quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Crítica de "Pantera Negra"

O cinema, assim como as demais formas de expressão artística, é um retrato da sociedade. Todo filme está inserido em algum contexto sociopolítico que explica muito sobre a sua realização. Infelizmente, o cinema que trata da representatividade negra nunca foi muito divulgado em Hollywood. Basta lembrarmos de uma das últimas apresentações do Oscar, em que nenhum negro foi indicado a categorias de atuação, roteiro e direção. Contudo, o apelo da campanha "Oscar So White" parece, finalmente, começar a fazer efeito, dando maior visibilidade para o surgimento de excelentes cineastas negros que, além de proverem obras com conteúdos fantásticos, também apresentam um forte caráter identitário. Basta lembrarmos do icônico "Moonlight" - vencedor do Oscar de melhor filme do ano passado - e "Corra!": filme elogiadíssimo pela crítica e indicado nas principais categorias desse ano da Academia. Seguindo esse contexto, o grande e poderoso Marvel Studios lança um filme de verdadeiras raízes africanas: "Pantera Negra". Em um momento de busca por representatividade e repressão política ao redor do mundo, o simples fato da Marvel conceber um projeto desses é fabuloso. Porém, "Pantera Negra" não se resume a isso; muito pelo contrário. Sob a direção do ótimo Ryan Coogler (responsável por "Fruitvale Station" e "Creed") e contando com um elenco estrelado, o filme é uma sequência imediata dos acontecimentos de "Capitão América: Guerra Civil" e acompanha o príncipe T'Challa (Chadwick Boseman) em seu retorno ao seu país, Wakanda. Durante a sua coroação, todavia, um rival chamado Erik Killmonger (Michael B. Jordan) surge para reivindicar o trono.

Um dos principais problemas da Marvel em relação a roteiro é a sua fórmula batida que, apesar de eficiente, desgasta o espectador com o passar dos filmes (afinal são 3 filmes por ano do estúdio). O roteiro de Joe Robert Cole e Ryan Coogler, apesar de não se desprender totalmente da fórmula de filmes solos de heróis, consegue fornecer alguns avanços extremamente interessantes, narrativamente falando. Além do próprio T'Challa/ Pantera Negra possuir um arco dramático bem resolvido, emocionante e engrandecedor, os personagens secundários também têm a sua relevância. O próprio vilão do filme foge um pouco de estereótipos maniqueístas. Apesar do roteiro nunca mostrar suas motivações como corretas, elas são compreensíveis, principalmente, devido ao background do personagem. Aliás, quando as revelações sobre a sua vida são feitas o roteiro leva o filme para outro patamar por, justamente, mostrar que todo ser humano é falho, até mesmo o seu maior ídolo. E, quando T'Challa vira rei de Wakanda, ele aprende que não pode responder pelos erros passados, mas sim projetar um futuro melhor. Essa grandiosidade narrativa apresenta um profundo caráter político, já que, com base na diversidade e na aceitação da comunhão entre os povos, o progresso seria atingido. Aliás, o fato de todo esse enredo estar baseado em um país africano de alta tecnologia inverte totalmente a lógica da relação metrópole-colônia, colocando os negros em uma áurea de superioridade notável naquele universo, mas sem nunca demonizar todos os brancos. Nesse quesito, o personagem de Martin Freeman surge como um exemplo útil do bom relacionamento entre as diversas etnias. E, mesmo com tamanho peso, o filme não desvia muito do padrão ao incluir diversos alívios cômicos e gags que dão leveza à narrativa. Embora nem sempre em momentos oportunos, os momentos de descontração são importantes para a fluidez rítmica da metragem.

A direção de Ryan Coogler, cinematograficamente falando, talvez seja o ponto forte do filme. O diretor tem total controle sobre a sua câmera, principalmente nas cenas de ação, fazendo com que todos os movimentos sejam bem entendidos pelo público. Além disso, as cenas de luta são muitíssimo bem coreografadas, dando ao filme uma grandeza épica deveras interessante. A fotografia também merece destaque: existem quadros do longa que são simplesmente fantásticos e os enquadramentos usados por Coogler reforçam o poder das cores e todo o simbolismo visual de cada passagem. Como uma das grandes virtudes do filme é a representatividade, os figurinos e a maquiagem que remetem às diferentes tribos africanas simbolizadas pelas tribos que compõem Wakanda são bem acabados, com uma explosão de cores e artefatos que geram estranheza inicial no espectador ocidental, porém, com o passar do tempo, tais traços tornam-se corriqueiros na tela. Nesse quesito, a obra acerta muito em expandir o Universo Marvel nos próprios costumes de Wakanda, sendo os diferentes rituais, a língua e a religião partes importantes, inclusive, da trama. Todo esse cuidado narrativo e estético possui respaldo na excentricidade do próprio filme, haja vista que o longa concentra-se na sua própria história, sem se preocupar com a inserção de outros heróis da Marvel. Felizmente, o Homem de Ferro não aparecer para salvar o dia. Tratando-se de elenco, o longa apresenta atores em grande forma. Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, Leticia Wright, Michael B. Jordan, Chadwick Boseman... Todos estão muito bem, com destaque à relação herói-vilão entre Boseman e Jordan. Este, em sua terceira participação em filmes do diretor, apresenta carisma suficiente para prover um nêmesis à altura do herói, também muito bem desenvolvido devido à forte presença de Boseman.

