diferente, simplesmente pelo desejo de ser independente ao considerar a mudança de cidade um pré-requisito para alcançar esse objetivo.

Desde o início da metragem, o roteiro de Greta dá indícios de que vai pensar um pouco fora da caixinha, mesmo que conte com uma história deveras comum. O fato da protagonista não atender por seu nome de batismo, mas sim pelo nome inventado por ela mesma (Lady Bird) revela muito sobre o ponto de partida da personagem. Parece que todas as ações tomadas pela protagonista são reações a um ambiente considerado hostil por ela mesma. É aquela velha sina do jovem que considera as responsabilidades de casa grandes demais para ele e culpa seus pais pela própria frustração. Nesse sentido, o roteiro configura-se como um verdadeiro ensaio sobre o amadurecimento, pois trata da passagem de uma juventude rebelde para um início de vida adulta onde o arrependimento começa a bater. E não o arrependimento de não ter feito algo da maneira correta, mas sim por achar que o excesso de culpa e brigas gerados por uma imaturidade juvenil possam ter causado reais problemas. Essa grandeza da narrativa faz com que o espectador, cada um a seu modo, se identifique com a jornada de Lady Bird por, justamente, compreender que a única forma capaz de se valorizar aquilo que é aprendido em casa seja praticando na rua.

E se essa jornada é tão magnífica e reflexiva é porque a química entre Lady Bird e sua mãe merece aplausos. Embora em constante atrito, fica claro, desde o início da película, o amor que uma sente pela outra. E a cada briga que presenciamos, cada xingamento, uma ferida se abre no nosso coração por nos colocarmos no lugar das personagens. Afinal, quem nunca disse alguma palavra que feriu algum ente querido simplesmente pelo calor da emoção? Mesmo tratando-se de um filme com uma temática aparentemente leve, "Lady Bird" parece compreender a bipolaridade dos sentimentos de um jovem, o que é refletido na variação de humor durante o filme. Embora algumas partes sejam dramáticas, ao tratar da depressão ou do aceitamento da homossexualidade, por exemplo, existe a comicidade na relação entre as amigas e nos diálogos ácidos com uma espécie de humor negro. Além disso, Greta provê um texto extremamente substancial, com questionamentos deveras profundo. Por exemplo, existe um momento em que Lady Bird, no meio de uma discussão com a mãe, pergunta: "Mãe, você gosta de mim?". A princípio, parece uma pergunta boba e até mesmo infantil. A mãe responde: "Não vou discutir o meu amor por você". E é então que o brilhantismo do roteiro aparece na tréplica: "Eu sei que você me ama. Mas você gosta de mim?". Essa pergunta é extremamente reflexiva por tocar no âmago das relações interpessoais, principalmente das familiares. É lógico que pessoas da mesma família se amam, é algo natural, instintivo. Mas gostar é diferente. Gostar requer atenção, paciência e afinidade. Através de um pequeno diálogo, o roteiro consegue acrescentar camadas à discussão adolescente, sem nunca se distanciar da jornada de autoconhecimento da protagonista.

Por sinal, Saoirse Ronan doma o filme com uma atuação primorosa. Desde a maquiagem que a rejuvenesce, passando pelo cabelo pintado, Saoirse parece literalmente voltar no tempo para viver de novo os seus 17/18 anos (ela tem 23). A priori, a personagem parece caricata demais: o público parece ser apresentado a apenas uma jovem inconformada, cujas razões de ser parecem meramente fúteis. Entretanto, com o desenrolar do enredo, Lady Bird vai se mostrando uma personagem multifacetada, dotada de angústias e sonhos, o que facilita o apego do público à ela. Essa transformação é mostrada de forma tão natural pela diretora que parece que estamos descobrindo as qualidades e defeitos da personagem junto com ela. E, se primordialmente julgamos Lady Bird como uma personagem mesquinha, o roteiro habilmente desconstrói isso, demonstrando, com isso, o poder do julgamento antecipado e como isso pode nos impedir de conhecer melhor pessoas maravilhosas. Ademais, Saoirse conta com a ajuda da excelente Laurie Metcalf, cuja atuação representa uma mãe amorosa, que busca o melhor para a sua filha, mas parece simplesmente não se entender com ela. Mesmo que "Lady Bird" foque no amadurecimento de sua protagonista, é inegável a evolução da mãe como personagem, o que eleva, mais uma vez, o padrão narrativo da obra. Todo esse toque cotidiano é facilitado pela direção totalmente segura de Greta Gerwig, que dá ao filme um caráter episódico, visto que é impossível não se identificar com, pelo menos, algum ponto da história. "Lady Bird" trata de uma belíssima jornada de autoconhecimento e maturidade, caracterizando-se como uma crônica sobre a passagem do tempo e sobre a validade das instituições sociais, principalmente a familiar, através de um roteiro belíssimo e de uma direção completamente fluida de Greta Gerwig.

