domingo, 14 de janeiro de 2018

Crítica de "O Destino de uma Nação"

O tema da Segunda Guerra Mundial é um dos mais queridos pelos cineastas do mundo inteiro, principalmente pelos estadunidenses, que visam, por meio dessas obras, reforçar seu soft power ao redor do mundo. Contudo, o cinema britânico também se destaca na elaboração de obras que remetam ao período, como foi o caso de Cristopher Nolan em "Dunkirk" e agora Joe Wright em "O Destino de uma Nação" (do original "Darkest Hour"). Indicado a diversas premiações, tais como o Globo de Ouro e o BAFTA, além de ser forte candidato a uma indicação da Academia, o filme retrata a trajetória de Winston Churchill, interpretado por Gary Oldman, como primeiro-ministro inglês, desde o momento de sua posse até o momento da famosa retirada de Dunquerque (retratada tão bem por Nolan). Porém, se "Dunkirk" envolve o espectador, por meio de uma direção eficiente e de um roteiro ousado, "O Destino de uma Nação" mostra-se frio, confuso e, até mesmo, perdido quanto ao seu ritmo. Mesmo se tratando de uma produção que visa ambientes fechados ao retratar decisões políticas, o filme torna-se, gradativamente, um fardo para o espectador, tendo em vista a imensa dificuldade da montagem e da própria direção em dar agilidade para o filme - ou até mesmo criar gags que tornem a experiência um pouco mais entusiasmante.

É claro que o roteiro de Anthony McCarten segue seu papel de retratar fidedignamente todos os acontecimentos históricos, assim como a vida pessoal de Churchill, seus vícios e seu posicionamento político que, embora controverso, foi vital para a sobrevivência da Grã Bretanha contra o avanço do Terceiro Reich. Porém, McCarten se limita somente a isso e, tratando-se de uma produção cinematográfica, cuja função também reside no entretenimento, o público se vê constantemente sobrecarregado. E não é pelo fato de ser inteiramente pautado na veracidade dos fatos; o filme alemão "A Queda", por exemplo, passa-se quase que por inteiro dentro do bunker nazista, mas a direção e o roteiro contribuem para um ritmo ágil, que potencializa o nível de interesse pela obra. Apesar de Churchill ser um personagem deveras importante para o desenrolar da Guerra e para a virada dos Aliados, o longa britânico deveria ter a habilidade de inserir elementos narrativos que engrandecessem sua história, de modo a dar vigor para a obra. Um exemplo extremamente bem realizado disso é "O Jogo da Imitação" que, apesar de se situar no lugar comum da história real, apresenta elementos que aumentam o caráter artístico da obra. Em "O Destino de uma Nação", existem duas ou três cenas, no máximo, em que o espectador fica com o olhar fixo na tela - muito pelo fato do elenco estar ótimo. Essa inconstância sequencial dá ao filme uma "barriga" desnecessária e, com o passar do tempo, a preocupação deixa de estar com o andamento da história, mas sim com o seu fim.

Por outro lado, existem alguns aspectos cinematográficos que salvam o filme de uma catástrofe completa. A fotografia, o design de produção, o figurino, a maquiagem, a trilha sonora e a direção de arte, firmemente supervisionados pelo diretor Joe Wright, dão ao filme o tom necessário: todas as tonalidades de cor, as músicas e as roupas se assemelham muito ao retrato da época, o que concretiza o ideal do diretor em realizar uma volta ao passado. Por outro lado, a luz vermelha em determinada cena ou a câmera lenta acompanhando as pessoas na rua dão indícios de uma possibilidade mais qualitativa, porém Joe Wight se prende ao roteiro enfadonho e tedioso, fazendo com que sua câmera ofereça temas visuais impactantes em pouquíssimas oportunidades. Seu grande acerto refere-se à direção de seu protagonista Gary Oldman que está, muito provavelmente, realizando a atuação de seu Oscar. Em aliança ao excelente trabalho de maquiagem, Oldman nos provê um Churchill multifacetado, ora inseguro, ora confiante ao extremo. Além disso, mesmo com os trejeitos clássicos do ex primeiro-ministro, o ator afasta-se do senso comum de transformá-lo em alguém caricato. É perceptível o árduo nível de estudo de seu protagonista, sendo a cena do discurso de Churchill a mais memorável de toda a metragem. E chega em um momento da película que é simplesmente impossível separar o ator do personagem. Tudo flui de maneira tão orgânica que, em breves momentos, devido à genialidade da performance de Oldman, o filme dá bons respiros. Pena que tais respiros são breves e são rapidamente sufocados pela monotonia do script.

Desse modo, "O Destino de uma Nação" é fraco não pelo que é em si, mas pelo potencial que apresentava e pela qualidade daqueles envolvidos na obra. Claramente, é impossível comparar esse tipo de filme com algum que represente a guerra como ela é nos campos de batalha, mas "O Destino de uma Nação" mostra-se díspar daqueles que podemos considerar os melhores do gênero. A verdade é que falta uma identidade narrativa clara - e a dificuldade do roteiro em fazer com que as viradas dramáticas fiquem impactantes prejudicam ainda mais a obra. Infelizmente Gary Oldman será lembrado por um filme mediano, mesmo que tenha apresentado a atuação de sua vida. Mesmo assim, é inegável a importância do longa no que consta a memória narrativa, sendo bastante didático em relação ao ambiente da guerra. O problema reside, de fato, no valor de entretenimento e, até mesmo, artístico. Por meio de roteiro monótono e ritmo dificultado, "O Destino de uma Nação" se vale apenas de sua preponderância histórica e da primorosa atuação de seu protagonista.