Outro ponto interessantíssimo do roteiro é a sua semelhança com "O Rei Leão" que, por sua vez, é uma releitura de "Hamlet". Isso não significa falta de originalidade, mas a diferente roupagem que essa história apresenta aqui vale o ingresso. Um "O Rei Leão" situado em um país mítico do Universo Marvel foi capaz de dar certo devido ao cuidado das diferentes partes responsáveis pelo filme. Vale ressaltar a trilha sonora genial de Kendrick Lamar, capaz de se encaixar perfeitamente com os diversos momentos da sessão (o álbum "Black Panther", disponível também nas plataformas digitais, é excelente). É tanto esmero na produção de "Pantera Negra" que o filme assume tons grandiosos demais. Mesmo não sendo um filme perfeito cinematograficamente, devido a algumas convenções de roteiro aqui e outros furos ali, o longa se assemelha com "Mulher Maravilha", por representar uma parcela da população historicamente excluída e discriminada. Mais do que como filme, "Pantera Negra" precisa ser visto como uma obra político-social de representação. Surgindo como um "Rei Leão" da Marvel, o longa apresenta cenas de ação empolgantes, arcos bem desenvolvidos e uma estonteante cinematografia, fatores que fazem a obra fugir das convenções do gênero e se assumir como um importante filme.

Nota: 

- João Hippert

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Crítica de "A Forma da Água"

Guillermo del Toro é um dos diretores mais queridos pelo público nerd ao redor do mundo. Isso porque o diretor foi responsável por levar o anti-herói Hellboy para as telonas, além de dirigir o segundo filme do caçador de vampiros Blade. Além disso, del Toro também tem o carinho do público ligado a um cinema mais artístico devido às suas excelentes obras "A Espinha do Diabo" e "O Labirinto do Fauno", em que o diretor trata da relação entre humanos e seres fantásticos, onde o tom fabuloso e as alegorias criadas são cruciais para o bom desempenho da história. Pode-se dizer que "A Forma da Água" surge para finalizar essa trilogia não-oficial que conta, inegavelmente, com os melhores trabalhos do diretor. Aliás, "A Forma da Água" configura-se como um filme importantíssimo na carreira de Guillermo por ser um dos mais aclamados pela crítica, recebendo, inclusive, 13 indicações ao Oscar, sendo ele o principal aspirante a vencer na categoria de melhor direção. Possivelmente Guillermo Del Toro se juntará a seus conterrâneos Alfonso Cuáron ("Gravidade") e Alejandro G. Iñárritu ("Birdman", "O Regresso") no posto de premiado pela Academia. "A Forma da Água" situa-se nos anos 1960, no auge da Guerra Fria, e acompanha Elisa (Sally Hawkins), uma mulher muda, responsável pela limpeza de uma unidade secreta do governo estadunidense. Eis que chega uma forma fantástica ao local e a história de romance entre Elisa e o "monstro" começa.

O grande problema de filmes como "A Forma da Água" é a expectativa que os bons comentários trazem. Já que vivemos num tempo carente de produções cinematográficas inovadoras, a ideia de del Toro fazendo um filme artístico e profundo é tentadora demais para ser ignorada. Cria-se, portanto, o monstro da expectativa que, muitas vezes, é responsável por resultados insatisfatórios. E foi exatamente isso que aconteceu. Não que o filme seja ruim; pelo contrário, porém existem incongruências demais para ele estar no mesmo patamar de "Blade Runner 2049" e "Mãe", dois dos filmes mais esnobados do último ano. O principal ponto negativo de "A Forma da Água" reside no roteiro de del Toro e Vanessa Taylor. Por se tratar de um romance entre seres visualmente incompatíveis, é impossível o filme não se basear na estrutura de "A Bela e a Fera". Mas se a animação e o próprio remake acertam em deixar o amor entre a Bela e a Fera crível, aqui isso não existe. O primeiro ato do longa é extremamente apressado, fazendo com que a empatia entre Elisa e a criatura seja deveras forçada. Além disso, o filme não toma tempo suficiente para dar pausas narrativas que engrandeçam o desenvolvimento dos personagens secundários. Tirando Elisa e seu vizinho Giles (Richard Jenkins), todos os personagens são unidimensionais e caricatos. O vilão segue o arquétipo do homem mau, em todos os sentidos, e o fato dele não apresentar nenhuma sensibilidade, nem mesmo em casa, cria sobre ele um estigma artificial que o levará ao esquecimento. A personagem de Octavia Spencer parece existir apenas para ser o alívio cômico da obra, sem apresentar alguma profundidade que dê importância à ela. Além dessa pobreza narrativa em relação aos personagens, o filme peca por querer ser maior do que é. Por ser situado em um ambiente de Guerra Fria, o longa parece se ver obrigado a incluir uma subtrama de espionagem. Esta, entretanto, é desinteressante, clichê e totalmente dispensável para o desenrolar da história, acrescentando minutos tediosos e desnecessários para o longa.

Mesmo com tantos problemas narrativos, "A Forma da Água" se sustenta devido ao completo amadurecimento de seu diretor Guillermo del Toro. A câmera do mexicano é inquieta; nunca somos apresentados a planos estáticos e toda essa movimentação ajuda no tom de fábula. Além disso, a fotografia é belíssima, contando com verdadeiros quadros em movimento durante algumas sequências. Toda essa beleza estética dá ao filme um tom "vintage" exacerbadamente charmoso, ajudando na imersão do espectador na história. Aliada a isso, está a trilha sonora tocante e envolvente, capaz de suscitar diversas emoções no espectador. Dessa forma, os aspectos técnicos de "A Forma da Água" precisam ser exaltados por tornarem o filme uma verdadeira poesia visual. Alguns movimentos de câmera e enquadramentos, inclusive, lembram muito o tom sonhador de "La La Land". Se não fosse a artificialidade do roteiro, "A Forma da Água" poderia se configurar, facilmente, como um verdadeiro conto de fadas moderno, com um diretor extremamente confiante acerca das próprias decisões. A montagem do filme também merece destaque por prover momentos de descontração decorrentes da colagem das cenas. Por exemplo, em uma cena vemos a protagonista guardando algo em um saco. Na cena seguinte, vemos ela abrindo outro saco com uma coisa diferente. Essa habilidade de edição dá ao filme um tom leve que auxilia no ritmo da metragem.