Nota: 

- João Hippert

Crítica de "Três Anúncios Para um Crime"

O cinema western, conhecido no Brasil como faroeste, é um dos marcos de Hollywood. Os filmes que retratavam John Wayne no papel de mocinho ou Clint Eastwood como um anti-herói marcaram época e serviram também para engrandecer a identidade nacional estadunidense, visto que a figura do cowboy é um símbolo daquela nação. Esse gênero cinematográfico, entretanto, caiu em desuso ultimamente, tanto pela saturação de histórias e personagens situados no Velho Oeste, quanto pela aspiração do público a novos gêneros. Nesse ínterim, surpreendentemente, um novo tipo de western surgiu: o western moderno. Agora não existem mais mocinhos e bandidos, tampouco duelos de pistola no meio da cidade, mas sim retratos cotidianos de uma vida dura e pacata do interior estadunidense. Um filme que pode simbolizar perfeitamente essa nova tendência é "Onde os Fracos não Têm Vez": um impactante estudo de personagens que traz o crime como um motor ao seu roteiro. Desse modo, os irmãos Coen (diretores do filme) inauguraram uma forma de fazer cinema deveras autoral, dotada de bastante originalidade e vitalidade narrativa. É nesse contexto que "Três Anúncios para um Crime" ("Three Billboards Outside Ebbing, Missouri") se insere. O filme acompanha Mildred (Frances McDormand), cuja filha foi estrupada e assassinada e que traz à tona ineficácia da polícia local através de três outdoors colocados na saída da cidade. É aí que começa um embate entre Mildred e o chefe Willoughby (Woody Harrelson), em um drama interiorano que poderia, facilmente, ter a assinatura dos irmãos Coen.

O roteiro, assinado por Martin McDonagh, é um dos pontos fortes da obra. Seria muito fácil - e até mesmo petulante - colocar Mildred em um pedestal, dando toda a razão à ela, enquanto a polícia fosse execrada e criticada ao extremo. Todavia, em vez disso, McDonagh é hábil ao fugir de maniqueísmos e promover um verdadeiro estudo psicológico dos personagens. Se por um lado percebemos o desespero de uma mãe em busca de justiça, por outro somos apresentados a ações dessa mesma mãe que transcendem a moralidade. E se a polícia claramente não foi capaz de desempenhar seu papel, também acompanhamos o sofrimento do xerife em solucionar o caso. Desse modo, os personagens de "Três Anúncios Para um Crime" vão se tornando esféricos à medida que não aparece um lado correto. Além disso, um grande acerto do script é o trato das coincidências da vida como algo cômico. O roteirista tem a habilidade de inserir certas gags, com respaldo narrativo, capazes de aliviar o ritmo do filme, assim como proporcionar genuínas risadas. Ademais, um dos grandes pontos abordados pelo longa refere-se às noções de moral e justiça. Até onde uma mãe pode ir para achar o assassino de sua filha? Até que ponto uma polícia com histórico racista pode ser confiável para o cumprimento da lei? Tais questões são sutilmente abordadas ao longo da metragem, fato que potencializa o caráter crítico/satírico da obra.