Nota: 

- João Hippert

sábado, 13 de janeiro de 2018

Crítica de "Viva: A Vida é uma Festa"

É redundante ressaltar a qualidade das animações da Pixar. Qualquer cinéfilo assíduo ou mesmo o público apaixonado por animação reconhece a importância das obras que trazem o abajur nos créditos iniciais. A Pixar é responsável por verdadeiros clássicos do cinema, tais como a trilogia "Toy Story". Recentemente, o estúdio vem buscando renovar suas histórias, introduzindo novos universos maravilhosos que chegam às telonas. Os últimos três filmes, entretanto, não obtiveram muito sucesso de público e crítica. "O Bom Dinossauro", "Procurando Dory" e "Carros 3" caminharam longe do brilho que o estúdio pode alcançar. A obra mais recente com imenso valor artístico é "Divertida Mente", que configura-se como um intenso estudo das emoções humanas. Felizmente, "Coco" (que em português foi traduzido para "Viva: A Vida é uma Festa" por motivos óbvios) retoma o gigantesco potencial emotivo que faz com que o público lembre com carinho de obras como "Up" e "Wall-E". Chegando aos cinemas brasileiros na primeira semana de Janeiro, o filme acompanha o garotinho Miguel, apaixonado por música, mas impedido de concretizar seus sonhos devido ao passado de sua família que, agora, é avessa a qualquer tipo de melodia. Durante o "Dia de Los Muertos", Miguel viaja até o Mundo dos Mortos e embarca em uma jornada para retornar à sua família. Para isso, o menino conta com a ajuda de um vira-lata e do esqueleto Hector.

A primeira coisa que merece destaque no filme é sua relevância cultural. É louvável um estúdio do tamanho da Disney promover uma obra que reverencia a cultura mexicana de forma tão delicada. A valorização da comida local, as tradições familiares mexicanas, o feriado nacional, tudo é tratado com muito esmero pelo diretor. E mais: a mitologia presente no roteiro contribui para embasar todos os costumes desse povo. Em tempos tão conturbados como os atuais, onde líderes populistas estimulam a xenofobia e a construção de muros, "Coco" permite ao grande público conhecer um pouco mais da interessantíssima tradição mexicana em aliança a um roteiro repleto de camadas. Este, que possui 6 escritores, introduz o menino Miguel de uma forma tão natural que o espectador se apega às suas angústias de forma quase que imediata. E sua jornada, além de fascinante, é marcada por um arco muito bem desenvolvido. Todas as viradas dramáticas, os momentos de euforia, de tensão e de emoção são brilhantemente intercalados de modo a deixar o filme com um ritmo ideal. Mas se o protagonista teve um ótimo desenvolvimento, os coadjuvantes não ficam para trás. O esqueleto Hector apresenta uma jornada árdua e comovente. Sua aparência jovial e desleixada do início vai dando espaço a uma angústia contida, consequência do peso de suas ações. Pode-se dizer que, por mais que Hector não esteja mais vivo, a mitologia do filme o apresenta como o mais humano de todos. Todavia, mesmo com tamanha carga dramático-existencialista, a animação encontra espaço para alívios cômicos certeiros, capazes de causar um sorriso nos espectadores. O roteiro consegue suavizar, assim, o peso da história, porém sem prejudicar, de forma alguma, seu impacto.

Desse modo, o diretor Lee Unkrich ("Toy Story 3") é hábil para construir um universo completamente novo, mas sem permanecer nos clichês. Confiando na qualidade de seus animadores, Unkrich passeia pelos cenários como forma de apresentar o Mundo dos Mortos, sem valer de uma narração em-off para explicar determinados acontecimentos. A direção é tão imersiva que tal mundo parece palpável, mesmo que o excesso de cores e o traço caricato dos personagens nos chamem a atenção de um mundo fantasioso. Esse é o grande mérito da animação: mesmo que o público reconheça os traços fantásticos e cartunescos daquele mundo, a naturalidade da direção e a competência do roteiro permitem uma total viagem imersiva. Aliás, o ritmo do longa é enormemente facilitado pela boa trilha sonora e pelas belas músicas que, mais uma vez, homenageiam os mexicanos. Como não sair do cinema sem a canção "Remember Me" na cabeça? O diretor consegue intercalar a presença da música durante toda a metragem e a mudança dos significados que ela apresenta durante a obra realça a meticulosidade do trabalho dos roteiristas. Se no início ela é apresentada como um sucesso absoluto, ao final descobrimos a sua real inspiração. E a cena mais bonita do filme remete justamente a esse quesito. Afinal, as músicas, antes de pertencerem aos fãs, pertencem aos seus compositores, baseados em suas inspirações. Essa emoção particular transmitida por cada música é que faz ela ser tão aceita (ou não) pelos ouvintes. E a leveza de "Remember Me" justifica seu amplo alcance. 