E, se o roteiro não ajuda muito os personagens secundários, pelo menos Elisa tem um arco bem definido. Sally Hawkins está perfeita no papel, demonstrando uma doçura inocente que nos faz torcer para a personagem, independente de qualquer coisa. Mesmo assim, a falta de veracidade que o romance principal inspira prejudica no peso de suas ações, pois em nenhum momento o espectador é apresentado a um sentimento de perda ou angústia que seja contundente. Outro destaque do elenco é Richard Jenkins, interpretando o artista renegado por conta de sua opção sexual e que demonstra-se solitário, fazendo do humor uma válvula de escape para seu sofrimento. Além dos dois, Michael Shannon, Michael Stuhlbarg e Octavia Spencer apresentam atuações operacionais, muito dificultadas pela falta de aprofundamento de seus personagens. Cada um é capaz de desenvolver apenas um lado da personalidade, o que tira do filme a sua credibilidade narrativa. Por fim, mas não menos importante, está Doug Jones interpretando a criatura aquática com uma habilidade tremenda, utilizando da ótima maquiagem e figurino para criar um ser emocionalmente profundo e fisicamente assustador. Embora apresente roteiro enfadonho, personagens secundários rasos e um romance artificial demais, "A Forma da Água" se mostra um deleite técnico e visual, contando com uma fotografia e com uma trilha sonora que inspiram a verdadeira magia do cinema.

Nota: 

- João Hippert

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Crítica de "Lady Bird: A Hora de Voar"

Normalmente, quando se fala "filme adolescente" pensa-se imediatamente em filmes medíocres, sem profundidade, meramente desenhados para um público amplo, com o intuito de gerar capital. E, infelizmente, com o passar dos últimos anos, esta se tornou uma fórmula de sucesso. Tal fato acarreta um preconceito com o subgênero, mas algumas obras se sobressaem e mostram que o cinema que trata de adolescentes pode ser muito adulto. Se nos anos 1980 o mestre em contar tais histórias era John Hughes, com os clássicos "Gatinhas e Gatões", "Clube dos Cinco" e "Curtindo a Vida Adoidado", que sempre pendiam para um lado mais cômico, atualmente Richard Linklater mostrou-se hábil ao contar o cotidiano do jovem estadunidense em "Boyhood" e "Jovens, Loucos e Mais Rebeldes". Mesmo assim, tais filmes focavam muito na relação entre os adolescentes meninos, muito porque baseavam-se nas experiências próprias dos respectivos diretores. Faltava um filme forte que falasse também das angústias, medos e (por que não?) futilidades da jovem contemporânea. "Lady Bird: É Hora de Voar", uma espécie de autobiografia da diretora Greta Gerwig, surge imediatamente após o excelente filme "Quase 18". Mas, se em "Quase 18" a jornada de Nadine tem seu fechamento no último ano de colégio, aqui a proposta vai além. "Lady Bird" acompanha a menina rebelde, desgostosa com a vida na cidade de Sacramento e eternamente em conflito com a sua mãe Marion (Laurie Metcalf), que aspira a fazer faculdade em algum lugar diferente, simplesmente pelo desejo de ser independente ao considerar a mudança de cidade um pré-requisito para alcançar esse objetivo.

Desde o início da metragem, o roteiro de Greta dá indícios de que vai pensar um pouco fora da caixinha, mesmo que conte com uma história deveras comum. O fato da protagonista não atender por seu nome de batismo, mas sim pelo nome inventado por ela mesma (Lady Bird) revela muito sobre o ponto de partida da personagem. Parece que todas as ações tomadas pela protagonista são reações a um ambiente considerado hostil por ela mesma. É aquela velha sina do jovem que considera as responsabilidades de casa grandes demais para ele e culpa seus pais pela própria frustração. Nesse sentido, o roteiro configura-se como um verdadeiro ensaio sobre o amadurecimento, pois trata da passagem de uma juventude rebelde para um início de vida adulta onde o arrependimento começa a bater. E não o arrependimento de não ter feito algo da maneira correta, mas sim por achar que o excesso de culpa e brigas gerados por uma imaturidade juvenil possam ter causado reais problemas. Essa grandeza da narrativa faz com que o espectador, cada um a seu modo, se identifique com a jornada de Lady Bird por, justamente, compreender que a única forma capaz de se valorizar aquilo que é aprendido em casa seja praticando na rua.

E se essa jornada é tão magnífica e reflexiva é porque a química entre Lady Bird e sua mãe merece aplausos. Embora em constante atrito, fica claro, desde o início da película, o amor que uma sente pela outra. E a cada briga que presenciamos, cada xingamento, uma ferida se abre no nosso coração por nos colocarmos no lugar das personagens. Afinal, quem nunca disse alguma palavra que feriu algum ente querido simplesmente pelo calor da emoção? Mesmo tratando-se de um filme com uma temática aparentemente leve, "Lady Bird" parece compreender a bipolaridade dos sentimentos de um jovem, o que é refletido na variação de humor durante o filme. Embora algumas partes sejam dramáticas, ao tratar da depressão ou do aceitamento da homossexualidade, por exemplo, existe a comicidade na relação entre as amigas e nos diálogos ácidos com uma espécie de humor negro. Além disso, Greta provê um texto extremamente substancial, com questionamentos deveras profundo. Por exemplo, existe um momento em que Lady Bird, no meio de uma discussão com a mãe, pergunta: "Mãe, você gosta de mim?". A princípio, parece uma pergunta boba e até mesmo infantil. A mãe responde: "Não vou discutir o meu amor por você". E é então que o brilhantismo do roteiro aparece na tréplica: "Eu sei que você me ama. Mas você gosta de mim?". Essa pergunta é extremamente reflexiva por tocar no âmago das relações interpessoais, principalmente das familiares. É lógico que pessoas da mesma família se amam, é algo natural, instintivo. Mas gostar é diferente. Gostar requer atenção, paciência e afinidade. Através de um pequeno diálogo, o roteiro consegue acrescentar camadas à discussão adolescente, sem nunca se distanciar da jornada de autoconhecimento da protagonista.

