segunda-feira, 24 de julho de 2017

Precisamos falar sobre: "Sete Minutos Depois da Meia-Noite"

"Sete Minutos Depois da Meia-Noite" (originalmente "A Monster Calls") é um daqueles filmes que fazem sucesso nos festivais ao redor do mundo, porém, ao atingir solos brasileiros, duram pouco e fazem parte de um circuito extremamente reduzido. A data oficial de estreia do filme no Brasil foi 5 de Janeiro de 2017, contudo grande parte do público não teve a oportunidade de ir ao cinema. Eis que o filme surge no catálogo Netflix e torna-se mais acessível, suscitando diversas discussões acerca de temas deveras profundos e filosofantes.

O filme acompanha Conor, um menino que sofre bullying na escola e tem uma mãe com uma doença em estágio terminal. O menino começa a receber visitas de um monstro "amigo", que conta para ele algumas histórias. A premissa parece básica, mas a estrutura do longa é diferente de quase tudo que já vi no cinema. Trata-se de um exímio conto de fadas, na acepção mais pura da palavra, sem os devaneios tão comuns na versão Disney (nesse quesito se assemelha ao excelente "O Labirinto do Fauno"). O clima pesado referente à situação emocional na qual se encontra o protagonista conversa com a morbidez das histórias contadas pelo monstro. De certa forma, é possível comparar as histórias com a própria realidade em que vivemos, haja visto que uma história sempre parte de um contexto real. E, muitas vezes, uma simples história fantástica pode nos ensinar muito mais do que palavras jogadas ao vento em seu sentido denotativo.

Nesse sentido, o diretor J. A. Bayona acerta em cheio ao conectar os diversos elementos fantásticos com as situações vivenciadas pelo menino. Se em uma cena vemos Conor destruindo um castelo imaginário concomitantemente com um caos produzido na casa de sua avó, também percebemos como tudo o que ele pensa sobre a moral deve ser destruído. Estamos acostumados a viver em um mundo regido por normas de convivência e comportamento e, o simples fato de desejarmos algo fora do comum, nos torna culpados - não só pela sociedade em que vivemos, mas também por nossa própria consciência. O monstro, ao demonstrar a necessidade de Conor destruir os ambientes opressores ao seu redor, seja na metáfora de um castelo, seja no ambiente arcaico da casa de sua fria avó, prova como a verdade humana só pode ser atingida ao se desconsiderar todo o ambiente ao redor. Fugindo de perspectivas deterministas (tão presentes no mundo atual), o longa aborda profundamente a concepção platônica do ser, fazendo o público refletir acerca das verdades irrefutáveis que temos que engolir e refletindo sobre a famosa questão: "o que faz o ser humano ser humano?".

(a partir daqui alguns spoilers do filme são revelados)

Toda essa reflexão é extremamente favorecida pelo arco final do protagonista. Como um menino com o pai ausente e sem nenhum amigo é capaz de lidar com a eminente morte de sua mãe, único laço amoroso que ainda possui? Inicialmente, Conor parece desejar muito que sua mãe sobreviva, apelando ao monstro (que é uma árvore curandeira) para salvá-la. Entretanto, o monstro parece desconfiar da veracidade do sentimento do menino e dá indícios do que ele realmente queria escutar: a verdade. Conor deseja que sua mãe sobreviva (é claro), mas ao mesmo tempo não suporta que sua mãe sofra tanto com a doença. Ao mesmo tempo que ele quer sua mãe bem ao seu lado, ele quer que seu sofrimento acabe. Mesmo que isso signifique sua morte. Ao destruir todas as barreiras impostas por sua consciência, Conor descobre ao final que não é "pecado" apresentar tais sentimentos dualistas. Simplesmente faz parte de ser humano: às vezes queremos coisas contraditórias e sofremos com coisas exatas. Não existe uma fórmula certa para nos dizer o que fazer e como fazer. Em uma belíssima cena final, o monstro narra: "E, por fim, o menino agarra forte sua mãe e finalmente deixa ela ir." Ou seja, ao final de sua jornada Conor percebe que a estadia de sua mãe na Terra já estava no fim e aceita com resignação. Apesar de sentir tristeza e saudade, Conor entende que faz parte da vida. A vida é um passeio onde apenas conhecemos o início e temos certeza do fim. "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" nos mostra como o sentimento humano é paradoxal e como está tudo bem por conta disso. As grandes reviravoltas da vida e os momentos de sofrimento são as coisas que a tornam extremamente válida, mesmo que não a entendamos plenamente. É nossa parte aproveitarmos cada momento da forma que achamos melhor, deixando de lado qualquer meia culpa que nos impeça de alcançarmos nossos objetivos. Ás vezes precisamos ouvir palavras de um monstro para realmente darmos valor à mensagem.