Em aliança a tudo isso, um bom filme de animação da Pixar costuma deixar uma mensagem importante para seu público alvo (infantil). Em "Viva - A Vida é uma Festa" inicialmente somos convidados a seguir nossos sonhos, sem se importar com as consequências de nossas ações. Porém, com o desenrolar da história, percebemos que na vida nem tudo é tão romantizado assim. Cada escolha traz uma consequência e, se ela for feita de forma impulsiva, tais consequências podem ser irreparáveis. Nesse sentido, o filme emula para uma total confiança na família. É importante seguir os sonhos, mas sem nunca abandonar a família e, principalmente, sem esquecer do amor que essas relações permeiam. O genial disso tudo é que a mensagem é facilmente captada, mas sem obviedade. Apenas acompanhando-se a jornada de Miguel até o fim o público consegue conceber tal ensinamento. O novo filme da Pixar demonstra-se deveras importante ao abordar a necessidade do cuidado com a família e, acima de tudo, ao valorizar a cultura mexicana em tempos tão conturbados para os estadunidenses, por meio de um roteiro perfeito, um visual arrebatador e um grande apreço quase metalinguístico pela importância da música no cotidiano das pessoas. 

Nota: 

- João Hippert

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Top 10: Filmes 2017

2017 foi um ano excepcional para os cinéfilos brasileiros. Os diversos gêneros cinematográficos foram presenteados com obras inesquecíveis. Venho aqui listar o que de melhor vi nas telonas brasileiras no ano de 2017 (vale lembrar que só considero os filmes lançados comercialmente no Brasil em 2017. Assim, alguns filmes têm data de produção de 2016). Começando pelas menções honrosas, a temporada de premiação desse ano nos presenteou com alguns bons filmes, tais como o impactante drama Manchester à Beira Mar, o surpreendente coreano A Criada, o substancial drama adolescente Quase 18 e o ótimo documentário Beatles: Eight Days a Week. 2017 também foi mais um ano de brilhantismo dos estúdios Disney, com a importante animação Moana e a digna refilmagem de A Bela e a Fera. Na disputa anual entre Marvel e DC, o melhor de cada estúdio tem qualidade equiparada. Enquanto Mulher-Maravilha aposta no carisma de sua protagonista e no peso de suas decisões, Guardiões da Galáxia Vol II amplia o universo da franquia através de alívios cômicos certeiros e uma narrativa simples, porém eficaz. Ambos são ótimo entretenimento. Continuando com os grandes lançamentos, It: A Coisa demonstrou uma incrível capacidade de construção de universo, configurando-se como o melhor terror do ano. Abaixo dele está o terror psicológico Corra, repleto de sub-textos sociais extremamente atuais. Por outro lado, o melhor filme de ação do ano é Em Ritmo de Fuga que apresenta uma montagem exemplar, além de uma trilha sonora de extrema qualidade. Stephen Chbosky acerta no tom ao conceber um filme "família" com lições edificantes em "Extraordinário". Partindo para as obras de grandes diretores, merecem destaque "Silêncio" - filme em que Martin Scorsese exibe sua visão contemplativa acerca da fé e das inquietude humana - e "Roda Gigante": filme típico de Woody Allen, cujo roteiro acerta ao desenvolver uma crescente de tensão e diálogos niilistas (destaque também para a primorosa atuação de Kate Winslet). Finalizando as menções com o cinema nacional, os longas que merecem destaque são o ótimo retrato histórico da Inconfidência Mineira presente em Joaquim, a leveza na linguagem utilizada em O Filme da Minha Vida e seu deleite visual, além da estupenda cinebiografia Bingo - O Rei das Manhãs, que subverteu completamente todos os clichês do gênero. Eis, portanto, os 10 melhores filmes de 2017:

  • Blade Runner 2049 - "Blade Runner 2049" é um filme profundamente reflexivo, que através de ritmo seguro e roteiro circular, questiona o espectador acerca do que é ser humano. E o mais angustiante? Parece que não temos a resposta.
  • La La Land: Cantando Estações -  A cinematografia de Chazelle impressiona, assim como sua habilidade para construir rimas narrativas, que ajudam Ryan Gosling e Emma Stone a apresentarem atuações inesquecíveis. 
  • Mãe! - "Mãe!" é um filme inteligente, perturbador, angustiante, quebrador de paradigmas, que se apresenta com um ritmo extremamente fluido, devido à sua montagem competente e ao excelente trabalho de câmera do diretor, além de ser completamente visceral e contar com uma dupla de protagonistas em excelente forma.
  • Logan -  O roteiro introspectivo, a direção limpa e apreensiva, as atuações viscerais e emocionantes tornam "Logan" um dos melhores filmes de super-herói já feitos.
  • Moonlight: Sob a Luz do Luar"Moonlight" tem a coragem necessária de desenvolver a descoberta da homossexualidade no subúrbio norte-americano, servindo como pretexto para uma magnífica jornada de autoconhecimento e crítica social.
  • Star Wars: Os Últimos Jedi -  São 2 horas e 32 minutos de pura magia, nostalgia e emoção. Chega na parte final do filme, em seu clímax, e o único sentimento remanescente é o desejo de ficar um pouco mais naquele universo tão aconchegante.
  • Sete Minutos Depois da Meia-Noite -  Fugindo de perspectivas deterministas (tão presentes no mundo atual), o longa aborda profundamente a concepção platônica do ser, fazendo o público refletir acerca das verdades irrefutáveis que temos que engolir e refletindo sobre a famosa questão: "o que faz o ser humano ser humano?;
  • Com Amor, Van Gogh - “Com Amor, Van Gogh”, através do uso perfeito das técnicas da animação pintada à mão, presta uma grande referência ao grande pintor, embora as qualidades técnicas e artísticas transcendam ao servirem como plano de fundo para uma bela narrativa.
  • Eu, Daniel Blake - Ken Loach consegue realizar um trabalho extremamente reflexivo, dotado de inúmeras camadas e sub-textos que dão consistência a uma obra crítica e imprescindível.
  • Dunkirk - Ao retratar os personagens de forma extremamente sensível e humanizada, o apego do público é muito intenso, o que contribui para o excelente andamento do longa. "Dunkirk" apresenta inúmeros aspectos técnicos que merecem exaltação, mas é o retrato de Nolan acerca do homem comum na guerra que torna o filme tão especial.
- João Hippert



sábado, 23 de dezembro de 2017

Crítica de "Com Amor, Van Gogh"

Vincent Van Gogh é, possivelmente, o maior artista de todos os tempos. Situado na época do pós-impressionismo, o holandês passava para suas telas o sentimento de desconcerto intrínseco à sua alma. Como todo grande gênio, Van Gogh tinha dificuldades de relacionamento , principalmente, devido às suas alucinações que os faziam procurar por ajuda. A mais famosa delas, por exemplo, foi a orelha cortada que é, infelizmente, o que a maioria das pessoas sabe sobre o artista. A genialidade dele, todavia, vai muito além da capacidade de expressar suas contradições na tela de forma genuína. Vincent Van Gogh era um pintor auto-didata cuja carreira teve início depois da vida adulta. Além disso, a sua forma de distorção da realidade exterior como forma de retratar sua angústia foi o ponto de partida para muitos pintores expressionistas subsequentes, fato que dá à Van Gogh o título de “pai da arte moderna”.

É nesse contexto que surge a animação “Loving, Vincent”. Note como o título original da obra busca retratar o pintor de forma mais íntima, mais humana, se afastando do peso que o sobrenome carrega (equivocadamente a tradução brasileira desfaz esse papel). A própria escolha do título elucida a proposta do filme em buscar compreender as aflições de um gênio. O filme é um verdadeira “road-movie” acerca dos momentos derradeiros da vida do pintor, mas isso nunca fica estafante. É perceptível como o roteiro, ao apresentar diversos personagens da vida de Vincent, consegue desenvolver o pensamento de cada um relação a ele, demonstrando como o convívio com uma pessoa fora de série afeta as pessoas. Nesse ínterim, “Com Amor, Van Gogh” é muito mais universal do que aparental. Afinal, o brilhantismo, ao mesmo tempo que atrai admiração, incita ódio. Os roteiristas compreendem isso e, pela abordagem feita em relação ao relato de cada personagem, criam um ambiente muito mais realista e dúbio, já que não existem mentiras cruas; apenas visões diferentes sobre uma mesma realidade. Essa estratégia de escrita promove uma bela rima visual com a própria arte de Van Gogh, tendo em vista que tudo depende da subjetividade do idealizador.

Mesmo assim, apesar das qualidades do roteiro, o longa se notabiliza pela sua incrível capacidade artística. Trata-se do primeiro filme pintado inteiramente a mão e são quase 90 minutos de puro deleite visual. A direção de arte apresenta o compente trabalho de aliar o realismo que a abordagem biográfica do filme precisa ter à pura idealização estética. Tal estratégia reiterada pela direção de Dorota Kobiela e Hugh Welckman serve como uma experiência sensitiva sem precedentes. Durante a película, muitas vezes, o espectador esquece que o filme é animado, o que reforça a ideia de verossimilhança pregada pela direção. Concomitantemente, os traços dos pincéis de Van Gogh são facilmente identificados na composição das cenas, o que denota uma metalinguagem belíssima. Afinal,  a história de Van Gogh sendo contada sob a ótica de seus próprios trabalhos é algo admirável. Dessa forma, é admirável o trabalho de estudo da produção desse filme, tendo em vista que, desde o carteiro até o céu estrelado, tudo é uma referência ao pintor. Ao mesmo tempo, o uso de sua técnica mostra-se como um artifício de engrandecimento da história, mas nunca sua resolução em si.