Por sinal, Saoirse Ronan doma o filme com uma atuação primorosa. Desde a maquiagem que a rejuvenesce, passando pelo cabelo pintado, Saoirse parece literalmente voltar no tempo para viver de novo os seus 17/18 anos (ela tem 23). A priori, a personagem parece caricata demais: o público parece ser apresentado a apenas uma jovem inconformada, cujas razões de ser parecem meramente fúteis. Entretanto, com o desenrolar do enredo, Lady Bird vai se mostrando uma personagem multifacetada, dotada de angústias e sonhos, o que facilita o apego do público à ela. Essa transformação é mostrada de forma tão natural pela diretora que parece que estamos descobrindo as qualidades e defeitos da personagem junto com ela. E, se primordialmente julgamos Lady Bird como uma personagem mesquinha, o roteiro habilmente desconstrói isso, demonstrando, com isso, o poder do julgamento antecipado e como isso pode nos impedir de conhecer melhor pessoas maravilhosas. Ademais, Saoirse conta com a ajuda da excelente Laurie Metcalf, cuja atuação representa uma mãe amorosa, que busca o melhor para a sua filha, mas parece simplesmente não se entender com ela. Mesmo que "Lady Bird" foque no amadurecimento de sua protagonista, é inegável a evolução da mãe como personagem, o que eleva, mais uma vez, o padrão narrativo da obra. Todo esse toque cotidiano é facilitado pela direção totalmente segura de Greta Gerwig, que dá ao filme um caráter episódico, visto que é impossível não se identificar com, pelo menos, algum ponto da história. "Lady Bird" trata de uma belíssima jornada de autoconhecimento e maturidade, caracterizando-se como uma crônica sobre a passagem do tempo e sobre a validade das instituições sociais, principalmente a familiar, através de um roteiro belíssimo e de uma direção completamente fluida de Greta Gerwig.

Nota: 

- João Hippert

Crítica de "Três Anúncios Para um Crime"

O cinema western, conhecido no Brasil como faroeste, é um dos marcos de Hollywood. Os filmes que retratavam John Wayne no papel de mocinho ou Clint Eastwood como um anti-herói marcaram época e serviram também para engrandecer a identidade nacional estadunidense, visto que a figura do cowboy é um símbolo daquela nação. Esse gênero cinematográfico, entretanto, caiu em desuso ultimamente, tanto pela saturação de histórias e personagens situados no Velho Oeste, quanto pela aspiração do público a novos gêneros. Nesse ínterim, surpreendentemente, um novo tipo de western surgiu: o western moderno. Agora não existem mais mocinhos e bandidos, tampouco duelos de pistola no meio da cidade, mas sim retratos cotidianos de uma vida dura e pacata do interior estadunidense. Um filme que pode simbolizar perfeitamente essa nova tendência é "Onde os Fracos não Têm Vez": um impactante estudo de personagens que traz o crime como um motor ao seu roteiro. Desse modo, os irmãos Coen (diretores do filme) inauguraram uma forma de fazer cinema deveras autoral, dotada de bastante originalidade e vitalidade narrativa. É nesse contexto que "Três Anúncios para um Crime" ("Three Billboards Outside Ebbing, Missouri") se insere. O filme acompanha Mildred (Frances McDormand), cuja filha foi estrupada e assassinada e que traz à tona ineficácia da polícia local através de três outdoors colocados na saída da cidade. É aí que começa um embate entre Mildred e o chefe Willoughby (Woody Harrelson), em um drama interiorano que poderia, facilmente, ter a assinatura dos irmãos Coen.

O roteiro, assinado por Martin McDonagh, é um dos pontos fortes da obra. Seria muito fácil - e até mesmo petulante - colocar Mildred em um pedestal, dando toda a razão à ela, enquanto a polícia fosse execrada e criticada ao extremo. Todavia, em vez disso, McDonagh é hábil ao fugir de maniqueísmos e promover um verdadeiro estudo psicológico dos personagens. Se por um lado percebemos o desespero de uma mãe em busca de justiça, por outro somos apresentados a ações dessa mesma mãe que transcendem a moralidade. E se a polícia claramente não foi capaz de desempenhar seu papel, também acompanhamos o sofrimento do xerife em solucionar o caso. Desse modo, os personagens de "Três Anúncios Para um Crime" vão se tornando esféricos à medida que não aparece um lado correto. Além disso, um grande acerto do script é o trato das coincidências da vida como algo cômico. O roteirista tem a habilidade de inserir certas gags, com respaldo narrativo, capazes de aliviar o ritmo do filme, assim como proporcionar genuínas risadas. Ademais, um dos grandes pontos abordados pelo longa refere-se às noções de moral e justiça. Até onde uma mãe pode ir para achar o assassino de sua filha? Até que ponto uma polícia com histórico racista pode ser confiável para o cumprimento da lei? Tais questões são sutilmente abordadas ao longo da metragem, fato que potencializa o caráter crítico/satírico da obra.

A direção (também de Martin McDonagh) é extremamente bem executada. O diretor alterna entre planos sequências e planos longos que dão ao ambiente um senso de pacatez extraordinária, pois, embora a cidade pareça ter a tranquilidade do interior, os acontecimentos retratados pelo filme aumentam a tensão envolvida. Assim, o trabalho do diretor de fotografia também deve ser exaltado por conseguir prover uma limpeza visual ímpar, assim como rimas visuais que engrandecem o valor artístico. A trilha sonora também merece destaque, principalmente pelas músicas cantadas apresentadas durante o longa que possuem um encaixe perfeito com o arco da história. Aliás, o grande trunfo do filme reside na construção do arco de seus personagens. Mildred, a princípio durona, vai mostrando suas emoções ao longo do filme e o público começa a se apegar à ela, principalmente ao seu sofrimento. Ao mesmo tempo, o policial Dixon (Sam Rockwell), sob uma primeira perspectiva odioso, apresenta um salto narrativo muito grande, sendo um exemplo da liberdade em detrimento do determinismo, porque, embora criado em um ambiente segregacionista, o policial parece compreender ao longo da história o que um verdadeiro xerife deve fazer, sob o ponto de vista moral. Assim, a participação do chefe Willoughby como uma espécie de referência paterna é de um acerto tremendo.