- Demolidor

domingo, 2 de abril de 2017

Crítica de "A Bela e a Fera"

Walt Disney Studio é sinônimo de clássico. Desde os primórdios do cinema, com a realização de "Branca de Neve e os Sete Anões", até o recente "Zootopia". Quando se trata de criar universos e personagens fantásticos, a produtora é imbatível. De uns tempos para cá, todavia, a Disney tem investido em produções que retomam universos já conhecidos pelo público. Basta lembrar dos recentes sucessos "Mogli" e "Malévola", que renderam uma boa bilheteria, além de serem elogiados por boa parte da crítica internacional. Eis que chega a vez de revistarmos um dos contos de fada mais clássicos de todos: "A Bela e a Fera", que já havia se tornado uma animação em 1991. O longa acompanha Bela (Emma Watson) que, após ficar presa no castelo de um terrível monstro (Dan Stevens), começa a desenvolver sentimentos pela fera, contrariando a opinião dos habitantes de seu vilarejo.

O roteiro do filme, escrito por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos, segue o senso comum da narrativa de mundos fantasiosos. As viradas são feitas com bastante segurança, sem surpresas maiores ao longo do longa. Isso é algo positivo, pois faz com que a direção e a fotografia se sobressaiam na representação do universo fantástico. Os roteiristas lidam muito bem com o primeiro ato do filme, em que somos apresentados ao cotidiano monótono de Bela e sua vontade por ser mais do que aquilo. Nesse sentido, o desenvolvimento da protagonista é perfeito, visto que ela é sempre senhora de seu destino e "motor" dos acontecimentos ao seu redor. Em tempos de escândalos machistas, uma mensagem como essa é imprescindível. Além disso, o roteiro introduz certos elementos que trabalham a sexualidade dos personagens, o que foi alvo de crítica ao redor do mundo. Contudo, o trabalho foi bem feito, reiterando o papel do cinema em quebrar certos tabus vigentes na sociedade.

A direção de Bill Condon é essencial para a construção do ambiente do filme. Desde o início, com o movimento da câmera se afastando e aproximando, dando sensação de pequenez e grandeza, o espectador consegue distinguir a dimensão dos locais referidos. A fluidez do movimento de câmera na cidade permitem cenas belíssimas, que são realizadas com excelentes números musicais. As músicas em si não precisam de comentários, já que são clássicas desde a animação de 1991. Mas a sensação de ouvir "Beauty and the Beast" e "Be Our Guest" na telona é sempre a melhor possível. A coreografia e o figurino são extremamente condizentes com o tom fabuloso da metragem. Bill Condon nos oferece uma jornada impressionante a um universo já conhecido, mas sob uma perspectiva diferente e especial. Talvez seja por isso que os remakes da Disney sejam tão bem feitos. O diretor tem a liberdade de dar seu ponto de vista para a história, mas esta continua sendo "A Bela e a Fera". Um clássico é um clássico, independente de sua roupagem.