Portanto, “Com Amor, Van Gogh” é uma experiência cinematográfica extremadamente ousada, tornando-se a animação mais poderosa do ano e, possivelmente, uma das melhores dos últimos tempos. A habilidade dos pintores usados no filme serve para enaltecer a capacidade artística de seu protagonista, porém nunca se prende somente a isso. O filme consegue caminhar com suas próprias pernas ao construir um ritmo agradável e um crescente ambiente de tensão totalmente inesperado. “Com Amor, Van Gogh”, através do uso perfeito das técnicas da animação pintada à mão, presta uma grande referência ao grande pintor, embora as qualidades técnicas e artísticas transcendam ao servirem como plano de fundo para uma bela narrativa.

Nota: 



- João Hippert



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Crítica de "Star Wars: Os Últimos Jedi"

"Star Wars" é, sem sombra de dúvidas, a epopeia moderna. E mais: enquanto as clássicas obras de Homero ou "Os Lusíadas" de Camões expressavam feitos heroicos de um povo, a saga "Guerra nas Estrelas" é universal. Os arquétipos usados na jornada de herói, a necessidade por fantasia que é intrínseca à personalidade humana e o constante embate entre o bem e o mal são fatores que fazem com que a obra seja facilmente digerida por qualquer um. Não é pelo fato de que a franquia se tornou um símbolo do marketing bem sucedido estadunidense que o seu caráter artístico deva ser relegado. Aliás, "Star Wars" deixou de ser um simples produto cinematográfico ou uma grande obra de arte há muito tempo. "Star Wars" é paixão, é aguardar ansiosamente pelos trailers, é colar posteres no quarto, é tentar ler todos os livros do universo expandido, é sentir a partida de amigos ficcionais, é fazer tantos outros na vida real. E, felizmente, com a aquisição da Lucas Film pela Disney, "Star Wars" agora é aguardar todo o ano por uma única pré-estreia, uma única sessão que te faça esquecer todos os problemas cotidianos, é embarcar naquela galáxia muito, muito distante e simplesmente levitar. É ouvir o tema inicial com os olhos marejados e com o corpo todo arrepiado, ler os letreiros e depois disso, simplesmente, sentir que a Força está realmente viva no coração dos fãs.

E é exatamente essa reflexão toda que demonstra a competência do diretor/roteirista Rian Johnson no filme. Desde o início da metragem, o público é submetido a um ambiente extremamente familiar, mas com toques de novidade que expandem a sensação de pertencimento daquele mundo. A cena inicial, possivelmente, condiz com a essência de "Star Wars", porque trata-se, justamente, de uma intensa batalha espacial, com direito a som no espaço e manobras que desafiam a física convencional (Mas para os mais implicantes, basta lembrar que trata-se de um tempo muito remoto, em uma galáxia muito, muito distante...). Johnson acerta, também, ao evocar o real senso de perigo acerca do filme inteiro. A história consiste em diferentes arcos: naves da Primeira Ordem tentando aniquilar os rebeldes remanescentes de uma vez por todas; Rey em busca de seu treinamento Jedi com Luke Skywalker; Kylo Ren e seu aparente conflito interno maniqueísta e Finn com sua nova companheira Rose, tentando se infiltrar na nave do Comandante Supremo Snoke e impedir seu ataque. A decisão de intercalar diversas estruturas narrativas em um mesmo filme é arriscada, porque, se a montagem não for feita de forma meticulosa, existe uma quebra de ritmo que pode prejudicar a experiência emocional provocada pelo filme. Contudo, o trabalho do montador é sublime à medida que torna todas as extensões interessantes a ponto do expectador não se ver saturado de determinado ambiente ou torcendo para que outro voltasse à tona.

Toda essa dinamicidade narrativa possui respaldo no enorme carisma dos protagonistas da "nova geração". Rey, interpretada pela excelente Daisy Ridley, mais uma vez rouba o filme devido à sua presença impositiva e à sua busca por verdades que a tornam cada vez mais humana. Ao sentir a Força despertar dentro dela, Rey entra em um verdadeiro conflito que permeia toda a jornada do herói clássica. Seria ela uma espécie de ser iluminado? Seriam seus pais verdadeiros mestres da Força que a abandonaram com algum propósito? O filme discute essas questões ao longo de toda a projeção, o que potencializa a apreensão do público por conhecer a história da tão querida personagem. Em aliança a isso, temos a volta do protagonista da série clássica Luke Skywalker. E parece que Mark Hamill, em uma atuação extremamente madura, compreende a ambivalência de Luke. Ao mesmo tempo que ele foi responsável pela destruição do Império, ele também é herdeiro legítimo de Darth Vader. Hamill consegue transparecer uma atuação dúbia, que confere a seu personagem uma aura misteriosa, como alguém que busca esconder segredos do passado a fim de se proteger das consequências presentes. A relação mestre-aprendiz entre os dois também é deveras importante para a afirmação da renovação do universo de personagens começada em "O Despertar da Força". Luke, sendo o último Jedi existente, precisa passar seus conhecimentos para Rey, ao mesmo tempo que o ator Mark Hamill precisa dar o espaço necessário para Daisy Ridley.  Nesse sentido, os arcos
desses personagens talvez sejam os mais complexos do filme, sendo extremamente orquestrados do início ao fim.