Todo esse brilhantismo de personagens é bastante facilitado pelo excelente elenco. Frances McDormand apresenta uma atuação crua, cheia de trejeitos, mas que suscita pena e afeição. Mesmo que seja uma personagem típica da atriz, McDormand consegue fugir da caricatura e prover um trabalho crível e competente. Ao mesmo tempo, Woody Harrelson demonstra-se seguro de si e de seus personagem. Apesar de possuir o arco mais simples, seu personagem é um importante motor para as histórias de Mildred e Dixon, sendo responsável por ser um trampolim narrativo muito eficaz. Por fim, Sam Rockwell é a grata surpresa do longa por, principalmente, saber aliar o tom cômico com o dramático através de uma linha tênue, o que dá ao seu personagem um viés multifacetado. Desse modo, o filme consegue construir um senso de absurdo cotidiano que potencializa as curvas dramáticas da trama. Contudo, em alguns momentos, esses pequenos clímax de tensão são seguidos por momentos de monotonia extrema ou, até mesmo, de divagações do enredo que prejudicam o ritmo do filme e o resultado do final da película. Mesmo assim, "Três Anúncios Para um Crime" é um forte estudo de personagens, cujo roteiro analisa os limites entre a moralidade e a justiça, utilizando da imensa qualidade de seu trio protagonista para prover um ótimo filme.

Nota: 

- João Hippert

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Crítica de "The Post: A Guerra Secreta"

Uma obra cinematográfica é composta por vários aspectos técnicos e artísticos que, quando colocados da maneira que o idealizador previu, tornam a experiência de ir ao cinema muito marcante. O impacto de uma trilha sonora, o deleite de uma fotografia bem realizada, a agilidade na edição e montagem - tudo isso é essencial para o bom funcionamento de um filme, independentemente do gênero a qual pertença. Entretanto, algumas categorias recebem mais destaque, justamente, por possuírem mais prestígio quanto ao público devido ao enorme apego que rostos conhecidos acarretam. Claramente estou falando da categoria de atuação principal, além do diretor, é claro. "The Post" surpreende já na sua chamada por reunir, provavelmente, o tripé mais talentoso da Era Contemporânea do cinema estadunidense: Steven Spielberg na direção, Meryl Streep como atriz principal e Tom Hanks como ator principal. Aliado ao trio, está o disputado roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, que conta a história de bastidores do jornal Washington Post em meio a um escândalo político referente ao presidente Nixon e a Guerra do Vietnã. Uma trama de tamanha preponderância histórica e um elenco tão estrelado claramente chamariam a atenção da Academia - e não foi surpresa alguma o filme ter tido 2 indicações ao Oscar. Primeiramente, é evidente a semelhança de "The Post" com "Spotlight" e, por isso, as comparações são quase inevitáveis. Mas se naquele filme faltava um pulso mais firme de diretor, aqui não falta.

Steven Spielberg, mesmo com os vários filmes que não fizeram tanto sucesso de público e crítica (só de lembrar de "O Bom Gigante Amigo" já me dá calafrios), é um dos maiores diretores da história do cinema mundial. Responsável por clássicos como "E.T.", "O Resgate do Soldado Ryan", "Tubarão", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", "Jurassic Park", dentre inúmeros outros, o diretor parece se reinventar quando busca contar histórias novas que apresentem respaldo histórico. O último bom trabalho do diretor havia sido "Ponte dos Espiões" que corrobora essa ideia. Aqui, a direção de Spielberg segue seu padrão: câmera fluida, sem muitos exageros e com bastante foco nos atores. Sua maneira limpa de conduzir os movimentos de câmera permite ao espectador se deliciar com o excelente design de produção do filme e sua ambientação, o que potencializa a veracidade dos fatos. Mesmo assim, o diretor não abre mão de suas rimas visuais que tanto agradam aos fãs. Um exemplo de construção narrativa está presente na própria personagem Kay Graham (Meryl Streep) - a dona do jornal que, em meio a um ambiente extremamente misógino, parece não ter voz, tampouco poder de decisão. Repare como em uma cena de diálogo, no início do longa, a personagem parece estar sendo esmagada pelos homens da sala e a imponência de tal sociedade machista parece silenciá-la. Por outro lado, em outra cena, Kay desce uma escada depois de um acontecimento importante e é admirada pelas mulheres presentes. Esse salto narrativo contribui tanto para o engrandecimento do arco da personagem, tanto para a habilidade de Spielberg em criar momentos memoráveis, elevando a qualidade artística da obra.

Tratando-se de roteiro, o maior problema do filme reside no esforço em deixar o espectador preso à história. Como o longa é baseado em uma história real, os acontecimentos já são premeditados e isso, até certo ponto, chega a prejudicar o filme. O segundo ato tem um ritmo defasado e faz com que a obra pareça ter uma duração maior do que a que realmente tem. Mesmo que não seja um problema em termos estruturais, a oscilação de ritmo dificulta a linearidade da alternância dos momentos de tensão. Mesmo assim, esse roteiro na mão de um diretor qualquer teria muita chance de fracasso. Contudo, Spielberg, sendo extremamente confiante do que pode fazer, consegue promover uma experiência edificante, muito por conta da excelência de seu elenco. Meryl Streep está mais uma vez fabulosa, interpretando uma mulher cheia de camadas que, com o passar da projeção, entende o seu papel na trama e busca fazer algo a respeito. Contracenando com ela, Tom Hanks faz, mais uma vez, o tipo de profissional ideal; aquele que nunca desiste de seus ideais profissionais, mesmo que isso valha a sua própria liberdade. Tratando-se de um personagem desenvolvido para ter um senso de honra elevado, a escolha por Tom Hanks foi acertadíssima, tendo em vista a confiança que o ator inspira. O elenco coadjuvante também tem relevância, com destaque para Bob Odenkirk. Outro ponto forte da metragem é a trilha sonora atuante, que, quando combinada com uma montagem bem feita, é capaz de realizar os "movie moments" tão presentes na filmografia de Spielberg. E o fato de ser John Williams comandando essa orquestra novamente parece algo redundante a ser dito.