Luke Evans interpreta um Gaston carismático e com forte presença em tela. Emma Watson mostra-se uma atriz com muitas camadas, ao conseguir dar força e sensibilidade para uma personagem deveras complexa. Talvez o único grande problema do filme seja seu ritmo. Na transição do primeiro ato de apresentação para o segundo ato de desenvolvimento, o diretor se perde um pouco no rumo da narrativa. Enquanto o início é levado com bastante naturalidade e calma, dando ênfase à criação dos ambientes e personagens, o segundo ato se acelera demasiadamente. O romance inicial entre a Bela e a Fera é resolvido em pouquíssimas cenas, o que tira do filme a fluidez que havia sendo apresentada. O amor entre os personagens só é crível devido ao conhecimento do público acerca da história prévia, o que configura um seríssimo problema estrutural da obra. Ademais, o filme de 2017 é uma digna refilmagem de um clássico, trazendo a história sob um ponto de vista inventivo, mas sem tirar o brilho que imortalizou a animação de 1991.

Nota: 

- Demolidor

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crítica de "Fragmentado"

M. Night Shyamalan talvez seja a eterna promessa de Hollywood. O diretor abalou o mundo em 1999 com o poderosíssimo e já clássico recente "O Sexto Sentido". Um ano depois, Shyamalan trouxe para o público o bom "Corpo Fechado". Vale ressaltar que muito do mérito de ambos os filmes está na construção narrativa perfeita até a chegada de um plot twist. E é essa a grande sina da carreira do indiano até então; já que o público sempre espera algo surpreendente, os filmes nem sempre agradam. Mas eis que chega "Fragmentado", que parece realmente quebrar com tudo aquilo que esperam de Shyamalan. O filme conta a história de um homem com múltiplas personalidades (James McAvoy), que sequestra três meninas na porta de um shopping sem motivo aparente. O roteiro se desenrola através das conversas das garotas com as diferentes facetas do homem.

Primeiramente, é notório o ambiente angustiante do filme. A direção calma, ao início.sem movimentos aparentes, e a câmera focada nas expressões faciais dos atores permitem uma completa imersão no ambiente mostrado. Aliado a isso, está o roteiro deveras redondo, que consegue conter diversas camadas dignas de discussão. Ora, quando McAvoy exibe uma personalidade infantil, o espectador sabe que é um momento de alívio e até mesmo de conseguir algumas vantagens. Quando o personagem torna-se uma mulher, o sentimento mais frequente é a dúvida e o receio quanto às ambições da personagem. E não há como negar o medo assaltante que a faceta maligna impõe. O roteiro consegue, de forma prática, caracterizar as diferentes personalidades, de modo que sejam de fácil reconhecimento.

Um ponto negativo do roteiro é a falta de aprofundamento no desenvolvimento das meninas. Apesar de Casey (interpretada pela excelente Anya Taylor-Joy) apresentar um passado sombrio que vai sendo mostrado aos poucos, tal fato apenas serve para corroborar uma decisão do roteirista em relação ao clímax. Além disso, o texto se contradiz ao final da metragem, quando Shyamalan deixa um pouco o universo coeso criado para investir em algo mais sobrenatural. Apesar disto não ser algo totalmente estranho na filmografia do diretor, percebe-se uma discrepância em relação ao resto do longa que dá ao final um peso menor. O ponto alto do filme é James McAvoy e suas múltiplas personalidades. O roteiro tem o talento de relatar como é o cotidiano de uma pessoa com o transtorno, seja através de diálogos expositivos (que nunca tornam-se maçantes), seja pelo uso da câmera subjetiva. Aliás, a câmera de Shyamalan é extremamente inventiva e dinâmica, tornando o ritmo do filme ideal. Nesse quesito, o diretor lembra muito Hitchcock em sua boa fase, conseguindo aliar uma boa ambientação e fluidez cinematográfica a um roteiro instigante.