Ademais, dois atores merecem extremo destaque: Adam Driver (Kylo Ren) e Oscar Isaac (Poe Dameron). O primeiro, como parte do próprio desenvolvimento de Kylo, abandona sua atuação maquinal do filme anterior, fazendo com que os conflitos sejam vivazes e que o público sempre desconfie de suas ações. Kylo Ren nunca é apresentado como um vilão definitivo, tampouco um aspirante a mocinho. Tal comportamento contraditório remete ao próprio Luke da trilogia clássica, servindo como uma referência que surge como rima narrativa. Em contrapartida, Poe Dameron é desenvolvido como um representante da essencialidade rebelde. Incisivo, passional e intuitivo; o personagem transborda carisma e seu apego ao grande público é extremamente facilitado. Nesse sentido, a presença da General Organa, sob a pele da excelente Carrie Fisher, constitui uma espécie de relação mãe-filho. Leia, mesmo não sendo o centro das atenções da história, serve como um pretexto para o questionamento: até que ponto a defesa da ideologia deve se sobressair mesmo diante de tantas perdas humanas? Aliás, todo personagem do filme, se analisado profundamente, possui um sub-texto incrível e passível de ser relacionado com qualquer aspiração humana.

E é por isso que o longa talvez seja o retrato definitivo da franquia. "Star Wars" nunca foi sobre uma complexidade de roteiro, mas sim sobre uma abordagem simples que desse espaço ao desenvolvimento dos personagens. O roteiro linear pode muitas vezes incomodar os mais críticos devido a decisões mais facilitadas, mas, em momento algum, Rian Johnson erra onde não poderia errar. São 2 horas e 32 minutos de pura magia, nostalgia e emoção. Chega na parte final do filme, em seu clímax, e o único sentimento remanescente é o desejo de ficar um pouco mais naquele universo tão aconchegante. Diante de todos os problemas enfrentados pela humanidade atualmente, "Star Wars: Os Últimos Jedi" se apresenta como um refúgio caloroso que consegue nos fazer embarcar em uma jornada incrível, em que a semente da esperança, mesmo que dentre poucas pessoas resistentes, pode ser a fagulha que inflamará um universo inteiro em prol do bem.

Nota: 


- João Hippert



domingo, 8 de outubro de 2017

Crítica de "Blade Runner 2049"

"Esses momentos se perderão no tempo. Como lágrimas na chuva". A frase mais icônica do clássico "Blade Runner", de 1982, é um daqueles "movie moments" que ficam marcados. É como se fosse uma única sentença representando todo o ideal do filme; todas as suas provocações filosóficas e existenciais. "Blade Runner" é um dos marcos do cinema e, muito provavelmente, o melhor filme de ficção científica já feito. Baseado no magnânimo livro "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?", o longa situa-se em uma futurística Los Angeles no (até então) longínquo ano de 2019. Em um ambiente comandado por uma gigantesca corporação chamada Tyrell, seres denominados "replicantes" começam a ser produzidos como forma de trabalho escravo para as colônias fora da Terra. Uma nave de replicantes, contudo, se desvincula do padrão e retorna à Terra. Cabe então ao caçador de androides (blade runner) Deckard (Harrison Ford) caçá-los e aposentá-los. Apesar de parecer uma trama simples, essa história distópica, responsável pela criação do universo "cyberpunk", coloca em xeque as questões do ser humano sobre o que é ser humano. Até que ponto uma máquina deixa de ser máquina para ser comparada a um ser vivente? Quais são os limites entre a artificialidade e a originalidade? Indagações como essa são transmitidas ao espectador durante toda a metragem - e as respostas parecem nunca chegar. É importante ressaltar, portanto, a influência de "Blade Runner" na cultura pop em geral. Se hoje usa-se a frase "Isso é muito Black Mirror" é porque "Blade Runner" revolucionou o cinema, mostrando que ficções científicas "cabeça" ainda tem espaço no imaginário popular. Em decorrência disso. tivemos "Matrix", "Ela", "RoboCop", "Ex Machina", além da já citada "Black Mirror" e da excelente série "Westworld".

Chegamos então em 2017 com a promessa de retorno ao universo tão complexo que é o dessa distopia. O filme acompanha o policial K (Ryan Gosling) que, depois de aposentar um replicante, descobre coisas que podem mudar o rumo de sua vida - e de sua "espécie". Mais uma vez, a trama principal do filme é simples. O roteiro escrito por Michael Green e Hampton Fancher apresenta elementos clássicos de filmes policiais, onde a investigação é o que comanda o desenrolar do enredo. Mesmo assim, o texto se apresenta de forma bastante lenta, sem se apressar para as resoluções da história. Isso não é uma coisa ruim: apesar de existirem cenas de ação, o foco aqui é desenvolver os personagens introspectivamente, dando diversas camadas a eles. Talvez a jornada de K seja a mais complexa, já que o espectador nunca sabe o que esperar do personagem. Isso porque a atuação (ou a falta dela) de Ryan Gosling contribui muito para o apego ao protagonista. O ator mostra-se versátil ao interpretar um personagem que apresenta um ciclo de autodescoberta, em que, muitas vezes, o replicante mostra-se mais humano do que os humanos do filme. Aliás, isso é o que faz "Blade Runner 2049" ser tão fascinante. O público nunca sabe definir quais personagens são replicantes, além daqueles que são explicitados. E estes são os mais bem escritos, visto que apresentam angústias e sentimentos genuinamente humanos. Seria a memória a única coisa que nos torna, efetivamente, especiais? E se a ciência fosse capaz de criar implantes de memórias tão reais que se confundissem com as próprias memórias, como definir o que é realidade? O roteiro abre muitas possibilidades, mas não concretiza nenhuma. Embora seja um "blockbuster", o filme preza pela reflexão e pelo raciocínio do espectador.