Sendo assim, mesmo com seus acertos técnicos e de atuação, o longa ganha força é com a sua mensagem. Até que ponto o governo deve intervir na liberdade de imprensa? Ao tratar dessa pergunta, o diretor faz uma verdadeira homenagem ao jornalismo sério e honesto, demonstrando a importância de uma imprensa destemida e comprometida com a verdade - sem pensar em privilégios pessoais decorrentes de alianças com políticos. Assim, a publicação dos documentos referentes à participação dos EUA na Guerra do Vietnã foi crucial para alertar a população sobre os enganos que o governo cometia, fato que deu maior legitimidade à democracia estadunidense. O compromisso daqueles que arriscaram seus empregos e suas liberdades em prol de um ideal é posto em evidência pelo filme. Como diria Graham, "As notícias de um jornal são o primeiro rascunho da História". Steven Spielberg parece compreender isso nessa que é uma grande ode ao jornalismo, repleta de boas atuações e que conta com um diretor totalmente convicto de suas decisões.

Nota: 

- João Hippert


domingo, 14 de janeiro de 2018

Crítica de "O Destino de uma Nação"

O tema da Segunda Guerra Mundial é um dos mais queridos pelos cineastas do mundo inteiro, principalmente pelos estadunidenses, que visam, por meio dessas obras, reforçar seu soft power ao redor do mundo. Contudo, o cinema britânico também se destaca na elaboração de obras que remetam ao período, como foi o caso de Cristopher Nolan em "Dunkirk" e agora Joe Wright em "O Destino de uma Nação" (do original "Darkest Hour"). Indicado a diversas premiações, tais como o Globo de Ouro e o BAFTA, além de ser forte candidato a uma indicação da Academia, o filme retrata a trajetória de Winston Churchill, interpretado por Gary Oldman, como primeiro-ministro inglês, desde o momento de sua posse até o momento da famosa retirada de Dunquerque (retratada tão bem por Nolan). Porém, se "Dunkirk" envolve o espectador, por meio de uma direção eficiente e de um roteiro ousado, "O Destino de uma Nação" mostra-se frio, confuso e, até mesmo, perdido quanto ao seu ritmo. Mesmo se tratando de uma produção que visa ambientes fechados ao retratar decisões políticas, o filme torna-se, gradativamente, um fardo para o espectador, tendo em vista a imensa dificuldade da montagem e da própria direção em dar agilidade para o filme - ou até mesmo criar gags que tornem a experiência um pouco mais entusiasmante.

É claro que o roteiro de Anthony McCarten segue seu papel de retratar fidedignamente todos os acontecimentos históricos, assim como a vida pessoal de Churchill, seus vícios e seu posicionamento político que, embora controverso, foi vital para a sobrevivência da Grã Bretanha contra o avanço do Terceiro Reich. Porém, McCarten se limita somente a isso e, tratando-se de uma produção cinematográfica, cuja função também reside no entretenimento, o público se vê constantemente sobrecarregado. E não é pelo fato de ser inteiramente pautado na veracidade dos fatos; o filme alemão "A Queda", por exemplo, passa-se quase que por inteiro dentro do bunker nazista, mas a direção e o roteiro contribuem para um ritmo ágil, que potencializa o nível de interesse pela obra. Apesar de Churchill ser um personagem deveras importante para o desenrolar da Guerra e para a virada dos Aliados, o longa britânico deveria ter a habilidade de inserir elementos narrativos que engrandecessem sua história, de modo a dar vigor para a obra. Um exemplo extremamente bem realizado disso é "O Jogo da Imitação" que, apesar de se situar no lugar comum da história real, apresenta elementos que aumentam o caráter artístico da obra. Em "O Destino de uma Nação", existem duas ou três cenas, no máximo, em que o espectador fica com o olhar fixo na tela - muito pelo fato do elenco estar ótimo. Essa inconstância sequencial dá ao filme uma "barriga" desnecessária e, com o passar do tempo, a preocupação deixa de estar com o andamento da história, mas sim com o seu fim.

Por outro lado, existem alguns aspectos cinematográficos que salvam o filme de uma catástrofe completa. A fotografia, o design de produção, o figurino, a maquiagem, a trilha sonora e a direção de arte, firmemente supervisionados pelo diretor Joe Wright, dão ao filme o tom necessário: todas as tonalidades de cor, as músicas e as roupas se assemelham muito ao retrato da época, o que concretiza o ideal do diretor em realizar uma volta ao passado. Por outro lado, a luz vermelha em determinada cena ou a câmera lenta acompanhando as pessoas na rua dão indícios de uma possibilidade mais qualitativa, porém Joe Wight se prende ao roteiro enfadonho e tedioso, fazendo com que sua câmera ofereça temas visuais impactantes em pouquíssimas oportunidades. Seu grande acerto refere-se à direção de seu protagonista Gary Oldman que está, muito provavelmente, realizando a atuação de seu Oscar. Em aliança ao excelente trabalho de maquiagem, Oldman nos provê um Churchill multifacetado, ora inseguro, ora confiante ao extremo. Além disso, mesmo com os trejeitos clássicos do ex primeiro-ministro, o ator afasta-se do senso comum de transformá-lo em alguém caricato. É perceptível o árduo nível de estudo de seu protagonista, sendo a cena do discurso de Churchill a mais memorável de toda a metragem. E chega em um momento da película que é simplesmente impossível separar o ator do personagem. Tudo flui de maneira tão orgânica que, em breves momentos, devido à genialidade da performance de Oldman, o filme dá bons respiros. Pena que tais respiros são breves e são rapidamente sufocados pela monotonia do script.