Se em 2016, o suspense confinado "Rua Cloverfield, 10" nos presenteou com a excelente atuação de John Goodman, aqui McAvoy rouba a cena. O ator demonstra uma flexibilidade imensa, ao transitar de opostos de personalidade em questão de segundos. É visível o esforço, até mesmo físico, do ator na realização de um excelente trabalho, provavelmente o melhor de sua carreira. Contudo, é importante avisar que "Fragmentado" não é um filme fácil de ser digerido. São 2 horas de pura tensão e incerteza, com cenas repugnantes, muitas vezes. Um fato interessante é a última cena do longa, que parece criar um "multiverso" dos filmes do diretor. Shyamalan apresenta um filme redondo, com traços "hitchockianos" de suspense, atuação primorosa de McAvoy e ritmo extremamente bem conduzido, que tornam "Fragmentado" um excelente retrato de múltiplas personalidades e da ignorância do homem em relação ao seu potencial cerebral.

Nota: 

- Demolidor

sexta-feira, 3 de março de 2017

Crítica de "Moonlight: Sob a Luz do Luar"

"Moonlight" talvez seja o filme comentado do momento. A grande surpresa independente que conseguir tirar o Oscar de melhor filme da mão de "La La Land" (literalmente). Mesmo antes de assistir ao filme, há de reconhecer-se a importância de sua vitória. Depois da polêmica de que a Academia é branca demais, "Moonlight" chega com força para demonstrar que negros também merecem destaque no cinema. O fato do filme ter ganhado o principal prêmio da noite atraiu holofotes à produção, aumentando até mesmo sua exibição em salas brasileiras. Obrigado Oscar! Mas vamos aos fatos. "Moonlight" acompanha Chiron, em três fases de sua vida: a infância (Alex R. Hibbert), a adolescência (Ashton Sanders) e a fase adulta (Trevante Rhodes). O menino mora em Miami com sua mãe drogada Paula (Naomie Harris), em um ambiente extremamente impróprio para seu desenvolvimento tanto intelectual quanto moral e é ajudado pelo traficante Juan (Mahershala Ali, vencedor do Oscar).

É aí que começa a primeira crítica social. Ao colocar em Juan a responsabilidade de educar o menino, sendo o exemplo que ele não tem em casa, o filme dá um alerta acerca das condições do lar de Chiron. Em que universo possível a educação de um criminoso prescindiria a criação de uma mãe? A crítica é tão sutil, que o espectador mais desavisado não percebe. Trata-se de um estudo de como uma relação familiar quebrada pode ser desbancada por qualquer outro tipo de relação. O roteiro tem a inteligência de humanizar Juan ao extremo, dando a ele o papel que mais inspira empatia do público. A relação construída entre eles é extremamente palpável, principalmente devido aos diálogos entre os personagens, principalmente aqueles em que o traficante aconselha Chiron a ser quem ele quer ser, independente do que os outros pensam. E é aí que entra a temática principal do filme: a homossexualidade. Chiron, ao longo do longa, sempre demonstra incerteza em relação ao que é. Basta lembrarmos da cena em que pergunta para Juan ("Eu sou gay?"). E Juan em uma resposta brilhante ("Você não precisa saber agora.).

O filme trata justamente da descoberta de Chiron, da sua busca por uma identidade que o defina. Ele se vê deslocado dos demais colegas, sofrendo xingamentos e espancamentos diários. O roteiro de Barry Jenkins tem a calma necessária para apresentar os fatos cotidianos de sua vida e mostra como o protagonista lida com cada situação. Chiron é um menino extremamente contido, sem apoio em casa, que se vê perdido durante a maior parte do tempo. Parece sempre que está fugindo de sua própria identidade e metáforas visuais como a dele correndo de outros meninos ressaltam essa ideia. O roteiro faz uma ode às diferenças, mostrando que cada ser humano é único e livre para ser o que desejar, mesmo que isso signifique transpor padrões sociais vigentes. Nesse quesito, a jornada de Chiron remete ao filme "O Segredo de Brokeback Mountain" e, até mesmo, "Boyhood". Apesar de suas inúmeras qualidades, "Moonlight" apresenta alguns problemas. Percebe-se a falta de peso nas consequências de determinados acontecimentos para a construção de Chiron em si. Se a genialidade de Jenkins está na crítica social e no representação de uma jornada por autoconhecimento, o roteiro linear apresenta algumas lacunas sentidas. Mesmo que o desenvolvimento introspectivo do protagonista seja primoroso, falta energia na construção da história, fazendo com que boa parte do filme tem uma monotonia desnecessária. Se por um lado ela pode agradar para potencializar o tom intimista da metragem, em certos momentos ela parece simplesmente forçada. De todo modo, a mensagem principal da obra não é afetada por deslizes momentâneos.