A direção é da sensação do momento Denis Villenueve. Após conceber excelentes obras, tais como "Os Suspeitos", "O Homem Duplicado" e "A Chegada", Villenueve nos presenteia com uma direção primorosa. Os traços de "A Chegada" são evidentes aqui: uma paleta escura e frívola para ambientar um universo fúnebre e deprimido. As cores do filme, aliadas à fotografia, expressam o sentimento daquele mundo, onde a artificialidade toma conta e os replicantes se mostram mais humanizados do que o próprio ser humano. Aliás, o filme aborda o famoso Teste de Turing, pois, depois de uma máquina ter consciência da própria existência, o que a torna diferente de uma entidade viva? Se fôssemos pegar por esse lado, o ser humano desconhece os mistérios que definem a sua existência. O que nos impede de sermos máquinas criadas por outros seres? Essa angústia provocada pela reflexão metafísica é realçada pelo ótimo trabalho de som do filme, que cria um ambiente tenso, profundo e deveras inquietante. Villenueve também acerta ao utilizar, na maior parte do tempo, "takes" abertos que prezam pela imersão do espectador. É interessante notar cada detalhe da cidade, desde os hologramas gigantes e o fusionismo cultural das ruas até as robôs amantes (alguém aí também lembrou de "Ela"?). A habilidade do diretor de posicionar sua câmera e a escolha acertada dos planos corrobora a veracidade do universo criado. Por se passar em um futuro distante, mas plausível; essa familiaridade gerada pelo visual do filme provoca uma angústia ainda maior. Afinal, "Blade Runner 2049" parece não ser apenas uma diversão escapista, mas uma verdadeira viagem no tempo.

O "casting" do filme é outro ponto sensacional. Ryan Gosling realmente rouba o filme na atuação de sua vida (e que fase excelente do ator), mas Harrison Ford, Robin Wright e Jared Leto demonstram um verdadeiro talento, ao incorporarem personagens dúbios, em um universo extremamente desconfiável. Aliás, "Blade Runner 2049" é uma obra que deixa uma carga negativa no espectador; parece que depois de toda a tensão e urgência apresentadas durante o filme, ao final existe um sentimento de êxtase. Talvez esse seja o grande papel de uma boa distopia: apresentar um mundo futurístico com base no que existe hoje. E a crescente falta de empatia pelas pessoas, a mecanização das tarefas humanas e o desejo de conquista, provenientes do nosso mundo pós-moderno, possibilitam o espectador a pensar na credibilidade daquilo que é apresentado. George Orwell, Aldous Huxley, Isaac Asimov, Philip K. Dick estariam orgulhosos. Trata-se de uma continuação digna, capaz de ampliar o universo criado pelo filme de Ridley Scott, ao mesmo tempo que mantém a essência da obra. "Blade Runner 2049" é um filme profundamente reflexivo, que através de ritmo seguro e roteiro circular, questiona o espectador acerca do que é ser humano. E o mais angustiante? Parece que não temos a resposta.

Algumas interpretações são possíveis com o filme. Deixarei abaixo uma que eu fiz durante a sessão, portanto cuidado com os SPOILERS.
"Blade Runner" 2049 mostra que o ser humano vive com base nas suas memórias, porém elas são meras construções de sua mente; extremamente maleáveis, enviesadas e arbitrárias. Enquanto isso, as memórias replicantes são perfeitas, fato que deixa a possibilidade de se interpretar que o replicante é um ser humano evoluído.
Observe como o roteiro "espelhado" entre os dois filmes corrobora essa ideia: no primeiro filme acompanhamos a transformação do Deckard-humano em Deckard-replicante (embora essa condição não seja explícita, existem fortes indícios). Já no segundo, K passa de um replicante para um replicante mais "humanizado", após ter consciência de sua própria existência. Logo, essa jornada narrativa em conjunto dos dois filmes mostra uma descrença na humanidade enquanto espécie atual, mostrando que a inteligência artificial pode vir a ser o próximo passo do processo evolutivo. "More humans than humans". 