A direção (também de Martin McDonagh) é extremamente bem executada. O diretor alterna entre planos sequências e planos longos que dão ao ambiente um senso de pacatez extraordinária, pois, embora a cidade pareça ter a tranquilidade do interior, os acontecimentos retratados pelo filme aumentam a tensão envolvida. Assim, o trabalho do diretor de fotografia também deve ser exaltado por conseguir prover uma limpeza visual ímpar, assim como rimas visuais que engrandecem o valor artístico. A trilha sonora também merece destaque, principalmente pelas músicas cantadas apresentadas durante o longa que possuem um encaixe perfeito com o arco da história. Aliás, o grande trunfo do filme reside na construção do arco de seus personagens. Mildred, a princípio durona, vai mostrando suas emoções ao longo do filme e o público começa a se apegar à ela, principalmente ao seu sofrimento. Ao mesmo tempo, o policial Dixon (Sam Rockwell), sob uma primeira perspectiva odioso, apresenta um salto narrativo muito grande, sendo um exemplo da liberdade em detrimento do determinismo, porque, embora criado em um ambiente segregacionista, o policial parece compreender ao longo da história o que um verdadeiro xerife deve fazer, sob o ponto de vista moral. Assim, a participação do chefe Willoughby como uma espécie de referência paterna é de um acerto tremendo.

Todo esse brilhantismo de personagens é bastante facilitado pelo excelente elenco. Frances McDormand apresenta uma atuação crua, cheia de trejeitos, mas que suscita pena e afeição. Mesmo que seja uma personagem típica da atriz, McDormand consegue fugir da caricatura e prover um trabalho crível e competente. Ao mesmo tempo, Woody Harrelson demonstra-se seguro de si e de seus personagem. Apesar de possuir o arco mais simples, seu personagem é um importante motor para as histórias de Mildred e Dixon, sendo responsável por ser um trampolim narrativo muito eficaz. Por fim, Sam Rockwell é a grata surpresa do longa por, principalmente, saber aliar o tom cômico com o dramático através de uma linha tênue, o que dá ao seu personagem um viés multifacetado. Desse modo, o filme consegue construir um senso de absurdo cotidiano que potencializa as curvas dramáticas da trama. Contudo, em alguns momentos, esses pequenos clímax de tensão são seguidos por momentos de monotonia extrema ou, até mesmo, de divagações do enredo que prejudicam o ritmo do filme e o resultado do final da película. Mesmo assim, "Três Anúncios Para um Crime" é um forte estudo de personagens, cujo roteiro analisa os limites entre a moralidade e a justiça, utilizando da imensa qualidade de seu trio protagonista para prover um ótimo filme.

Nota: 

- João Hippert

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Crítica de "The Post: A Guerra Secreta"

Uma obra cinematográfica é composta por vários aspectos técnicos e artísticos que, quando colocados da maneira que o idealizador previu, tornam a experiência de ir ao cinema muito marcante. O impacto de uma trilha sonora, o deleite de uma fotografia bem realizada, a agilidade na edição e montagem - tudo isso é essencial para o bom funcionamento de um filme, independentemente do gênero a qual pertença. Entretanto, algumas categorias recebem mais destaque, justamente, por possuírem mais prestígio quanto ao público devido ao enorme apego que rostos conhecidos acarretam. Claramente estou falando da categoria de atuação principal, além do diretor, é claro. "The Post" surpreende já na sua chamada por reunir, provavelmente, o tripé mais talentoso da Era Contemporânea do cinema estadunidense: Steven Spielberg na direção, Meryl Streep como atriz principal e Tom Hanks como ator principal. Aliado ao trio, está o disputado roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, que conta a história de bastidores do jornal Washington Post em meio a um escândalo político referente ao presidente Nixon e a Guerra do Vietnã. Uma trama de tamanha preponderância histórica e um elenco tão estrelado claramente chamariam a atenção da Academia - e não foi surpresa alguma o filme ter tido 2 indicações ao Oscar. Primeiramente, é evidente a semelhança de "The Post" com "Spotlight" e, por isso, as comparações são quase inevitáveis. Mas se naquele filme faltava um pulso mais firme de diretor, aqui não falta.