Desse modo, "O Destino de uma Nação" é fraco não pelo que é em si, mas pelo potencial que apresentava e pela qualidade daqueles envolvidos na obra. Claramente, é impossível comparar esse tipo de filme com algum que represente a guerra como ela é nos campos de batalha, mas "O Destino de uma Nação" mostra-se díspar daqueles que podemos considerar os melhores do gênero. A verdade é que falta uma identidade narrativa clara - e a dificuldade do roteiro em fazer com que as viradas dramáticas fiquem impactantes prejudicam ainda mais a obra. Infelizmente Gary Oldman será lembrado por um filme mediano, mesmo que tenha apresentado a atuação de sua vida. Mesmo assim, é inegável a importância do longa no que consta a memória narrativa, sendo bastante didático em relação ao ambiente da guerra. O problema reside, de fato, no valor de entretenimento e, até mesmo, artístico. Por meio de roteiro monótono e ritmo dificultado, "O Destino de uma Nação" se vale apenas de sua preponderância histórica e da primorosa atuação de seu protagonista.

Nota: 

- João Hippert

sábado, 13 de janeiro de 2018

Crítica de "Viva: A Vida é uma Festa"

É redundante ressaltar a qualidade das animações da Pixar. Qualquer cinéfilo assíduo ou mesmo o público apaixonado por animação reconhece a importância das obras que trazem o abajur nos créditos iniciais. A Pixar é responsável por verdadeiros clássicos do cinema, tais como a trilogia "Toy Story". Recentemente, o estúdio vem buscando renovar suas histórias, introduzindo novos universos maravilhosos que chegam às telonas. Os últimos três filmes, entretanto, não obtiveram muito sucesso de público e crítica. "O Bom Dinossauro", "Procurando Dory" e "Carros 3" caminharam longe do brilho que o estúdio pode alcançar. A obra mais recente com imenso valor artístico é "Divertida Mente", que configura-se como um intenso estudo das emoções humanas. Felizmente, "Coco" (que em português foi traduzido para "Viva: A Vida é uma Festa" por motivos óbvios) retoma o gigantesco potencial emotivo que faz com que o público lembre com carinho de obras como "Up" e "Wall-E". Chegando aos cinemas brasileiros na primeira semana de Janeiro, o filme acompanha o garotinho Miguel, apaixonado por música, mas impedido de concretizar seus sonhos devido ao passado de sua família que, agora, é avessa a qualquer tipo de melodia. Durante o "Dia de Los Muertos", Miguel viaja até o Mundo dos Mortos e embarca em uma jornada para retornar à sua família. Para isso, o menino conta com a ajuda de um vira-lata e do esqueleto Hector.

A primeira coisa que merece destaque no filme é sua relevância cultural. É louvável um estúdio do tamanho da Disney promover uma obra que reverencia a cultura mexicana de forma tão delicada. A valorização da comida local, as tradições familiares mexicanas, o feriado nacional, tudo é tratado com muito esmero pelo diretor. E mais: a mitologia presente no roteiro contribui para embasar todos os costumes desse povo. Em tempos tão conturbados como os atuais, onde líderes populistas estimulam a xenofobia e a construção de muros, "Coco" permite ao grande público conhecer um pouco mais da interessantíssima tradição mexicana em aliança a um roteiro repleto de camadas. Este, que possui 6 escritores, introduz o menino Miguel de uma forma tão natural que o espectador se apega às suas angústias de forma quase que imediata. E sua jornada, além de fascinante, é marcada por um arco muito bem desenvolvido. Todas as viradas dramáticas, os momentos de euforia, de tensão e de emoção são brilhantemente intercalados de modo a deixar o filme com um ritmo ideal. Mas se o protagonista teve um ótimo desenvolvimento, os coadjuvantes não ficam para trás. O esqueleto Hector apresenta uma jornada árdua e comovente. Sua aparência jovial e desleixada do início vai dando espaço a uma angústia contida, consequência do peso de suas ações. Pode-se dizer que, por mais que Hector não esteja mais vivo, a mitologia do filme o apresenta como o mais humano de todos. Todavia, mesmo com tamanha carga dramático-existencialista, a animação encontra espaço para alívios cômicos certeiros, capazes de causar um sorriso nos espectadores. O roteiro consegue suavizar, assim, o peso da história, porém sem prejudicar, de forma alguma, seu impacto.

Desse modo, o diretor Lee Unkrich ("Toy Story 3") é hábil para construir um universo completamente novo, mas sem permanecer nos clichês. Confiando na qualidade de seus animadores, Unkrich passeia pelos cenários como forma de apresentar o Mundo dos Mortos, sem valer de uma narração em-off para explicar determinados acontecimentos. A direção é tão imersiva que tal mundo parece palpável, mesmo que o excesso de cores e o traço caricato dos personagens nos chamem a atenção de um mundo fantasioso. Esse é o grande mérito da animação: mesmo que o público reconheça os traços fantásticos e cartunescos daquele mundo, a naturalidade da direção e a competência do roteiro permitem uma total viagem imersiva. Aliás, o ritmo do longa é enormemente facilitado pela boa trilha sonora e pelas belas músicas que, mais uma vez, homenageiam os mexicanos. Como não sair do cinema sem a canção "Remember Me" na cabeça? O diretor consegue intercalar a presença da música durante toda a metragem e a mudança dos significados que ela apresenta durante a obra realça a meticulosidade do trabalho dos roteiristas. Se no início ela é apresentada como um sucesso absoluto, ao final descobrimos a sua real inspiração. E a cena mais bonita do filme remete justamente a esse quesito. Afinal, as músicas, antes de pertencerem aos fãs, pertencem aos seus compositores, baseados em suas inspirações. Essa emoção particular transmitida por cada música é que faz ela ser tão aceita (ou não) pelos ouvintes. E a leveza de "Remember Me" justifica seu amplo alcance. 