Nota: 

- João Hippert

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Crítica de "It: A Coisa"

Os anos 80 foram um marco na indústria cultural, especialmente na dos Estados Unidos. Em um contexto de final de Guerra Fria, o "American way of life" já havia se espalhado pelo mundo inteiro - possuindo o respaldo de Hollywood. Ao se remeter a essa época, é comum lembrarmos dos clássicos filmes de sessão da tarde, que expressavam a vida nos "high-school" estadunidenses, tais como "Clube dos Cinco" e "Curtindo a Vida Adoidado" e aqueles que todo bom admirador do gênero aventura não deixa passar batido, por exemplo "Os Goonies", "Conta Comigo", "E.T.", dentre muitos outros. A marca dos anos 80, contudo, também foi responsável pela ascensão do excelente escritor de horror Stephen King, responsável por clássicos como "O Iluminado", que misturava elementos culturais da época com a atmosfera terrível proposta pelo autor. Nesse sentido, em 2016, o mundo foi abalado pela estréia da série "Stranger Things", que foi responsável por homenagear os grandes clássicos dos "anos dourados", através de citações explícitas e exercícios de gênero mais sutis. Pode-se dizer que o universo criado por King teve forte influência na concepção do seriado que, por sua vez, teve impacto direto sobre a mais nova adaptação do escritor para o cinema: "It: A Coisa".

O filme acompanha um grupo de jovens em uma pequena cidade do interior dos EUA que precisa lidar com o desaparecimento de pessoas na cidade, fato que é atrelado à presença do Palhaço Dançarino (Pennywise). A estrutura do roteiro escrito pelo trio Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman apresenta semelhanças gritantes com "Stranger Things" (que já é um compilado de vários clássicos infantis). O foco aqui está na relação entre os personagens; o mistério é apenas a chave para o desenvolvimento dos conflitos. Talvez, por esse fato, muitas pessoas decepcionaram-se com o tom do filme, por esperarem algo mais amedrontador e horripilante, como aqueles filmes ligados a espíritos ("Annabelle" e afins). Entranto, "It: A Coisa" nunca se propõe a isso; pelo contrário, já que a vitalidade do longa está no excelente desenvolvimento de personagens, muitas vezes propositalmente estereotipado, muitas vezes subversivo. Assim como em "Stranger Things", aqui vê-se uma personagem feminina extremamente forte (Beverly), que é detentora da coragem do grupo e responsável pelo desenrolar das decisões do grupo. Por outro lado, a inserção do personagem negro (Mike) provoca uma crítica velada ao racismo institucionalizado da época, já que o personagem sofre diversos tipos de discriminação por um grupo de "bullers". Estes, por sua vez, são um retrato da enraizada cultura do "bullying" no país, cujo comportamento é direcionado aos considerados mais "frágeis". Através da apresentação de tais arquétipos, o filme é capaz de representar um retrato fiel dos anos 80, mas sem contestar os valores vigentes.

A construção da afetividade do público para com os personagens é muito acentuada pela excelência do elenco mirim: o grupo todo parece estar em sintonia com o universo de King e o senso de amizade, porém desconfiança perante o desconhecido é nítido. Os atores são ajudados pelo primoroso trabalho do roteiro em acrescentar subcamadas a cada personagem, tornando-os únicos e relevantes (mesmo que alguns venham a ser esquecidos com o passar do tempo). Além disso, a caracterização de Pennywise é fantástica. Certamente trata-se de um dos maiores marcos do cinema no ano de 2017, devido ao grande alcance que o filme já teve. O belo trabalho de maquiagem e de figurino aliado aos efeitos visuais reitera o semblante ambíguo do Palhaço, um figura controversa em relação aos sentimentos mostrados, mas sempre aterrorizante. Talvez pelo fato do longa focar muito na relação entre o grupo principal, Pennywise foi deixado como o simples vilão da história, sem o desenvolvimento completo que muitos gostariam. Provavelmente isso será assunto para um próximo filme. Ademais, o excelente design de produção e a competente concepção da fotografia são responsáveis por propiciar uma verdadeira viagem a uma década remota, mas com traços de horror. Apesar da familiaridade com a ambientação, há algo de sinistro que pode ser percebido através do figurino e dos cenários.

Apesar de ser um filme que trabalhe muito bem as relações interpessoais entre os protagonistas e seus diferentes pontos de vista quanto à solução de um problema maior, o diretor Andy Muschietti tem o mérito de proporcionar uma película, muitas vezes, perturbadora. O trabalho de câmera de Muschietti apela, em grande parte do tempo, para o convencional, com um uso excessivo da tática do "jump scare". Mesmo assim, tal tática reforça o retorno aos clássicos proposto pelo filme, mesmo que não deixe de ser uma obra original. O uso de convenções de gênero pelo diretor reforça a sua proposta de viagem a uma época passada, sem apresentar inovações técnicas que claramente se mostrariam avançadas no tempo. A direção, porém, não limita de nenhuma forma o andamento da história, já que o controle da câmera é tamanho que o filme tem um corte perfeito, com a duração necessária. O trabalho de montagem acerta ao conferir um ritmo extremamente acessível ao longa-metragem, mostrando as verdadeiras qualidades que um "blockbuster" precisa ter: diversão dotada de recursos cinematográficos em harmonia. É inevitável pensar no filme como uma espécie de episódio isolado de "Stranger Things", o que não é maléfico. Contudo, a nova adaptação de King ao cinema mostra um jeito especial de tratar o terror, de forma organizada e funcional. "It" é um filme que mescla elementos de aventura e horror de forma coerente, contando com um roteiro redondo e uma direção competente que tornam o filme uma diversão completamente satisfatória.

Nota: 


- João Hippert