Steven Spielberg, mesmo com os vários filmes que não fizeram tanto sucesso de público e crítica (só de lembrar de "O Bom Gigante Amigo" já me dá calafrios), é um dos maiores diretores da história do cinema mundial. Responsável por clássicos como "E.T.", "O Resgate do Soldado Ryan", "Tubarão", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", "Jurassic Park", dentre inúmeros outros, o diretor parece se reinventar quando busca contar histórias novas que apresentem respaldo histórico. O último bom trabalho do diretor havia sido "Ponte dos Espiões" que corrobora essa ideia. Aqui, a direção de Spielberg segue seu padrão: câmera fluida, sem muitos exageros e com bastante foco nos atores. Sua maneira limpa de conduzir os movimentos de câmera permite ao espectador se deliciar com o excelente design de produção do filme e sua ambientação, o que potencializa a veracidade dos fatos. Mesmo assim, o diretor não abre mão de suas rimas visuais que tanto agradam aos fãs. Um exemplo de construção narrativa está presente na própria personagem Kay Graham (Meryl Streep) - a dona do jornal que, em meio a um ambiente extremamente misógino, parece não ter voz, tampouco poder de decisão. Repare como em uma cena de diálogo, no início do longa, a personagem parece estar sendo esmagada pelos homens da sala e a imponência de tal sociedade machista parece silenciá-la. Por outro lado, em outra cena, Kay desce uma escada depois de um acontecimento importante e é admirada pelas mulheres presentes. Esse salto narrativo contribui tanto para o engrandecimento do arco da personagem, tanto para a habilidade de Spielberg em criar momentos memoráveis, elevando a qualidade artística da obra.

Tratando-se de roteiro, o maior problema do filme reside no esforço em deixar o espectador preso à história. Como o longa é baseado em uma história real, os acontecimentos já são premeditados e isso, até certo ponto, chega a prejudicar o filme. O segundo ato tem um ritmo defasado e faz com que a obra pareça ter uma duração maior do que a que realmente tem. Mesmo que não seja um problema em termos estruturais, a oscilação de ritmo dificulta a linearidade da alternância dos momentos de tensão. Mesmo assim, esse roteiro na mão de um diretor qualquer teria muita chance de fracasso. Contudo, Spielberg, sendo extremamente confiante do que pode fazer, consegue promover uma experiência edificante, muito por conta da excelência de seu elenco. Meryl Streep está mais uma vez fabulosa, interpretando uma mulher cheia de camadas que, com o passar da projeção, entende o seu papel na trama e busca fazer algo a respeito. Contracenando com ela, Tom Hanks faz, mais uma vez, o tipo de profissional ideal; aquele que nunca desiste de seus ideais profissionais, mesmo que isso valha a sua própria liberdade. Tratando-se de um personagem desenvolvido para ter um senso de honra elevado, a escolha por Tom Hanks foi acertadíssima, tendo em vista a confiança que o ator inspira. O elenco coadjuvante também tem relevância, com destaque para Bob Odenkirk. Outro ponto forte da metragem é a trilha sonora atuante, que, quando combinada com uma montagem bem feita, é capaz de realizar os "movie moments" tão presentes na filmografia de Spielberg. E o fato de ser John Williams comandando essa orquestra novamente parece algo redundante a ser dito.

Sendo assim, mesmo com seus acertos técnicos e de atuação, o longa ganha força é com a sua mensagem. Até que ponto o governo deve intervir na liberdade de imprensa? Ao tratar dessa pergunta, o diretor faz uma verdadeira homenagem ao jornalismo sério e honesto, demonstrando a importância de uma imprensa destemida e comprometida com a verdade - sem pensar em privilégios pessoais decorrentes de alianças com políticos. Assim, a publicação dos documentos referentes à participação dos EUA na Guerra do Vietnã foi crucial para alertar a população sobre os enganos que o governo cometia, fato que deu maior legitimidade à democracia estadunidense. O compromisso daqueles que arriscaram seus empregos e suas liberdades em prol de um ideal é posto em evidência pelo filme. Como diria Graham, "As notícias de um jornal são o primeiro rascunho da História". Steven Spielberg parece compreender isso nessa que é uma grande ode ao jornalismo, repleta de boas atuações e que conta com um diretor totalmente convicto de suas decisões.

Nota: 

- João Hippert