Em aliança a tudo isso, um bom filme de animação da Pixar costuma deixar uma mensagem importante para seu público alvo (infantil). Em "Viva - A Vida é uma Festa" inicialmente somos convidados a seguir nossos sonhos, sem se importar com as consequências de nossas ações. Porém, com o desenrolar da história, percebemos que na vida nem tudo é tão romantizado assim. Cada escolha traz uma consequência e, se ela for feita de forma impulsiva, tais consequências podem ser irreparáveis. Nesse sentido, o filme emula para uma total confiança na família. É importante seguir os sonhos, mas sem nunca abandonar a família e, principalmente, sem esquecer do amor que essas relações permeiam. O genial disso tudo é que a mensagem é facilmente captada, mas sem obviedade. Apenas acompanhando-se a jornada de Miguel até o fim o público consegue conceber tal ensinamento. O novo filme da Pixar demonstra-se deveras importante ao abordar a necessidade do cuidado com a família e, acima de tudo, ao valorizar a cultura mexicana em tempos tão conturbados para os estadunidenses, por meio de um roteiro perfeito, um visual arrebatador e um grande apreço quase metalinguístico pela importância da música no cotidiano das pessoas. 

Nota: 

- João Hippert

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Top 10: Filmes 2017

2017 foi um ano excepcional para os cinéfilos brasileiros. Os diversos gêneros cinematográficos foram presenteados com obras inesquecíveis. Venho aqui listar o que de melhor vi nas telonas brasileiras no ano de 2017 (vale lembrar que só considero os filmes lançados comercialmente no Brasil em 2017. Assim, alguns filmes têm data de produção de 2016). Começando pelas menções honrosas, a temporada de premiação desse ano nos presenteou com alguns bons filmes, tais como o impactante drama Manchester à Beira Mar, o surpreendente coreano A Criada, o substancial drama adolescente Quase 18 e o ótimo documentário Beatles: Eight Days a Week. 2017 também foi mais um ano de brilhantismo dos estúdios Disney, com a importante animação Moana e a digna refilmagem de A Bela e a Fera. Na disputa anual entre Marvel e DC, o melhor de cada estúdio tem qualidade equiparada. Enquanto Mulher-Maravilha aposta no carisma de sua protagonista e no peso de suas decisões, Guardiões da Galáxia Vol II amplia o universo da franquia através de alívios cômicos certeiros e uma narrativa simples, porém eficaz. Ambos são ótimo entretenimento. Continuando com os grandes lançamentos, It: A Coisa demonstrou uma incrível capacidade de construção de universo, configurando-se como o melhor terror do ano. Abaixo dele está o terror psicológico Corra, repleto de sub-textos sociais extremamente atuais. Por outro lado, o melhor filme de ação do ano é Em Ritmo de Fuga que apresenta uma montagem exemplar, além de uma trilha sonora de extrema qualidade. Stephen Chbosky acerta no tom ao conceber um filme "família" com lições edificantes em "Extraordinário". Partindo para as obras de grandes diretores, merecem destaque "Silêncio" - filme em que Martin Scorsese exibe sua visão contemplativa acerca da fé e das inquietude humana - e "Roda Gigante": filme típico de Woody Allen, cujo roteiro acerta ao desenvolver uma crescente de tensão e diálogos niilistas (destaque também para a primorosa atuação de Kate Winslet). Finalizando as menções com o cinema nacional, os longas que merecem destaque são o ótimo retrato histórico da Inconfidência Mineira presente em Joaquim, a leveza na linguagem utilizada em O Filme da Minha Vida e seu deleite visual, além da estupenda cinebiografia Bingo - O Rei das Manhãs, que subverteu completamente todos os clichês do gênero. Eis, portanto, os 10 melhores filmes de 2017:

  • Blade Runner 2049 - "Blade Runner 2049" é um filme profundamente reflexivo, que através de ritmo seguro e roteiro circular, questiona o espectador acerca do que é ser humano. E o mais angustiante? Parece que não temos a resposta.
  • La La Land: Cantando Estações -  A cinematografia de Chazelle impressiona, assim como sua habilidade para construir rimas narrativas, que ajudam Ryan Gosling e Emma Stone a apresentarem atuações inesquecíveis. 
  • Mãe! - "Mãe!" é um filme inteligente, perturbador, angustiante, quebrador de paradigmas, que se apresenta com um ritmo extremamente fluido, devido à sua montagem competente e ao excelente trabalho de câmera do diretor, além de ser completamente visceral e contar com uma dupla de protagonistas em excelente forma.
  • Logan -  O roteiro introspectivo, a direção limpa e apreensiva, as atuações viscerais e emocionantes tornam "Logan" um dos melhores filmes de super-herói já feitos.
  • Moonlight: Sob a Luz do Luar"Moonlight" tem a coragem necessária de desenvolver a descoberta da homossexualidade no subúrbio norte-americano, servindo como pretexto para uma magnífica jornada de autoconhecimento e crítica social.
  • Star Wars: Os Últimos Jedi -  São 2 horas e 32 minutos de pura magia, nostalgia e emoção. Chega na parte final do filme, em seu clímax, e o único sentimento remanescente é o desejo de ficar um pouco mais naquele universo tão aconchegante.
  • Sete Minutos Depois da Meia-Noite -  Fugindo de perspectivas deterministas (tão presentes no mundo atual), o longa aborda profundamente a concepção platônica do ser, fazendo o público refletir acerca das verdades irrefutáveis que temos que engolir e refletindo sobre a famosa questão: "o que faz o ser humano ser humano?;
  • Com Amor, Van Gogh - “Com Amor, Van Gogh”, através do uso perfeito das técnicas da animação pintada à mão, presta uma grande referência ao grande pintor, embora as qualidades técnicas e artísticas transcendam ao servirem como plano de fundo para uma bela narrativa.
  • Eu, Daniel Blake - Ken Loach consegue realizar um trabalho extremamente reflexivo, dotado de inúmeras camadas e sub-textos que dão consistência a uma obra crítica e imprescindível.
  • Dunkirk - Ao retratar os personagens de forma extremamente sensível e humanizada, o apego do público é muito intenso, o que contribui para o excelente andamento do longa. "Dunkirk" apresenta inúmeros aspectos técnicos que merecem exaltação, mas é o retrato de Nolan acerca do homem comum na guerra que torna o filme tão especial.
- João Hippert