O elenco está sensacional. Os 3 atores que interpretam Chiron realizam trabalhos excelentes, além de parecerem muito entre si. Mahershala Ali segura muito bem as cenas em que é requisitado, passando uma segurança e um carisma necessários. Naomie Harris é o destaque do elenco, principalmente por interpretar a personagem mais complicada, haja visto os descontroles psicológicos frequentes da mãe. Apesar disso, Naomie apresenta uma serenidade no olhar que dá uma sensação de amor, apesar de tudo. Percebe-se como ela está possuída pelo vício e como em alguns lampejos de lucidez, ela é somente uma mãe que ama seu filho, como outra qualquer. Vale ressaltar também a excelente direção de Barry Jenkins. Além de dirigir seus atores de forma deveras consciente, Jenkins demonstra uma fluidez com a câmera na mão que dá uma familiaridade necessária ao longa. Note como na cena em que Juan e Chiron estão no mar a câmera parece estar flutuando, acompanhando o movimento das ondas. Esse tipo de direção aumenta a imersão do espectador no longa, fazendo com que a câmera pareça mais uma testemunha da história. Aliás, é importante lembrarmos que partes da história foram tiradas da vida do próprio diretor e de amigos dele. Não é difícil imaginar tal panorama: é uma realidade muito crível, até mesmo no Brasil. "Moonlight" tem a coragem necessária de desenvolver a descoberta da homossexualidade no subúrbio norte-americano, servindo como pretexto para uma magnífica jornada de autoconhecimento e crítica social.

Nota: 

- Demolidor

quinta-feira, 2 de março de 2017

Crítica de "Logan"

Os X-Men formam, provavelmente, a franquia de heróis mais importante do cinema. No longínquo ano de 2000, quando filmes baseados em HQ não eram tão recorrentes, um sujeito chamado Bryan Singer resolveu dirigir um filme dos mutantes. Mesmo que a qualidade possa ser debatida, foi esse o filme que iniciou toda uma nova era em Hollywood. Naquele momento o mundo conhecia o Wolverine de Hugh Jackman, que desde então, participou de inúmeros filmes da franquia X-Men, assim como 2 filmes solo do mutante que é "o melhor no que faz". Eis que "Logan" é anunciado: o último filme de Jackman como Wolverine. Apesar do impacto ter sido grande, este veio com uma certeza dose de desconfiança, haja visto os fiscos anteriores "X-Men Origens: Wolverine" e "Wolverine Imortal".

A campanha do filme, contudo, conseguiu passar uma imagem extremamente positiva da produção. A divulgação de fotos em preto e branco, o trailer com música do Johnny Cash, piadas pontuais em relação ao próprio universo dos quadrinhos e a violência explícita deram ao filme um tom totalmente diferente do que já foi feito no cinema. Vale ressaltar que essa liberdade criativa só foi possível devido ao sucesso de "Deadpool", que provou que um filme de herói não precisa ser, necessariamente, infantil. Tomando isso como partida, chegamos ao impressionante "Logan". Em um futuro próximo, a raça de mutantes está praticamente eliminada. Logan (Hugh Jackman) trabalha como chofer na cidade de El Paso, onde cuida do poderoso Professor Charles Xavier (Patrick Stewart). O anonimato de Wolverine é colocado em cheque quando a jovem mutante Laura (Dafne Keen) surge em seu caminho e precisa de sua ajuda.

A cena inicial do filme chega para definir seu tom. Logan está deitado no seu carro, acorda, solta um palavrão e parte para a violência. Mas não se engane. Se pegarmos qualquer filme já feito com o mutante, o sangue das pessoas nunca é perceptível. Aqui acontece o contrário, já que todos os oponentes de Logan são mostrados com ferimentos profundos e muito sangue, lembrando muito como é feito nos quadrinhos. O próprio protagonista é mostrado inúmeras vezes repleto de cortes profundos e cicatrizes, algo jamais visto no cinema antes. A história criada por James Mangold, e roteirizada por ele, Scott Frank e Michael Green, apresenta um tom circular. O espectador, apesar de contar com alguns momentos de pura perplexidade, consegue perceber uma linearidade no roteiro. Além disso, o ritmo do filme não é frenético; ele toma seu tempo para desenvolver seus personagens e apresentar o ambiente em que a história se insere. O longa se passa em um ambiente sem vida, extremamente hostil e a fotografia ajuda a aumentar a sensação de incerteza do espectador.

O sentimento de tensão é, provavelmente, o que mais aparece no filme. Como o roteiro se preocupa muito em detalhar as situações, a apreensão é potencializada. Há um senso de urgência e desconfiança que paira sobre o filme inteiro, deixando o público inquieto durante toda a metragem. Outro fator extremamente positivo do roteiro é a construção do arco de seu protagonista. Pode se dizer que configura-se como algo impecável, em que nenhuma alteração se faz necessária. Logan é apresentado como um ser cansado de sofrer perdas na vida, ao mesmo que tempo que é desacreditado no futuro da raça mutante. Mesmo que os diálogos do personagem ajudam a clarear essa situação, é importante destacar a atuação de Hugh Jackman. Totalmente introspectivo, contido quando necessário, assim como explosivo nas horas oportunas, Jackman provê a melhor atuação possível. O retrato maduro do personagem combina com o ator e o peso da idade é representado com maestria. Existe sempre a sensação de que Logan não está bem hora alguma, e essa representação torna-o extremamente humano, mesmo que não seja. É interessante também perceber as várias facetas apresentadas, já que Logan não é nada idealizado. Nem todas as suas ações são louváveis, e esse balanço dá ao longa um tom extremamente verossímil.

A direção de James Mangold ("Johnny & June") reúne todos os aspectos bons da metragem. Ele tem a calma necessária para dirigir uma boa cena de diálogo, ao mesmo tempo que apresenta o frenesi necessário a uma cena de ação impactante. Sua câmera muito limpa consegue imergir o espectador de tal forma, que as mais de 2 horas passadas não pareçam mais de 10 minutos. Mangold demonstra que um filme de herói não precisa ser 100% ação, provendo um filme que sabe valorizar as partes tocantes de um drama bem feito. A trilha sonora melancólica também é extremamente condizente com o tom proposto, combinando-se com os demais elementos cinematográficos em uma harmonia perfeita. O elenco de apoio também está primoroso. Stewart interpreta o Professor X de uma forma totalmente diferente do que já fez, construindo um personagem multifacetado. Aliás, todos os personagens possuem crenças e angústias díspares, fazendo com que sejam repletos de camadas a serem analisadas.

"Logan", por fim, é um filme que incita muitas discussões acerca de temas universais, tais como moral, perda e lealdade. A história linear serve como plano de fundo para um profundo desenvolvimento das relações interpessoais entre os personagens. Trata-se de algo completamente diferente do que todo mundo já viu e isso é importante para renovar o gênero de herói. É possível que bons dramas dotados de crise existencial configurem-se como excelentes filmes do gênero. A FOX acerta mais uma vez, ao realizar um filme completamente condizente com a essência do personagem, em uma despedida digna de Hugh Jackman ao personagem. O roteiro introspectivo, a direção limpa e apreensiva, as atuações viscerais e emocionantes tornam "Logan" um dos melhores filmes de super-herói já feitos.

Nota: 

- Demolidor

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Crítica de "Aliados"

Robert Zemeckis talvez seja um dos diretores estadunidenses mais injustiçados pelo público. Não que existam muitos questionadores de seu trabalho, mas seu nome não é tão imortalizado como o de Spielberg, por exemplo. Basta lembrarmos que Zemeckis foi o diretor da trilogia "De Volta para o Futuro", do clássico "Forrest Gump" e do icônico "O Náufrago". Tal filmografia reforça a sua habilidade em contar boas histórias, acima de tudo. Depois de realizar o excelente "A Travessia", em 2015, Zemeckis retorna, aos 64 anos, com o filme "Aliados". A história acompanha Max Vatan (Brad Pitt) e Marianne Beauséjour (Marion Cotillard), um casal que se conhece durante uma missão em Marrocos, durante a II Guerra Mundial. Quando retornam para Londres, a relação entre eles é colocada em cheque, em decorrência das pressões da guerra.

Primeiramente, vale ressaltar o acerto em relação ao tema. Muitos filmes ambientados durante a Segunda Guerra prezam por retratar batalhas cruciais ou a vida de personagens importantes. "Aliados" chega com uma proposta diferente: trata-se de um filme tipicamente de espionagem, remetendo muitas vezes à franquia 007. Além disso, o contexto histórico, mesmo que seja um pano de fundo, é extremamente bem construído, tanto em termos narrativos quanto em relação à ambientação. Esta, por sinal, é perfeita. O uso de cores diferentes em ambientes diferentes dão ao filme um tom realista necessário, conseguindo transportar, com fluidez, o espectador para o tempo referido. O roteiro de Steven Knight consegue, além disso, retratar o cotidiano das pessoas em tempos de guerra. É muito corriqueiro assistirmos no filme momentos de relativa tranquilidade, até que os sinos ressoem e os ataques aéreos iniciem. Zemeckis tem a habilidade (e a experiência) de potencializar a tensão e a insegurança presentes no ambiente, através de planos fechados que incitam angústia.

Zemeckis também se destaca ao construir a relação entre o casal protagonista. Existe uma cena, por exemplo, em que vemos o olhar apaixonado de Max, até que a câmera se afasta e nos deparamos com a reação de Marianne. A câmera se afasta mais uma vez e percebemos que aquilo era um espelho. Podemos analisar esse jogo de câmera como uma metáfora visual, tendo como base o ditado "os olhos são o espelho da alma". É por meio desses pequenos devaneios, que um diretor consegue introduzir em sua obra momentos reflexivos. Talvez o único problema do filme seja o ritmo. O início é bem arrastado, e o roteiro toma um tempo relativamente grande para fixar pontos importantes para a trama. Tendo dito isso, o filme não será um deleite para todos, já que existem, evidentemente, cenas em demasia na projeção. Pode-se até argumentar que o ritmo cadenciado é proposital, observando o desfecho da narrativa, todavia os minutos a mais fazem diferença para o filme como um todo.

A trama espiã é excelente. Knight consegue introduzir pistas ao longo da projeção, mas o espectador está sempre um pé atrás do roteirista. Nesse jogo de "gato e rato" percebemos, ao atingirmos o clímax da história, que o filme tinha base para ter o desfecho que quisesse. O incremento de diversos detalhes durante o enredo possibilitaram que o espectador contasse com a dúvida do final até este acontecer. E quando acontece... Melhor parar por aqui. O elenco está competente, mas Cotillard e Pitt dominam o filme inteiro. Pitt apresenta uma atuação boa, mas que não difere muito do papel que o ator está acostumado a fazer. Ele apresenta bastante carisma, o que ajuda na empatia com o público. Quem realmente merece destaque é Cotillard. A atriz apresenta um desenvolvimento de personagem extremamente complexo, produzindo no espectador uma constante sensação de estranheza. A dubiedade construída pelo roteiro é aumentada com a entrega da atriz. "Aliados" conta com uma direção eficaz, roteiro bem amarrado, atores excelentes, porém o ritmo inicial problemático pesa ao final da projeção.

Nota: 

- Demolidor

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crítica de "Estrelas Além do Tempo"

A segregação racial dos EUA foi uma das situações mais nefastas que a Terra já viu. Negros e brancos sendo separados em todos os aspectos da sociedade era algo corriqueiro na sociedade norte-americana. Contudo, nos anos 60, através de figuras como a do Dr. Martin Luther King, o movimento pelos direitos civis cresceu exponencialmente e a luta dos negros, finalmente, apresentou resultados. É justamente nessa fase de transição que o filme, baseado no livro de Margot Lee Shetterly, se insere. Aqui, acompanhamos a história de três mulheres negras que trabalham nos computadores da NASA, e por meio de seus intelectos se fazem indispensáveis ao programa espacial norte-americano. É interessante vermos que não foram apenas os ativistas assíduos que ajudaram a modificar o padrão social.

Em termos de contexto histórico, o filme é deveras pertinente. Ao mesmo tempo que o roteiro consegue desenvolver muito bem o ambiente segregado do território estadunidense, também demonstra as impassibilidades da Corrida Espacial. O fato de sempre sermos apresentados às mais recentes façanhas do programa russo, faz com que o longa tenha um senso de urgência extremamente desejado. E, é nas entrelinhas, que a crítica social está inserida. Basta percebermos como para a protagonista Katherine Johnson tudo é muito mais difícil, mesmo uma pequena ida ao banheiro. Com o intuito de tornar essa labutação corriqueira, o filme apresenta, inúmeras vezes, o trajeto da personagem atrás de um banheiro especial para negros. Isso traz ao filme uma realidade esmagadora e deixa no espectador um sentimento melancólico. A crítica social bem feita sempre promove divagações sobre a própria realidade e o filme entende isso perfeitamente. 

Um dos problemas do roteiro, porém, é não saber o quanto quer contar da história de cada uma das personagens. Apesar de ser evidente que Katherine é a protagonista, os arcos de Dorothy e Mary às vezes tomam um peso desnecessário. Não é que a história de uma seja melhor do que as outras; pelo contrário: a luta por reconhecimento de todas é venerável. Contudo, ao oscilar muito entre as diversas histórias, o ritmo do longa fica defasado. Às vezes estamos submetidos a um momento de tensão e somos deslocados a um momento calmo demais, fazendo com que desejemos retornar ao arco anterior. Apesar dos 127 minutos do longa se apresentarem com uma fluidez interessante. esses pequenos momentos impedem o ritmo de ser perfeito. Outro problema é a trilha sonora, que, muitas vezes, se faz presente quando não deve e falta quando não pode. Uma história de drama e de superação merecia qualidades musicais que elevassem a emoção do público,

O elenco é algo a ser discutido. Taraji P. Henson, interpretando Katherine, talvez seja o seu ponto fraco. É claro que sua personagem é extremamente difícil, por apresentar diversas emoções contrastantes durante o longa. Henson não consegue, com clareza, fazer esses saltos dramáticos, o que tira, de algumas cenas, a naturalidade que o longa tinha proposto. O elenco de apoio, todavia, está excelente. Octavia Spencer apresenta uma atuação bem imponente, e seu senso de coletivismo é muito bem expressado, Kevin Costner também apresenta uma atuação segura e condizente com o personagem. O problema deste é ser tratado como uma espécie de herói, que realiza boas ações, mesmo sendo um chefe da NASA. No início ele é tratado como alguém impaciente e insensível, mas não é o que o filme mostra.

Pode-se dizer que o filme celebra diversos aspectos valorizados pelo estereótipo norte-americano como a superação e a meritocracia. Contudo, o roteiro tem a sensibilidade de criticar valores sociais repugnantes, o que tira do filme o status de "americanizado". As minúcias da direção de Theodore Melfi são responsáveis por criar uma grande empatia com o público, que acaba, inevitavelmente, torcendo para o sucesso estadunidense, somente por causa do apego às protagonistas. "Estrelas Além do Tempo" é um filme que, através de nuances de direção, torna-se historicamente ponderoso, conseguindo aliar crítica social a bom desenvolvimento de personagens.

Nota: 

- Demolidor